16 fevereiro 2012

Greve Geral


A CGTP decreta nova greve geral. Espanta-me, pois o país, todo o país, parece viver em greve geral de inteligência, de civismo e de patriotismo desde há muito. Todos foram cúmplices. Em nome de "nobres mentiras de Platão", fingimos que éramos ricos, europeus, progressivos, trabalhadores, honestos, cumpridores. 
Antes dessa revoada de neo-riquismo, não mais havia nesta santa terra que marxistas-leninistas, anarquistas, libertários, socialistas, cooperativistas, basistas e outros sectários de amanhãs ridentes.

Mentimos uns aos outros, inventámos quimeras, croissanterias em cada esquina, bancos porta-sim-porta-não, o exército desmembrou-se, a universidade transformou-se numa feira de vaidades inertes, a justiça deveio em caricatura, a classe política passou a recrutar-se em vielas e tabernas, os camponeses foram eliminados, as fábricas abatidas, a pesca extinta por decreto. Um país que já nem a Bolacha Maria produz tem a ousadia de pedir mais, de refilar com a perda do 13º e 14º ordenados, de prometer o caos se um funcionário público for atirado para aos excedentes, mesmo que passe sete das oito horas em frente do computar no chatting do facebook. Todos aspiravam à felicidade, não à Eudaimonia, mas ao mais baixo arrastamento para os prazeres desenfreados da barriga. Os portugueses perderam trinta anos em projectos, em delírios de grandeza, na promoção das vaidades canalhas. Destruíram tudo o que podiam e pediram emprestado tudo o que não podiam pagar. Não, a culpa é de todos, com a agravante de muitos, sabendo-o, persistirem, se possível até ao caixão, em matar o que resta deste país.

Há duas semanas, num debate em que participei a contra-gosto - só volto a discutir entre gente civilizada e sóbria, caso contrário prefiro que me arranquem os dentes a alicate - um fulano monárquico gabava-se por ter sido, em tempos que já lá vão, compagnon de route do PC, ao extremo de confessar que se sujeitara à vergonha de garantir a lista de candidatos da CEM (Comissão Eleitoral Monárquica) nas eleições marcelistas de 1969 mediante pedido feito ao PC para a angariação das assinaturas necessárias à apresentação da lista "monárquica". Foi com tais cedências que se formou a lenda da "autoridade moral" do comunismo. Foi assim que, lenta e inexoravelmente, o país caiu nesta coisa. A "direita social", essa, não conteve, não se mostrou nem correu o risco e passou vinte e tal anos em euforia europeísta, julgando pategamente que as fabriquetas de camisolas de algodão e as míseras produções terceiro-mundistas se iriam eternizar. Agora, deu-lhes para atoardas proteccionistas e para o patriotismo !

O país precisa, todos o sabemos, de algo completamente diferente. Não precisa de uma Greve Geral, mas de Mudança Geral.

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Preferia o video que tinhas aqui deixado. Era o tal Ary aos berros, num versajar de 5ª categoria e com o hino da URSS como música de fundo. Claro, era essa a grande fidelidade, o interesse de Moscovo.