27 março 2012

Una trujillada


Rafael Leonidas Trujillo, o homem que governou com mão de ferro a República Dominicana entre 1930 e 1961, há muito que caíra no esquecimento. Foi um ditador sanguinário, dizem os seus opositores. Às mãos da sua polícia, terão sido torturadas e eliminadas mais de 30.000 pessoas. O impacto de Trujillo na vida da pequena república foi tão impressivo e traumático que após a morte do ditador e da queda do regime que criara, foram produzidas leis de damnatio memoriae, ainda hoje em vigor. Lembrar, defender e exaltar Trujillo é ainda passível de pena de prisão, não obstante ter sido considerado "o maior dominicano" no rescaldo de uma polémica votação pública realizada há anos. Nada que não conheçamos, pois Salazar foi, entre nós, considerado o Maior Português em similar programa aqui realizado.

Contudo, o preto e o branco raramente respondem às perguntas da História. A República Domicana é um oásis de paz e riqueza na Ilha de San Domingos.  Ali ao lado, o Haiti é a mais vil das cloacas de degradação extrema a que pode chegar o género humano. O Haiti teve como pai, verdugo, dono e senhor o Dr. Duvalier, logo substituído pelo seu rebento Baby Doc. A República Dominicana teve Trujillo, que tratou da sua grande fazenda com esmeros de violência transformadora. Era um homem inteligentíssimo, de modestas origens que trepou até à presidência para não mais a largar. Dele se contam histórias de erotismo canalha que fariam corar o autor de Fanny Hill. Dele ficou uma lenda de malfeitorias, crimes nunca investigados, suicídios misteriosos.

Porém, durante o seu consulado, o país deu saltos de gigante e foi, durante décadas, a coqueluche entre as repúblicas das bananas apoiadas por Washington. Trujillo era um homem complexo e o regime que construiu era o reflexo da sua habilidade. Foi aliado de Franco, mas recebeu milhares de exilados republicanos espanhóis fugidos. Era um homem de extrema-direita, mas recebeu antes e durante a guerra largas dezenas de milhares de judeus fugidos a Hitler. Desta personagem estranha e odiada, a biografia Trujillo, mi padre, da autoria da sua filha Angelita, última sobrevivente do clã Trujillo. Os filhos amam sempre os pais, é uma lapalissada, mas Angelita não se limitou a contar a sua história. Produziu o retrato de um homem e do seu tempo.  Leitura apaixonante para quem tem saudades das novelas de ambiência tropical de Graham Greene. Para quem gosta de enredos sangrentos, La Fiesta del Chivo, de Vargas Llosa, conta as últimas horas da vida de Trujillo, varado em noite sem lua pelas balas numa estrada quando se dirigia a uma das suas caçadas femeeiras.


4 comentários:

Calão disse...

O que conheço deste personagem é baseado no romance de Vargas Llosa "A Festa do Chibo", é um livro arrasador que expõe as atrocidades do regime, mas não deixa de evidenciar a habilidade com que o ditador modernizou a República Dominicana fazendo-se rodear pela elite intelectual da altura.

Combustões disse...

Caro Calão
Também li e recomendo o filme. Soberbo.

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Um grande país, com umas gentes fabulosas caro Miguel.Fui dos primeiros portuguesas a visitá-la depois da revolução, nos já longínquos anos 80. Regressei algumas vezes e fundei aquela que é, ainda hoje, a ALDAC - Associação Luso-Dominicana para a Amizade e Cooperação.
Abraço

George Sand disse...

Não conheço o País. Li o livro, mas não conhecia a existência deste filme. Obrigada.