23 fevereiro 2012

Somos apenas soldados


Os amigos escrevem exageros. Os amigos são hiperbólicos, mas se falham na decoração, nem sempre lhes escapa a razão. Ora, o que o João aqui escreve - passe a imodéstia - é o que sempre fizemos, eu e o Nuno: sem vedetismos, sem empurrar, sem viver das geringonças e dos dinheiros, sem partido e grupos. Infelizmente, para a maioria das pessoas, o mundo limita-se a meia dúzia de estrondos de socialite, conversas entre o chocalhar de pedras de gelo num copo de Whisky, projectos sobre projectos, pernas cruzadas em cadeirões. Fizemos e fazemos o que nos permite a modéstia dos meios, mas vamos, a custo, rompendo a carapaça de subdesenvolvimento e provincianismo sufocantes.

Passámos décadas a dar testemunho daquilo que para muitos não passava de antiqualhas. O que ficou ? Pouco. Fizemos a Nova Monarquia, que foi escola para centenas de bons portugueses. Por dizer tanta verdade, atiram-nos escada-abaixo e fizeram mil e uma canalhices para calar tão incómoda voz que falava com vinte anos de antecedência. Escrevemos uns livros, pintámos uns quadros, meia centena de actos culturais patrióticos, animámos jornais e revistas, estudámos sempre com o nome de Portugal a aflorar em cada modesta molécula do trabalho produzido. No que me toca, passei uma vida de trabalho, estudo e militância por Portugal. Aos outros, aqueles que pedem lugares, dinheiro, postos, que continuem como sempre. A outros, os eternos maledicentes, os frustrados furiosos e os rancorosos, os inúteis maldosos e iletrados, os traumatizados sociais e os afogueados dos lugares, esses que se curem da doença do despeitinho que os come por dentro.

Não calcula o João o friso imenso de malfeitorias, enganos, mentiras, traições e abusos. Não calcula o João o número infinito de arranjistas, trepadores e apropriadores do trabalho alheio que foi necessário conhecer para realizar tão pouco: os enfatuados, os pedantes, os secos de espírito, os mandriões oportunistas, os "grandes" senhores e "grandes senhoras" que mal sabem assinar o nome. A modéstia e falta de atrevimento deram lugares no parlamento, nas câmaras, nos institutos, nas embaixadas ? Não e ainda bem, pois tudo isso se paga lentamente com o recurvar da espinha, as ânsias das mudanças de governo e o fim das legislaturas.

Não nos devemos queixar, nem condenar, nem pedir. Aliás, na vida conhecemos dois tipos de pessoas: aquelas que dão e aquelas que tiram. Para o peditório dos apropriadores do alheio, já dei o que tinha a dar e acabou. O importante é, como sempre, Portugal. O resto é pó.

Obrigado, caro João Amorim.

1 comentário:

João Amorim disse...

caro Miguel

Porque é importante para mim, queria dizer no seu espaço público que nos conhecemos já eu era um homem com os ossos feitos. Feitos, um pouco gastos, pelas várias experiências e caminhos a que me sujeitei percorrer e que me trouxeram a parte certa. Todavia, nunca fechei a porta às evidências que pudessem preencher a minha ignorância ou distância. Após o nosso contacto pensei que havia conhecido alguém que pensava como eu. Tão precipitado.De facto, eu fruo com a descrição de um aluno o que pensa o Miguel.