17 fevereiro 2012

Diplomacia doce e amarga


Quem nunca leu as hilariantes estórias do falecido embaixador José Calvet de Magalhães, perdeu certamente um dos mais interessantes ecos daquele tempo distante em que a diplomacia era feita quase exclusivamente por homens de estilo, cheios de vida e mundo, amantes dos bons prazeres e jogos de sociedade. Exigia-se-lhes, pois, esprit, muita leitura e savoir-faire, que se foi perdendo no falso sisudismo e nas afectações ditas tecnocráticas. Os diplomatas eram, então - vide Roger Peyrefitte - estetas, literatos, "diseurs" e até "sportsmen", sem nunca caírem no ridículo do "poseur". Mas não só !

Passei a noite, tão farto ando já das coisas do Sião, 500 páginas onde só vejo suor e pálpebras inchadas, a ler Diplomacia Doce e Amarga do velho diplomata, desfiar de memórias e lembranças dignos de apontamento. Dessa safra que me fez gargalhar altas horas da madrugada, como se tivesse sido acometido por súbita loucura gargalhante, retive alguns episódio que aqui V. deixo como acicate:

- A vulgarização da atribuição da ordem Polonia Restituta, que logo foi crismada de Polónia Prostituta, por ninguém a querer receber. Por vezes, uma medalha mancha uma casaca. Um dos galardoados, um tal Oliveira, inimigo figadal do então Secretário-Geral do MNE, Teixeira de Samapayo, foi maliciosamente presenteado com tamanha vulgaridade. Em frente de Salazar e Teixeira de Sampayo, a criatura não se conteve e disse: "senhor Secretário-Geral, meta a medalha pelo c... acima". Abandonando a sala, o Secretário Geral ficou encabulado e Salazar, então Ministro dos Negócios estrangeiros, escangalhou-se de riso.
- O caso do Cônsul-Geral de Portugal em Nova Iorque, que não tinha mais de 1,45 m e era objecto de frequentes quid pro quo. Certa vez, passeando-se pelas avenidas da grande metrópole, um gigantesco marujo embriagado teimou em levá-lo ao colo. O pobre Cônsul recusou, mas nada podendo perante o enorme Filisteu, correu desalmado pelas ruas, sempre perseguido pelo gigante.
-A estória do Cônsul de Portugal em Cantão, figura chocarreira e brigona que insistia em usar dois monóculos, um em cada olho, só para concitar reacções, imediatamente resolvidas a pugilato.
- A estória de um tal Costa, verdadeiro pato bravo metido na diplomacia, vergonha da classe, que comia à mesa com os cotovelos funcionando como guindastes e sorvia a sopa com ruídos dignos de Zoo. Certa vez, em Tânger, caiu num pequeno lago no decurso de uma recepção. Passaram a chamar-lhe "o Costa do lago". Anos depois, encontrava-se de férias na Costa da Caparica. Não tinha telefone, pelo que os recados lhe eram dados pelo merceeiro da esquina. Estava o Costa do lago de pijama, quando lhe apareceu o merceeiro dizendo que o Professor Salazar o chamava ao telefone. Correu porta fora e foi interceptado por um polícia, que não acreditando que um homem de pijama corria para a mercearia para receber um telefonema de Salazar, lhe deu voz de prisão. Passou o Costa do lago a ser conhecido no Ministério por "o Costa da Caparica".
São episódios de antologia que merecem leitura.

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

ehehehehe, fez-me lembra D. Carlos que quando lhe disseram que o novo ministro (embaixador) espanhol em Lisboa era o fulano qualquer-coisa de Porras y Porras, o Rei respondeu:
- O que me irrita é a insistência!

joshua disse...

Fiquei deliciado só com os excertos. Do melhor.