12 abril 2012

Titanic's


Um desenho meu, rabiscado em 1968, que o meu irmão Nuno - que tem espírito de arquivista - desencantou nas pirâmides da memória em papel que se salvaram do naufrágio da nossa África. É curioso - sem querer comparar e discutir orientações pedagógicas - a diferença existente entre a educação que os meus pais me deram e essa outra de hoje. Sei que para muitas crianças viver numa casa sem livros (ou só com livros "técnicos") é uma fatalidade. Nascem e crescem a ouvir os paizinhos a discutir o enredo de telenovelas da SIC e da TVI, o pai a falar de futebóis e carros de corrida e a mãe que não passa da conversa das compras no supermercado. A minha mãe folheava-me página a página os livros da Guilde du Livre, as ilustrações do Gustave Doré e obrigava-me a desenhar, copiando (a cópia é um excelente exercício) os retratos dos nossos reis, tirados da Nobreza em Portugal. O meu pai recebia em casa revistas francesas e aos 8 ou 9 anos, eu, o Nuno e dois ou três amigos vizinhos, discutíamos acaloradamente as guerras napoleónicas, a batalha de Naseby ou o afundamento do Lusitania. 
Havia, também, longos serões - em África um longo serão era coisa que não passava das onze da noite - de slides do Goya, do Picasso, da estatuária de Louvre ou dos Brueghel; isto se não fosse lá a casa o Areosa Pena para as costumeiras conversas de política.
A educação é integral e não é na universidade que se faz aquilo que não aconteceu dez ou quinze anos antes. Sou a falso tudo o que é falso. Ainda hoje, ao ouvir alguns senhores falar com propriedade sobre tudo e nada, ali vejo, só, colagens, citações e postas-de-pescada que iludem uma coisa tão simples como isto: aos 13 ou 14, ainda não tinham passado do Patinhas.

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