13 janeiro 2012

É esta a civilização ocidental ?

As imagens de militares americanos filmados a profanarem corpos de inimigos estão a dar a volta ao mundo. Não é a primeira vez que tal acontece; aliás, que me lembre, desde miúdo habituei-me a estes instantâneos que colidem com ideia hollywoodiana do sorridente soldado americano, rural, temente a Deus, mascador de chicletes e distribuidor de chocolatinhos pelas crianças dos povos que vai martelando de bombas e napalm em nome da democracia, da liberdade e do mercado. Guerra é guerra, dizem aqueles que desconhecem que na guerra também há ética, também há princípios, também há leis e convenções, mesmo que o inimigo as não cumpra.
Depois de século e meio de guerras injustas - guerras de agressão, bombardeamento indiscriminado de populações civis - em nome de uma justiça de que o império se diz instrumento, com bombas atómicas no Japão, desfolhantes e "guerras secretas" no Laos e no Camboja, invasões sem justificação (vide Panamá, vide Iraque), chegamos a isto. A América não tem, decididamente, compleição para reinar sobre o orbe. É, não temamos as palavras, uma cultura insignificante, uma sociedade problemática, desestruturada e perigosa fundada na violência, no culto da força e da potência. Estas imagens aterradoras - que eu saiba, nem os SS ou os NKVD se deixaram precipitar em tão profundo abismo de rebaixamento - espelham sem artifício o carácter canalha dos cevados que andam aos tiros a proclamar a salvação dos povos e anunciar a boa-nova da nova ordem mundial. Depois de Dresden, Mai Lai, Abu Ghraib e do prémio Nobel para o chefe de tais libertadores, já pouco há a dizer.

12 comentários:

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Os SS e o NKVD fizeram muito pior, e a diferença é que isso era uma política oficial dos seus respectivos governos, ao contrário do que se passa nesse caso, onde os media americanos estão a divulgar o que se passou e os comandos militares julgarão esses palermas.
No meio da guerra, não é difícil imaginar que há gente que se passa, e é disso que estamos a falar. Porém, estranho é que se dê tanta atenção a uns soldados mijões, que sem dúvida metem em causa os princípios da nossa civilização cristã, e pouco se fale do que os chineses fazem no Tibete ou no Xinjiang, ou dos horrores que os russos praticam na Chechénia.
Entre correr o risco de ser mijado depois de morto em combate por uns palermas, ou ser serrado aos poucos com uma serra eléctrica, usado como fonte de órgãos humanos para venda ou servir de cobaia humana em campos de concentração, fico, sem dúvida alguma, com a primeira opção.

Um abraço.

Nelson Marques disse...

Caro Miguel,

Começo por saudá-lo, agradecendo o que vai partilhando connosco. Concorde-se ou não, os seus pontos de vista são sempre fundamentados e, quero crer, resultado de convicções amadurecidas. Ora isso, para um leitor, é sempre edificante.

Relativamente a este post, que julgo injusto para com os fundamentos de grande parte da sociedade e cultura norte-americanas, quero apenas deixar duas notas em jeito de provocação:
1 - não me recordo de nada para apontar como fonte se não apenas a minha memória, mas veja bem quem mais obrou em Dresden. Há até uma ligação pérfida - lá está, falha-me a fonte - entre a eficácia do que fizeram nessa cidade e o facto de, entre guerras, pilotos de sua majestada com ascendência alemã terem utilizado rotas até Dresden como treino, para além do conhecimento íntimo e detalhado da cidade;
2 - não tenho senão elogios ao conceito e prática de liberdade tal como a vivi nos EUA em tempos: total à vontade para fazer o que está certo, o que é diferente de fazer o que nos apetece. Em contraste, neste nosso pequeno e tão amado país, isso está muito longe de ser verdade nos tempos que correm...

Paz,

Nelson Marques
Milharado, Mafra
38 anos

Bmonteiro disse...

É mais do que a América, Império.
É a natureza humana, sempre presente, na paz ou na guerra.
Ainda me parece que com casos como este bastante raros. E punidos.
Problema e pior, é a razão ou razões das guerras de agressão.
E neste campo, os USA pós 2ªGM, têm evoluído significativamente. Para pior, cumprindo o destino dos impérios.
Depois, ao "complexo industrial-militar" USA, está a fazer falta um novo conflito.
E o Irão a por-se a jeito.

Combustões disse...

Sim, é o que digo, os EUA são, para alguma direita, o que foi a "ÓNIÃO SÓVIÉTICA" para os nossos comunistas.
Quanto à violência de que os EUA dão provas manifestas nas sete partidas do mundo, lembraria que em 230 de existência não pouparam ninguém à sua volta (México, Panamá, Honduras, Colômbia)e atacaram a Espanha de forma ignóbil (1898)inventando um atentado que foi encomendado. Lembro, ainda, os 3 milhões de índios, como lembro o pretexto para a entrada na 1ª Guerra. Lembro, sobretudo, a política externa de Kennedy contra Portugal, que reeditou a traição à França na Indochina e à França e Grã-Bretanha na Crise do Suez. Amigos desses não precisamos. Antes a China !

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Não há como negar aquilo que você diz, e até poderia apontar mais crimes cometidos sob a bandeira americana, ou que podem vir a ser cometidos (há interesses de olho na nossa lusa Amazônia).
Porém, estes crimes foram sempre cometidos por grupos que também agem no sentido de destruir a soberania americana. O verdadeiro nacionalismo americano, que nada tem a ver com esses ianques que andam pelo mundo a fazer o mesmo que os vermelhos, é isolacionista (por acaso, simpatizo mais com o espírito confederado do que com o do puritanismo nortista).
Mas vale a pena manter a fé naquele povo pois algo está a mudar. O Ron Paul pode vir a significar um ponto de viragem não só para os EUA, mas para todo o mundo ocidental.

Um abraço.

OCTÁVIO DOS SANTOS disse...

«Antes a China (do que os Estados Unidos)»?!

O Miguel está a brincar, não está?

Bmonteiro disse...

Lamento, mas quem errou com o Presidente K, foi o governo português.
Meia dezena de anos depois da reposição da ordem, devíamos ter sabido aproveitar o conselho americano.

António Bettencourt disse...

É verdade, esta também é a civilização ocidental. Uma civilização em que quem comete actos horrendos destes acaba por ser julgado e punido. Já em outras "civilizações" cortam-se cabeças, decepam-se membros, maltratam-se animais, secundaria-se as mulher, tudo ao abrigo da lei.

E já agora, ver num acto de barbárie isolado e excepcional um retrato de uma civilização...

António Bettencourt disse...

"This passion to break away explains also why many feel that the West has to be denounced. But we are not told what should or could replace it as a whole."

jacques Barzun, From Dawn to Decadence

Josephvs disse...

Tanto antiamericanismo Q já enjoa .

Porra pá, desde crinça Q se ouvia dizer "hei de mijar na tua campa"

Merda

Combustões disse...

Josephvs, não se amofine !

antonio-enrique silva disse...

deixe-me que lhe diga que representantes do bom povo português, muitos ainda vivos, terão feito coisas não muito diferentes destas durante a guerra colonial, e eu sei porque estive lá