28 fevereiro 2012

Palhaçada trágica


A gunboat policy está de novo na moda, na versão "diplomacia cowboy". Um destes episódios tragicómicos - guerras desiguais, gratuitas, sem motivo, fundadas em premissas erradas - foi a invasão de Granada. Dessa estúpida aventura saiu há dois ou três anos livro que me chegou às mãos. É, garanto, um verdadeiro monumento ao elefante em loja de porcelanas em que se transformou o Pentágono. Os EUA parece não conseguirem acertarem uma.Nunca na longa história dos grandes impérios terá havido potência tão descerebrada.
Lembram-se? Em 1983, inventando uma abracadabrante ameaça "russo-cubana" a Granada, ilhota três vezes menor que a Madeira, uma esquadra americana tomou de assalto esse minúsculo território. Diziam os alarmistas que os russos ali estavam a construir uma enorme pista de aviação destinada a uma "agressão comunista" à América central. O Pentágono ofereceu fotos de satélite dessa misteriosa construção, os jornais gastaram rios de tinta para excitar os medos infantis que em revoadas sacodem os americanos. A coisa foi de imediato impugnada. Qualquer turista ou jornalista ocidental podia tirar fotografias in situ à ameaça, que não era ameaça, mas um projecto financiado pela Grã-Bretanha, pela Dinamarca e Alemanha, destinado ao maximizar o potencial turístico da ilha. Depois, invocou-se que tal operação visava resgatar umas centenas de estudantes americanos matriculados na universidade local. Ora, os estudantes adoravam a ilha e a sua população, não eram incomodados e viviam como queriam, entre a praia e as aulas.
Os senhores da guerra deram instruções para que uma grande operação fosse desencadeada. Foi um fracasso do primeiro ao último minuto. Os homens rãs lançados para se infiltrarem no ilhéu morreram afogados (!!!), os dormitórios dos estudantes supostamente detidos foram impiedosamente metralhados pelos helicópteros da US Navy, o Quartel General do inimigo (que por acaso era um hospital), foi bombardeado e destruído, morrendo na chacina doentes acamados, o Governador da Ilha (pois Granada tem como chefe de Estado a Rainha Isabel II) foi detido. Afinal, as baixas americanas resultaram de "fogo amigo", com aviões a bombardear os Marines, os Marines a atingir os Comandos, os Comandos a metralhar os helicópteros. A América é, convenhamos, um país fantástico.

4 comentários:

scheeko™ disse...

Caríssimo,
Apesar de não concordar com tudo o que cá escreve, é com prazer que leio o seu blog. Vivo de momento nos Estados Unidos, mas estou longe de ser um americanófilo. É certo que a política militar americana está longe de ser brilhante, especialmente pós-segunda guerra mundial. Também a sua política económico-social é discutível. No entanto, terminar com "A América é, convenhamos, um país fantástico.", a não ser que me escape a ironia da ironia, requer alguma moderação.

Escreve estas palavras num computador provavelmente construído na China, mas com um processador desenvolvido por companhias americanas. A tecnologia fundamental da microelectronica, o transistor, foi inventado e desenvolvido pela academia e a industria americana. A não ser que o sistema operativo do seu computador seja o Linux (e mesmo esse é baseado em Unix, criado na América), provavelmente usa o Windows ou o Mac OS, frutos da industria americana. As palavras que escreve estão alojadas num servidor de uma empresa americana, a Google, utilizando um serviço, o Blogger, também criado por uma companhia americana. E, claro, as suas palavras chegam-nos através dum protocolo de comunicação criado por um britânico numa organização europeia, o CERN (e que agora vive nos EUA), mas esse protocolo existe numa infra-estrutura, a internet, desenvolvida pelo exército americano.

Poderá afirmar que uma enorme parte destas inovações, embora feitas em solo americano, foram operadas por não-americanos. É verdade, mas os EUA têm o mérito de criar o ambiente propício à criação de inovação e conhecimento, bem como a sua transição para o mundo do dia-a-dia, e saber usar usar estrangeiros é saber ser inteligente.

Assim, levianamente descartar a sociedade americana, mesmo se em muitos aspectos são grosseiros, é simplesmente uma irresponsabilidade.

Combustões disse...

Caro Scheeko
É claro que não sou cego nem indiferente à tecnologia, mas falava num outro nível - hoje tão desconsiderado - de cultura. É certo que sou leitor atento e entusiasta dos grandes clássicos norte-americanos (Nathaniel Hawthorne, Walt Whitman, Twain, Eugene O'Neill) e até de autores infelizmente hoje caídos no esquecimento, como George Santayana e o sempre surpreendente Waldo Emerson.
Agora, não me podem obrigar a viver inebriado com o tipo antropológico, a concepção do mundo e as aspirações de uma sociedade sem referências e espessura. Prefiro, digo-o com honestidade, falar com um camponês do Laos a perder meia hora com a generalidade dos americanos. Desagrada-me a falta de maneiras, a avidez, a obsessão pelo dinheiro, a simplificação forçada, a ignorância arrogante, o maniqueísmo quase infantil, o pirosismo sentimentalóide, a inclinação para as soluções expeditas e violentas de uma gente sem raízes, o lúdico...sei lá, tudo o que para mim é o americano médio.
Honestamente, considero a sociedade americana das mais toscas existentes à face da terra. Não é anti-americanismo; é repulsa cultural.

scheeko™ disse...

Caríssimo,

Percebo perfeitamente a sua reacção. Vivendo entre eles, sinto-me muitas vezes invadido por sentimentos semelhantes ou perto daqueles que descreve. Não querendo insultar quem de momento me acolhe, já que nesse caso a posição coerente e honrada seria a de me ir embora, e não querendo descartar os muitos indivíduos válidos que as generalizações injustamente açambarcam, meramente quis constatar que, obviamente, as coisas não são a preto e branco.

E numa altura em que a relevância da Europa se vai desvanecendo e a Ásia se levanta como potência económica, a verdade é que a cultura Ocidental, possivelmente mundial, está impregnada de elementos da cultura americana.

Um dos pontos que queria fazer era exactamente o de que no mundo de hoje a tecnologia e a cultura estão intimamente ligadas, e não apenas da primeira como suporte físico da segunda. A tecnologia forja a individualidade e a comunidade e, possivelmente, nos dias de hoje esse aspecto é mais marcante do que nunca.

Vivendo há cinco anos entre eles, embora numa bolha geográfica e académica que não será representativa dos EUA, confesso que não consigo ainda entender a sociedade. Sim, muitos dos elementos que refere tornam-na intragável, especialmente para quem admira alguns dos valores ligados à antiguidade, à tradição. Mas não serão alguns desses valores meramente estéticos? A ausência de maneiras, de que fala, causa-me transtorno todos os almoços, mas tenho em mim que muito deriva de uma sociedade que se tornou eficiente, ao ponto de descartar muitas regras para se agilizar. Penso que acontece, em menor grau, por toda a Europa e suspeito que o filho do camponês do Laos seguirá pelo mesmo caminho quando se mudar para a cidade e for trabalhar para um escritório.

Eu também prefiro as regras de boa educação, não pelo formalismo per si, mas pela honra, civilidade, respeito e brio que esse formalismo, quando não bacoco, encerra. Mas quem sou eu para dizer que essa perspectiva é mais válida do que a de uma sociedade mais tosca, mas que mesmo assim tenha esses valores? Talvez essa seja uma discussão complicada para se ter numa caixa de comentários, mas a verdade é que a perspectiva com que se olha tolda os julgamentos. E a verdade é, também, que a liberdade de vivência e a iniciativa individual não sofrem quebras na sociedade americana pela ausência de maneiras.

Quanto à ausência de raízes: é um argumento vulgarmente utilizado, mas, vejamos, os americanos descendem de um sistema político-administrativo fundado no início do século XIX. Quantos países da Europa ocidental podem dizer o mesmo? Tirando o Reino Unido e Suíça, quantos mais? Portugal, França, Alemanha, Espanha, Itália, Áustria... Todos passaram por convulsões geográfico-políticas, sendo que poucos podem citar as constituições (se as tinham) dessa altura, como os americanos fazem. E sei que é monárquico, portanto apreciador da capacidade de gerar no povo um sentimento de respeito pela instituição representativa das lideranças de um país. O respeito que os americanos - das várias cores políticas e sociais - têm pela instituição que os governa é extremo, mais ainda tendo em conta que o líder máximo é também líder executivo e por isso sujeito a especial desgaste.

É historiador e bem mais versado que eu nestas coisas, e por isso reconheço a simplificação um tanto ou quanto abusiva, mas o ponto que quero evidenciar é que os últimos duzentos anos sulcaram no espírito de muitos americanos uma raiz, e bem mais profunda do que a que vejo em muitos portugueses, cujo património histórico é desbaratado e a quem o pouco sentimento patriótico que possuem se esvaziaria quase instantaneamente se se fechassem uns quantos clubes de futebol.

scheeko™ disse...

Quanto às soluções expeditas, talvez assim seja no contexto de política geoestratégica, mas tenho de voltar à tecnologia e ciência. Não é com trabalho em cima do joelho que se consegue o que eles conseguiram. Não domino as restantes áreas para poder dar exemplos, mas sei que, tudo o resto lhes faltando, são um povo profissional e com brio no que fazem. E podendo ter lacunas genéricas, quando dedicados a um tema, são extremamente hábeis e capazes no trabalho que fazem. Mais, o fórum proporcionado pelo discurso livre funciona nos dois sentidos: aqueles que falam são vigorosamente interpelados. Mais ainda: a falta de alguns constrangimentos albergados (muitas vezes falsamente) em regras de etiqueta e de boas maneiras, fazem com que essas interpelações transbordem o discurso inócuo que povoam os nossos meios de comunicação, meios académicos e por aí adiante.
Mais uma vez, não sou americanófilo, embora também não sofra da repulsa que manifesta. Ainda assim o que mais me intriga é o fenómeno de uma cultura que tem muita coisa de válida, e que, a bem ou a mal, é um pilar da nossa civilização corrente, sendo que no entanto é uma sociedade infantilizada e simplificada nos seus conceitos nucleares.

Peço, novamente, desculpa por simplificações abusivas e erros que terei, sem dúvida, cometido.