15 janeiro 2012

Talvez o maior documentário de sempre

Africa Addio (1966), de Gualtiero Jacopetti não pode ser visto por pessoas que recusam olhar de frente a história. Não é, decididamente um documentário para sonâmbulos, para "amigos de causas" nem para os sempiternos tolos que trocam a placidez de mentiras e meias-verdades por um bom sono. África Adeus é a nossa história, a do nosso tempo, da derrocada do Ocidente e da entrega dos povos de África a quadrilhas selvagens. Não é um filme de propaganda, não é de esquerda nem de direita e aí reside a sua chocante e quase diabólica provocação. Quando estreado, foi proibido em todos os paraísos nórdicos, foi embargado na democratíssima Alemanha e liminarmente repelido como uma apologia do "colonialismo". Quase meio século após a sua realização, ali não se vê uma ruga, uma mancha de falsidade.

AVISO: SE QUER DORMIR BEM ESTA NOITE, EVITE !

 

16 comentários:

António Bettencourt disse...

ALELUIA! Há anos que procurava este documentário. Inúmeras pessoas, sobretudo das que viveram nas nossas ex-colónias, me referiram este filme e nunca o tinha conseguido encontrar. Obrigado, Miguel.

Bmonteiro disse...

Vi o filme na Lisboa do tempo.
"It is the economy" já tinha aplicação ao tempo, é aliás permanente. Neste caso, a economia USA versus URSS, mas também a do reduzido capital português.
No nosso caso, sob uma doutrina que se bem construída (ao tempo, para mim), vinha muito atrasada. Ou demasiado antecipada, talvez.
O post recente sobre a "Civilização Ocidental" talvez ajude a perceber.
Foi também assim connosco.

António Bettencourt disse...

Não consegui ainda ver tudo. Não sei se o teria visto, se soubesse que era este horror. A parte de maus tratos aos animais e dos caçadores furtivos é INSUPORTÁVEL. Não sei se vou ver o que ainda me falta ver.

Pedro Botelho disse...

Na minha modesta opinião, um filme pouco honesto, de propaganda descarada mas não assumida -- diz-se que financiado pelas partes interessadas -- com recurso não só à parte de verdade que preside a toda e qualquer propaganda (sim, Hitler mandou deportar judeus; sim, Estaline ganhava eleições; sim, houve futebol com cabeças em Wyriamu; sim, etcetera), como a todos os truques, deformações, falsificações, sabujices e golpes baixos que presidem a esse tipo de actividade. Pelo realizador das duas abominações cinematográficas conhecidas por «Mundo Cão» e «Mundo Cão II», e inaugurado no cinema Império de Lisboa com a presença de Américo Tomás (sem tesoura). Estive lá e já então me fartei de rir com tudo aquilo, excepto nos momentos em que percebi que se torturava e matava para filmar a tortura e a morte. Mas concordo que a falta de imaginação humana é um problema grave.

Combustões disse...

Visto "platonicamente" ou "aristotelicamente" - com tudo o que isso implica ou não implica - o filme é devastador. Para todos quantos viveram a morte da África - hoje, o continente é um morto deambulante - a "estória" aqui contada cruza-se a cada instante com o déjà vu. No fundo, o que é a memória?
Para os nefelibatas dos conceitos, das teorias e restantes "mitodólogos" (Lenine também o era)a coisa deve doer, pois é tão pouco "académica" que anula a possibilidade de "construções". É a violência nua, a exposição sem "estruturas" e "integrações" daquilo a que teimamos chamar natureza humana. Ela existe e em vez de asas tem garras e dentes. Hobbes sentir-se-ia vingado perante tais imagens.

Pedro Botelho disse...

«Em vez de asas tem garras e dentes»? Curiosa essa navegação (acidental?) rumo ao cabo das tormentas. Ragnar Redbeard não diria melhor. Primeiro, o clip «anti-plutocrático» a recomendar o monopólio estatal do dinheiro para acabar com o dinheiro falso. E agora, Dona Natureza, vermelha na garra e no dente, para acabar com os mitos da (des)colonização e (des)igualdade racial. E depois os nefelibatas são os outros.

Pedro Marcos disse...

Quer dizer-nos onde está o lirismo disso, Botelho?
E porquê, já agora.

Grato.

Nuno Castelo-Branco disse...

Caro Pedro Botelho,

"claro" que é tudo um "embuste", pois o que em 1975 se passou em Angola e Moçambique; os fuzilamentos na Guiné; a chacina no Zaire-Congo; os acontecimentos no Sudão, Etiópia, Somália, Libéria, Costa do marfim e Serra Leo; o regime de Mugabe, etc, etc. Ninharias e falsidades como a morte "encenada" de UM MILHÃO de tutsis em pouco menos de um mês.

Pedro Botelho disse...

Nuno Castelo-Branco, não concordo com essas opiniões que cita sem atribuição, excepto na medida em que o milhão pode de facto ser exagerado, como as maiúsculas sugerem, um pouco na tradição dos milhões minúsculos de Roger Casement ou Mark Twain. E é claro que exagerei quando sugeri que a tradição documentarista «sem estruturas nem integrações», presumivelmente no melhor interesse da ciência antropológica e sem qualquer semelhança com a que se atribui, talvez um tanto injustamente, a James Jameson, companheiro e discípulo de Henry Stanley, me tinha feito rir. Em boa verdade, as dietas da imaginação humana só me fazem sorrir. Daí a minha ausência de «choque» e aquilo a que Pedro Marcos chama «lirismo»: existe de facto uma parte da Natureza, chamada à colação pelo nosso prezado Combustões, que não é indirectamente acessível.

Pedro Marcos disse...

Quercus! Com tal comentário o Pedro Botelho atirou-me para o cantinho dos broeiros!

"Dietas de imaginação humana"...

:o

*oube lá...*

Pedro Botelho disse...

Pedro Marcos, a dieta é «da» e não «de»: tem a ver com o dito Jameson dos uísques, precursor do cinéma-vérité à la Jacopetti.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Da próxima vez que recomendar não assistir algo antes de dormir, seguirei o seu conselho.
Não sou pessoa de exibicionismos sentimentais, mas também não sou um cretino que vê o espectáculo da morte e aproveita isso para esgrimir através de palavras ocas, fazendo joguinhos mentais sem nenhuma conexão com a realidade.
As imagens estão lá e valem muito, ao menos para os que se interessam pela História, ao invés de se encerrar no universo livresco numa perspectiva estética, sem os ligar ao mundo material.
Enfim, coisas de quem sabe o que é ter a subsistência em risco, de quem viu a morte de entes queridos (e até a encarou de frente), sentiu-se impotente perante a agonia, foi humilhado, se apaixonou, foi traído e soube entender a sua posição no mundo, coisas inacessíveis a uma certa classe definida pelo grande Ortega y Gasset como os señoritos satisfechos, que abunda nesse reduzido e ridículo portugalinho moderninho dos colarinhos brancos com empreguinho garantido para toda a vida, às custas dos que não têm padrinho e vivem sob pressão do fisco.
Aquelas imagens podem ser definidas numa palavra à qual os palhacitos beletristas reagem com desdém, ao menos até o dia em que encaram a morte de frente e finalmente não podem mais se refugiar no seu falso mundinho de segurança absoluta: inferno. Porém, uma coisa a experiência me ensinou: quando a senhora morte visita estes cavalheiros, eles conseguem tornar o que de mais profundo há na vida num espectáculo piegas.

Um abraço.

Zephyrus disse...

Foram colonos europeus que iniciaram o movimento ecologista e de defesa dos animais em África. Joy Adamson e o marido criaram uma leoa orfã chamada Elsa, e Joy lançou a obra «Born Free», nos anos 60, mudando a visão que o mundo anglo-saxónico tinha dos animais das savanas africanas. Elsa estabeleceu uma relação de grande intimidade com Joy, impensável na época, dado tratar-se de um animal não domesticado. A obra e o filme que se seguiu ajudaram imenso à defesa da causa ecológica. Joy acabaria por ser assassinada por um empregado, devido a uma discussão, e o marido acabaria assassinado por terroristas somalis na sua Reserva Ecológica.

Pedro Botelho disse...

Carlos Velasco, o cretinismo não reside no menosprezo do espectáculo e sim no señoritismo auto-contemplativo que não distingue os três espectáculos diferentes, todos eles apontados, mas nem sequer sabiamente entremeados. Experimente separar a tourada, o musical e o documentario antropológico, i.e. a farsa, a descontração e a mensagem da história instantânea, sem antecedentes nem consequentes, e veja cada um a seu tempo, sem o comentário audio, para aceder a uma certa classe de «coisas inacessíveis».

Pedro Botelho disse...

Zephyrus, não só foram colonos europeus a iniciar o movimento ecologista e de defesa dos animais em África, mas foram até nacionais-socialistas alemães a iniciá-lo na Europa. Veja aqui, por exemplo. Naturalmente, nem a justeza dessas posiçoes pode ser invocada em abono, digamos, do Congo d'el-Rey Leopoldo, nem os paus nos olhos de elefantes e as interrupções de gravidez de hipópotamos podem abonar em favor dos balázios (pretos e brancos) em directo nos pretos (bem pretos) a bem da documentação histórica, a par das velhas muralhas, missas, canhões silenciosos e nádegas trepidantes de um lado, e esgares, cadáveres e putrefacções várias do outro. Porque se reparar bem, vai reparar que há dois lados neste filme, e que as emboscadas portuguesas e bailaricos sul-africanos não são as únicas partes encenadas para a câmara. Há outras emboscadas com tiros que não são de western-spaghetti, e a pior de todas é talvez a que a encenação procura infligir ao «espectáculo da morte», como diz outro espectador, lá da sua galera, todo sofrido e convencido.

Zephyrus disse...

Tanto quanto saiba a defesa dos direitos dos animais e do ambiente remonta à Antiguidade. Os Pitagóricos, por exemplo, eram vegetarianos. O vegetarianismo era visto como uma forma de purificação espiritual e de preparação para uma vida num círculo superior do Cosmos segundo Ptolomeu ou do Cosmos segundo Platão. Os Cristão Gnósticos primitivos, ao que parece, também eram vegetarianos. Os druidas tinham as suas árvores e florestas sagradas. Na Idade Média houve os Cátaros. E por detrás desta opção está uma visão espiritual da natureza que condena a morte e a destruição, que defende o direito à evolução espiritual de todas as formas de vida. E em boa verdade, nós não precisamos de ingerir carne ou peixe, tem de extrair peles ou óleos de animais. Temos tecnologia para produzir todos os alimentos e nutrientes que precisamos a partir de leguminosas, vegetais, algas, frutas, lacticínios ou leveduras. A defesa do ambiente, a questão dos direitos dos animais e o movimento ecológico não são novidades do século XX. Pena que em mais de 2000 anos tenhamos evoluído tão pouco.