02 maio 2012

Alimenta

O primeiro de Maio encheu as parangonas e trouxe para as ruas milhares. À alienação de outrora, os ditos trabalhadores de hoje carregam uma nova alienação. Os sindicatos já não representam a classe trabalhadora - os operários, os mineiros, os camponeses e os pescadores, que não perfazem mais que 10% do total da população europeia - mas tão só o funcionalismo de escritório, trabalhadores sui generis que não produzem senão papel, têm por ferramenta o computador e trocaram os sonhos da libertação pelos mitos da abundância, do consumo, do crédito barato e do conforto. É gente hermafrodita, sem chama e agressividade, que não pede um amanhã ridente, mas exige, contra os números e os mitos a que aderiu com entusiasmo (a globalização, a divisão internacional do trabalho, as deslocalizações) que tudo fique como era. Eles, que são europeus, democratas, respeitadores dos direitos humanos, merecem 35 horas por semana, 30 dias de férias, carro à porta, casa na cidade e casa no campo, supermercado duas vezes por semana, internet, telemóvel, roupa nova três vezes por ano. Os chineses e os indianos, esses que trabalhem.
A mole que se arrasta aos gritos pelas ruas, bandeiras vermelhas ao vento, luta por causas nobres: 13º e 14º meses, emprego para a vida, aumento das reformas, saúde gratuita, ensino gratuito, subsídio de maternidade, subsídio de paternidade, passes sociais...
Nada dito é novo. Na Roma de Trajano dava pelo nome de Alimenta. Inicialmente, a alimenta destinava-se a garantir apoio às crianças pobres. Depois, veio o pão gratuito para a plebe. Ao pão acrescentou-se o circo gratuito. Sob Aureliano, o alimenta passou a integrar também vinho e azeite de graça. À plebe de Roma não interessava se aquele pão que vinha do Egipto e aquele vinho e aquele azeite vindos da Hispânia era produzido na ponta do chicote por escravos. O importante era que chegasse. No fundo, quem não sabe nem se interessa pela história, julga que estas coisas são novas. Nada é novo.

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