02 janeiro 2012

A nova Peste Negra: o cíclico retorno das idades das trevas



A crise do sistema financeiro internacional só superficialmente parece repetir o desastre de 1929. Para os mais avisados - aqueles que lêem história e não só jornais - lembra uma convulsão mais profunda, capaz de alterar globalmente não só os actores internacionais, como a cultura política, as ideias e aspirações por que se movem os homens. Quando comparada com a presente crise, a de 1929 parece ser uma inocente constipação. Os bancos estão mortos, o dinheiro desapareceu, o comércio declinou.
O capitalismo parece estar a passar pelo pior momento da sua longa e acidentada história. Já não se trata mais do capitalismo que fez a burguesia e a empresa moderna, capitalismo alicerçado no trabalho, no risco medido, na concorrência e na criatividade. O regime económico parece ter sido confiscado pelos mais improdutivos e impreparados - os políticos profissionais, gente desocupada - e transformou-se lentamente em capitalismo de subsidiação, alegremente crismado de "modelo social europeu", um passo à frente do keynesianismo para o abismo. O capitalismo das últimas décadas - as famigeradas décadas de ouro - ofereceu tudo o que o socialismo havia prometido e não conseguira realizar, mas acabou, tal como o socialismo, na miséria.
Tal como acontecera no fim da Idade Média, a economia passou para as mãos de banqueiros, financeiros especuladores e prestamistas. Os banqueiros, os especuladores e os prestamistas vivem fora da economia. Vivem para alimentar sonhos.Vejam o documentário e pensem duas vezes antes de ouvirem os feiticeiros do resgate. Parece que vamos ter mais Estado mais cedo do que pensávamos.
Conhece-se a origem do problema. Não se trata de uma questão de opinião ou de gostos, mas de um problema científico. Responder cientificamente a um problema é conhecer a sua origem e resolvê-lo por via racional. Ora, a maioria das pessoas aceitaram o vírus que agora nos mata, viciaram-se na euforia que o vírus provocava. Mesmo assim, persistem em acreditar que é possível viver com o vírus. São como crianças. Precisam ser educadas, com a máxima urgência e reaprenderem o trabalho, a poupança, para que deixem de ser crianças. Não estou a brincar. A nova Peste Negra já chegou.

PS. Há já dois anos, tendo acompanhado a crise política na Tailândia, me dei conta da aliança entre o capitalismo improdutivo inimigo da propriedade e do trabalho e do que resta do comunismo. Gente perigosa, sem dúvida. 

2 comentários:

Bmonteiro disse...

Continua, para além disso, a demonstrar-nos o seu raciocínio lógico e coerente, digno de um filósofo grego, afirmando que “Roma já não cabe em Roma: daqui em diante tem que decair ou igualar-se a metade do mundo.” e fazendo previsões para um futuro longínquo que, na sociedade actual, se aplica perfeitamente
(“Duvido que toda a filosofia do mundo consiga suprimir a escravatura: o mais que poderá suceder é mudarem-lhe o nome”;
“Uma parte dos nossos males provém de haver demasiados homens excessivamente ricos ou desesperadamente pobres”)
Memórias de Adriano
de Marguerite Yourcenar
PS: da História,
da natureza humana.

Pi-Erre disse...

"Ora, a maioria das pessoas aceitaram o vírus que agora nos mata, viciaram-se na euforia que o vírus provocava."
.

É verdade, é verdade. De resto, Daniel Kahneman e Amos Tversky (este já falecido) estudaram esse inquietante fenómeno e parece que os vícios são devidos a certos arranjos neuronais da nossa mente, muito difíceis de modificar, e que geram automatismos irracionais. Veja-se o caso dos fumadores. Mas tal aplica-se também às crenças políticas, religiosas, sociais, etc., etc.