08 fevereiro 2012

Fandango da tropa


De quando em vez surge a velha querela dos militares mal pagos, um brado de caserna tão velho como a intervenção do exército na vida política portuguesa. Os militares não devem ser funcionários públicos, muito menos pretorianos de regimes e governos. Ora, quando os ouço discretear atabalhoadamente sobre sacrifícios de messe e rancho, lembro-me que foram os militares que por duas os três vezes, do Vintismo à Regeneração, da República à Ditadura Militar, do 25 ao PREC, se armaram em paladinos de mudanças que não souberam controlar.
O grave problema das forças armadas é mais um problema sociológico que uma questão de natureza técnica. A qualidade das chefias decresceu na relação directa da entrada e tomada do poder pela turbamulta. Já mal vejo generais com aparência de generais, almirantes lembrando almirantes; vejo, por todo o lado, tal como nas culminâncias do Estado, uomini qualunque sem talante, forma e conteúdo que os distinga do homem da paragem do autocarro, do manga de alpaca das mais ignota secretariazinha, do caixeiro-balconista do Pingo Doce. É uma fatalidade que se abateu sobre as Forças Armadas, a Universidade, a Igreja, a Banca, a comunicação social, o parlamento, os partidos; tudo. É natural que aos uomini qualunque não interesse nada mais que o pãozinho que vem dos celeiros do Estado. É por isso que estamos onde estamos.
As forças armadas perderam prestígio quando os militares passaram a ter vergonha da farda. Há razões para a vergonha. O nosso exército já mal sabe marchar - aquela ordem unida é uma vergonha - e quando abre a boca é para emular a Intersindical. Assim não dá !
As Forças Armadas são o garante da nação, cabendo-lhes defender por todos os meios as fronteiras, a honra, a unidade e o futuro do país. São a última reserva de tudo, não devem servir políticos, regimes, partidos, pois estão acima do acidental e representam o permanente. É isso que se lhes pede.

1 comentário:

Bmonteiro disse...

Bem dito, mas complemento a sua explicação.
Hoje como ontem (quando os animais falavam, havia vergonha e o regime era retrógrado), anos 60/XX, via-se nas paredes do vetusto quartel de Mafra e fábrica de oficiais, um quadro com uma frase edificante:
"O Exército é o espelho da Nação"
Uma constatação elementar meu caro.
E se o Exército de hoje não é ainda um espelho fiel do Regime, será devido ao seu habitual conservadorismo.
Mas não devemos estar muito longe.
Umas forças armadas à imagem de um Regime falido, e já agora com os seus vícios.
Com um "Exército como espelho do Regime" nada de muito promissor.