02 março 2012

Genocídio e memoricídio



A revolução francesa continua a ser objecto de culto para as esquerdas, em particular para os adeptos da violência, justificada como necessária para o nascimento de um mundo novo. A revolução absolve-se, assim, argumentando com uma suposta finalidade teleológica, necessidade inscrita nos mecanismos que regem história, lei que impele os acontecimentos e na qual os revolucionários agem como agentes da história. O terror de 1793 passou, pois, a autorizar os massacres da Comuna (1871) e justificar o "Comunismo de Guerra" de Trostky, as fomes artificiais decretadas por Estaline, a deskulakização, a construção do Gulague, a dizimação dos "parasitas feudais" na China maoísta e a lei dos 10%, número bem presente nos escritos de Marx e Engels; ou seja, a autorização "higiénica" de despoluição social sem a qual os amanhãs ridentes jamais aconteceriam. De facto, para a formação do carácter genocida do comunismo, o jacobinismo - que continua bem presente na paisagem política ocidental - ficou com a parte de leão. Hoje, é da herança jacobina, mais que da comunista que parte apreciável das esquerdas se revê. O comunismo é demasiado claro, não argumenta. Aplica-se mecanicamente. É uma receita. O jacobinismo, esse, rodeia-se de cuidados de justificação, vitimiza-se para poder matar, cria inimigos para legislar, invoca a liberdade para prender. É uma doutrina.

A revolução, que o clássico de Pierre Gaxotte há mais de setenta anos expôs na sua metódica, organizada e premeditada intencionalidade genocida e Bernard Lerat (Le Terrorisme Révolutionnaire 1789-1799) confirmou como um plano de habituação lento dos franceses ao terrorismo imposto pelo Estado aos cidadãos, conhece novo desenvolvimento com o espantoso Guerres de Vendée : après le génocide, le mémoricide, de Reynald Secher, autor que já havia dado relevante contribuição para Le Livre noir de la Révolution française (2008).
O genocídio da Vendeia, comprova-o Secher, foi decretado e aplicado com metódica e inalterada inflexibilidade por Paris contra o velho espírito das liberdades regionais da velha França. As colunas assassinas provocaram 600.000 vítimas entre 1793 e 1794. Fizeram-no selectivamente: primeiro os nobres, e os sacerdotes, depois os  proprietários os letrados e os homens jovens, em idade para pegarem em armas; finalmente, os produtores e artífices, os caçadores, os pescadores e os marítimos. A revolução, que Furet demonstrou ter sido uma conspiração e não uma sucessão de acidentes, fica assim, absolutamente responsável. Sabendo-o, os seus apologistas tratam de fazer esquecer os seus crimes. É o memoricídio.
Assim foi em França; assim o é em Portugal, com essa coisa violenta e primitiva que dá pelo nome da República.