18 março 2012

A solução final para os portugueses de África


Sem Wannsee, mas com muita noite e nevoeiro, espessa e interdita, a história do maior êxodo português continua a ser matéria tabu para os fantasistas da descolonização. Ainda sem grande arrimo documental - por que os grandes crimes não dormem em papéis, fazem-se - S.O.S Angola - Os Dias da Ponte Aérea, de Rita Garcia, constitui a primeira tímida tentativa de desocultação de uma barbaridade escondida, escamoteada e mandada emparedar por quem, por cobardia ou premeditação, decretou a expulsão dos portugueses de África.
A Ponte Aérea começou, com propriedade, em Setembro de 1974, com a expulsão em massa dos portugueses de Moçambique. Nesse fim de verão do primeiro ano da balbúrdia ninguém quis ver o que estava a acontecer.As pessoas chegavam a Lisboa e desapareciam no nevoeiro. Uns iam para abarracamentos na Costa da Caparica, outros para campos de campismo ou encontravam guarida provisória em casa de familiares residentes em Portugal.
Em 1975, a dor foi industrializada. A Ponte Aérea foi mais que uma operação logística. Imagine o leitor agarrar por atacado na população do Porto ou da Amadora, embarcá-la em seis semanas e colocá-la a seis mil quilómetros de distância. Para trás, casas, mobílias, livros, afectos, animais, memórias. Os aviões vinham carregados, como os comboios de gado que chegavam ao Gulague ou a Auschswitz. Sempre de noite, longe dos olhos e corações de um país caído na "foul baboonery of Bolshevism" (Churchill) ou dos turistas que vinham a Portugal naquele verão em busca de sol. Se chegavam à tardinha, os aviões eram colocados pudicamente no extremo da pista da Portela até que a noite se pusesse e aquela gente esfaimada, rota e descalça, com velhos agonizantes, outros já mortos, mais crianças nuas que não faziam o boneco do colonialista de chibata na mão pudesse ser desembarcada e encaminhada para as muitas Drancy que o Portugal revolucionário criou. Quantas vidas custou? Quantos traumas, quanta humilhação? Isso não importa, pois que eu saiba, os Coutinhos, os Almeidas Santos e demais Eichmann à portuguesa jamais expressaram o mínimo remorso.
A propósito, o vídeo da exaltação do pulha Coutinho, pela fraca voz do deputado Filipe qualquer-coisa.

1 comentário:

Luis disse...

uma sociedade em que as elites desprezam portugueses do calibre de Tomé Feteira e promovem a mediocridades como o Rosa Coutinho, Otelos, Mario Soares, Sampaios, Marcelos e companhia, é uma sociedade (elites) decadente...com morte anunciada!
(...)
Jornalista- É verdade que tratou o almirante Rosa Coutinho como simples marinheiro?

Tomé Féteira-É verdade. Disse-lhe: senhor marinheiro: co­mo toda a gente sabe, depois do tenebro­so 25 de Abril, fez uma grande fortuna. Po­de explicar à gente como a fez? Só disse que não era rico. Isso aconteceu durante um programa televisivo. Foi no vigésimo ani­versário do 25 de Abril. Foi a primeira vez que me deixaram falar sobre os roubos.
(...)
Jornalista-Que conselhos daria à geração actual?

Tomé Feteira-Esta geração, coitada, anda toda envenenada. Contam-lhe a história mentirosa.

http://www.jornaldeleiria.pt/portal/index.php?id=5109