11 abril 2012

DSP (Direita Sexual Portuguesa)


Quando não lhe dá para o sol e os touros, dá-lhe para a moralzinha. Aliás, a direita portuguesa preza por ser como é: não ter ideias, não ler, fantasiar e criar fantasmas, ser absolutamente incapaz de justificar a sua existência e utilidade para além das costumeiras questões de cuecas, ceroulas, capotte ou não capotte, maternidade assistida e anti-maternidade assistida, IVG ou não IVG, tareia nas mulheres ou não tareia nas mulheres, educação sexual nas escolas ou não educação sexual nas escolas, DST's e demais coisas interessantes. A direita diverte-se com isto porque desconhece tudo o mais. Quando não lhe dá para o sexo, dá-lhe para a metafísica, coisas muito parecidas, pois uma e outra são fugas retóricas. Quem não compreende a humanidade, vira-se para a biologia ou para as nuvens. 

Nas décadas de 10 e 20 do século passado andava pelo Chiado, de bengala em riste, a atacar os antros do "deboche". Era a célebre Liga para a Moralidade, também conhecida por Liga de Acção dos. Estudantes de Lisboa, comandada por Teotónio Pereira, que acusava meio mundo de viver na cama do próximo. Essas insignificâncias literárias que davam pelo nome de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, António Ferro, Mário de Sá-Carneiro e António Botto foram atacados e espancados por esses justiceiros mosaicos. Pessoa escreveu então: Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (...) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível". Tudo acabou, em 1923, com uma queima pública de livros de uma "desavergonhada" chamada Judite Teixeira.Afinal, vieram a encontrar-se todos no Estado Novo: a Ferro como prodigioso criador dos grandes mitos de mobilização do regime, Almada como artista oficial da modernidade do regime, Botto como criador da "mística" da MP, Pessoa como bardo da Mensagem. Os moralistas de ontem, esses, nunca foram nada de especial, não acrescentaram um grama ao regime que os agasalhou e engordou, mas deles não ficou molécula de obra.

Sei que as pessoas mais tiranizadas pelo sexo são aquelas que mais falam dos assuntos de que ninguém fala, por pudor, por educação, respeito ou, até, por desinteresse. A direita portuguesa, sempre com o credo na boca, tem a particular característica de se saber enrolar na teia das discussões dos seus inimigos. Julga poder combater o BE assumindo-se como dique. Se é dique a alguma coisa, é dique de estupidez, pois assume sempre o papel odioso em matérias que não deviam sair do mais estrito reduto da vida privada. Assim vamos, cantando e rindo, ou, lembrando Almada: "coragem portugueses, só vos faltam as qualidades".

Para finalizar, uma historieta. Na Roma Antiga, era prática corrente abandonar crianças indesejadas em monturos de esterco ainda quente. O quente do estrume permita que as frágeis criancinhas não morressem de frio. Eram adoptadas e algumas eram chamadas de Kopros. Havia muitos Kipros na Cidade Eterna. Aqui também.

13 comentários:

Lionheart disse...

Eu gosto é quando eles se põem a falar na "família", 'tá a ver? A "família" dá para muita cagança, como se só a família deles é que fosse boa. O que não faltam são cagões a mostrar as fotos da prole. Agora até há o "livro das caras" na internet para haver mais difusão. E depois quando esmiframos o que se passa por detrás da fachada, vê-se que aquilo é só mesmo fachada...

A minha não é melhor nem pior, é a que há. Como também são muito católicos não tenho pachorra para os aturar e vejo-os o menos possível. Até fiquei com a "alergia" à palavra, veja bem. Que vómito.

cardo disse...

É um mistério para mim essa sua obcessão com a legendária "moralzinha" de certa direita fabulosa.

"Se é dique a alguma coisa, é dique de estupidez, pois assume sempre o papel odioso em matérias que não deviam sair do mais estrito reduto da vida privada."

Mas isto é o oposto da verdade. A direita é, nesses assuntos, sempre tardiamente reativa. Homossexualistas, feministas, abortistas e quejandos esfregam as suas taras na cara dos outros, arrastam suas "causas fracturantes" para a via pública, usam o aparelho do Estado para avançar a sua agenta política. E se alguém diz alguma coisa, ainda aparece um Castelo Branco, armado de Pessoas e Bottos, escrevendo chalaças camilianas.

Eu morro e não vejo tudo.

Combustões disse...

Ó Cardo, não me diga que o Pessoa, o Ferro e o Botto não são mais interessantes que o Cavaleiro da Anunciada ! Sabe o que me espanta? Que não valem nada, que politicamente sejam zeros, não consigam fazer um partideco, que tenham peso político ZERO, que não tenham uma proposta de regime (para além de coisinhas tiradas dos anos 30)e se entretenham com lixo. Aliás, esta opinião não é minha. Era do saudoso Rodrigo Emílio, que me disse dezenas de vezes que a direita portuguesa tem duas taras: a jurídica e a moralzinha. Ah, se os espelhos falassem !

cardo disse...

"Ó Cardo, não me diga que o Pessoa, o Ferro e o Botto não são mais interessantes que o Cavaleiro da Anunciada!"

Essa não é a questão. Eu posso achar a Adriana Lima mais interessante que o Pinharanda Gomes; mas não posso, entretanto, manter uma civilização tendo a Victoria's Secret por base. O Sr. fique a vontade para chacotear da metafísica e outras nuvens, mas eu gostava de ver o amigo, com todo o seu interesse pela humanidade, deter o presente declínio europeu usando a versalhada "polêmica" do Botto ou o lixo ocultista do Caeiro (ou seria Reis, ou talvez Campos).

"Sabe o que me espanta? Que não valem nada, que politicamente sejam zeros, não consigam fazer um partideco, que tenham peso político ZERO, que não tenham uma proposta de regime (para além de coisinhas tiradas dos anos 30)e se entretenham com lixo."

Proposta de regime? Cavalheiro, Portugal tem problemas muito mais sérios do que decidir se o governante da nação se "assente num trono, numa poltrona ou numa tripeça." E olhe que eu sou um monárquista. Mas o Sr. vai ter que se conformar, mais cedo ou mais tarde, com o fato de que é a cultura que determina os rumos da política, não o contrário.

Repito, não é uma questão de se "entreter com lixo." O Sr. pode, se quiser, manter posição na sua torre de marfim da alta política, deixando para os outros o marnel das guerras culturais. Ocorre que, enquanto isso, homossexualistas, feministas, profetas do apocalipse ecológico, abortistas e que tais determinam o espírito da nossa época. Tente convencer essa gente, ou pessoas influenciadas por essa gente, da superioridade da Monarquia.

Boa sorte.

Duarte Meira disse...

Meu caro Miguel:

Na Roma e já antes na Grécia dos primórdios o Pater familias tinha direito de vida ou morte sobre a progénie nascitura. O monte de esterco era para os indesejados saudáveis e representa já uma pequena promoção moral nos sentimentos da humanitas, por influência estóica.

A questão da IVG é incomparável com as outras que cita, e não se trata apenas de "moral": é o princípio básico de qulquer Direito que está em causa - a defesa da indefesa vida humana nas nossas primeiras semanas de existência, protegendo-a duma violência intencional e mortal por parte dos mais fortes.

Também não veja como qualquer posição política séria possa emancipar-se duma concepção fundamental da existência (o caro Miguel deve rever as suas noções de Filosofia e Metafísica).

Como sabe, foi só na tradição maquiavélica - da Renascença, não da Antiguidade greco-latina ! -, no contexto dum neo-paganismo degenerado, que a política se pôde pensar e praticar na independência da Moral. E a recusa desta posição maquiavélica é precisamente o melhor, não propriamente da "direita", mas da tradição política portuguesa pré-revolucionária e, depois, da tradicionalista e (necessariamente) católica.

Ora eu julgava que o Miguel era hoje um representante eminente desta tradição...

Quanto à acéfala "direita" dos interesses plutocráticos e das convenienciazinhas e seguranças burguesas, é de facto Zero e acomoda-se a tudo.

Combustões disse...

Claro, leio o bom Agostinho de Macedo e esqueço-me do homem que era. Quer um comboio de casos análogos? Bem recentes? Recém-passados ou ainda vivos?

João Pedro disse...

Em boa parte subscrevo o que disse o Duarte Meira. As questões de "cama" ou de mera índole sexual são de natureza completamente diferente daquelas que envolvem o aborto, por exemplo, que não se trata de um mero direito individual isolado. Julgo aliás, já que leio o Combustões há vários anos, que o Miguel também reconhece isso e sabe fazer essa distinção fundamental.

Combustões disse...

João Pedro.
Sou absolutamente contra o aborto. Há quinze maneiras de evitar uma gravidez e chega de defender uma coisa absolutamente abominável como o aborto. Se não querem as crianças, não as matem. Ofereçam-nas, pois há milhões de pais e mães de adopção, tão bons ou melhores que os biológicos.

Zephyrus disse...

«ou o lixo ocultista do Caeiro (ou seria Reis, ou talvez Campos).»

Que se deite fora, também, o lixo «ocultista» de Platão, Pitágoras, Avicena, Phillipus Theophrastus von Hohenheim ou de Carl Jung. Este tipo de comentários mostra por que motivo a linguagem simbólica é fundamental. Entregar conhecimento às massas é como deitar pérolas aos porcos. Os gregos antigos, portanto, tinham razão, quando velaram tudo em mitos -tal como Cristo, quando falou por parábolas.

Pior que os lavradores analfabetos, são os doutores arrogantes que cuidam tudo saber.

Mas quem é o caro para chamar «lixo ocultista» à obra de Fernando Pessoa? Quem sem julga? Sabe lá o que diz!

De resto, lamento que quem comentou não tenha percebido o texto. Aqui não está uma defesa do Vício. Está sim uma defesa da Tolerância. Afinal, o Sol quando nasce, é para todos.

Zephyrus

cardo disse...

"Que se deite fora, também, o lixo «ocultista» de Platão, Pitágoras, Avicena, Phillipus Theophrastus von Hohenheim ou de Carl Jung."

Em primeiro lugar, eu não disse para se deitar fora coisa alguma. O que eu disse, (e repito para o tal Zephyrus, que certamente não é massa nem lavrador analfabeto), foi que não é possível manter uma civilização com as ratices AleisterCrowleyanas do chorado Fernando. E eu disse isto apenas a título de exemplo. Em segundo lugar, espero que o Zéphyrus não confunda o "Platão" dos renascentistas, com o Platão, filósofo grego que foi muito estudado por Paul Friedländer, A. E. Taylor, Paul Shorey, Julius Stenzel, Eric Voegelin, Giovanni Reale, etc.

"Este tipo de comentários mostra por que motivo a linguagem simbólica é fundamental."

Quer dizer, segundo o critério do Zephyrus, dizer mal da obra de um certo poeta é o mesmo que ser insensível à linguagem simbólica. Eu posso muito bem ler Susanne K. Langer e depois rir do Caeiro (ou seria Campos). Uma coisa não impossibilita a outra. Aliás, uma coisa obriga a outra.

"Entregar conhecimento às massas é como deitar pérolas aos porcos."

Porcos? Ah, sim, é a famosa linguagem simbólica defendida pelo Zéphyrus.

"Pior que os lavradores analfabetos, são os doutores arrogantes que cuidam tudo saber."

O Zéphyrus não sabe, mas uma das grandes satisfações que eu tenho na vida é o fato de não ser doutor. Ou será que Zéphyrus falava simbolicamente?

"Mas quem é o caro para chamar «lixo ocultista» à obra de Fernando Pessoa? Quem sem julga? Sabe lá o que diz!"

Eis aí uma das pérolas do Zéphyrus! Eu não percebo a razão da obra do Pessoa (ou seria Reis) estar acima da crítica. Ainda que o crítico seja um "doutor arrogante" como eu.

"De resto, lamento que quem comentou não tenha percebido o texto."

Eu, da minha parte, lamento que o cidadão Zéphyrus não tenha entendido o meu comentário.

"Aqui não está uma defesa do Vício. Está sim uma defesa da Tolerância."

E quem falou em defesa do vício? Pelo amor de Deus.

"Afinal, o Sol quando nasce, é para todos."

Mais simbolismo, Zéphyrus. Mais.

J. Duque disse...

Caro Miguel Castelo Branco:

Leio o seu blogue todos os dias há vários anos, e posso dizer que oconsidero um dos espíritos mais brilhantes e independentes no panorama da “blogosfera” nacional, além de escrever uma prosa excelente.

Porem, discordo de si frontalmente no que diz respeito às teses apresentadas neste “post”.

“Questões de cama” (esfera do privado) e defesa de valores civilizacionais fundamentais (esfera pública) são questões diferentes.
Não creio que causas como o combate contra a legalização do aborto e da eutanásia sejam meras obsessões de uma Direita “moralona” e de sacristia, armada em polícia de costumes.
Basta ver o afinco com que as esquerdas radicais pós-marxistas (e algumas paleocomunistas, até) arvoram estes temas e os tentam impor à nossa “descafeinada” sociedade pós-moderna, para nos apercebermos que estamos num combate fundamental que vai decidir por muito tempo o futuro da Europa e do Ocidente .

J. Duque disse...

Caro Miguel Castelo Branco:

Leio o seu blogue todos, os dias há vários anos, e posso dizer que o considero um dos espíritos mais brilhantes e independentes no panorama da “blogosfera” nacional, além de escrever uma prosa excelente.

Porem, discordo de si frontalmente no que diz respeito às ideias deste “post”.

“Questões de cama” (esfera do privado) e defesa de valores civilizacionais fundamentais (esfera pública) são questões diferentes.
Não creio que causas como o combate contra a legalização do aborto e da eutanásia sejam meras obsessões de uma Direita “moralona” e de sacristia, armada em polícia de costumes.
Basta ver o afinco com que as esquerdas radicais pós-marxistas (e algumas paleocomunistas, até) arvoram estes temas e os tentam impor à nossa “descafeinada” sociedade pós-moderna, para nos apercebermos que estamos num combate fundamental que vai decidir por muito tempo o futuro da Europa e do Ocidente .

Combustões disse...

J. Duque
Perdoe-me a breve correcção. Eu não falei nem em aborto, nem em eutanásia. Digo-lhe com toda a frontalidade que a prática do aborto, com a moldura legal existente, é um anacronismo e um crime. Há mil e uma possibilidades para o evitar, pelo que devia, salvo em casos extremos, ser terminantemente proibido. Quanto à eutanásia assistida é clara contravenção ao juramento de Hipócrates; logo, médicos que a pratiquem estão a incorrer em falha deontológica elementar. A cultura da morte, tem toda a razão, passou de malas feitas directamente do amoralismo nazista para as bandas da "contra-cultura" esquerdista.