19 janeiro 2012

A criatividade de um pilha-galinhas chamado Spielberg



Interessam-me as chamadas paraliteraturas, pois é no pequeno mundo dos "géneros menores" que está, sem rodeios e sem vã ambição de eternidade, o banal segredo da humanidade. Escrevi há anos, juntamente com Claude Shoop - grande conhecedor de Dumas- e Manuela Rêgo um catálogo da recepção do romance de aventuras em Portugal, que foi pretexto para uma exposição; sem dúvida uma das coisas que maior prazer me deu nesta vida. Alertado por um amigo para a peça que hoje vos proponho, só me ocorre a velha e consabida máxima de Eugenio d'Ors, para quem "tudo o que não é tradição é plágio". Confesso que tinha a vaga intuição da mentira Spielberg. Para quem, como nós, pensa que a boa mentira é o caminho certo para encontrar a verdade, aqui está, sem exercícios de citacionismo, sem engenharias semiológicas, sem teorias da literatura, o verdadeiro "metatexto" de Spielberg, ou seja, o plágio.

5 comentários:

Kubrik64 disse...

O seu anti-americanismo primário prega-lhe partidas, por acaso este video já está há muito tempo no youtube e basta ler um comentário do autor e outros mais para compreender que isto não é um plágio, pelo contário, mas deixo-o na sua arte de tentar iludir alguns dos seus leitores, porque já vi que muitos não o consegue.

Combustões disse...

Para sua informação, Spielberg foi confrontado com a arrasadora evidência e só depois de muito instado se pronunciou (e mal), pois respondeu de forma equívoca, manobrando com argumentos que remetiam para conceitos caídos em desuso após a descoberta dos "direitos autorais". Como sabe, a ideia de "obra prima" funcionou durante séculos - até ao século XIX - como criação insuperável; logo, digna de ser copiada. No caso de Spielberg, que não aspira à eternidade, pois o que faz serve propósitos eminentemente lúdicos e comerciais, tratou-se da fazer mão-baixa. Que eu saiba, nenhuma das suas fitas refere a inspiração.
Quanto ao "anti-americanismo" primário, deve o amigo estar a laboral em conceitos redundantes, pois, americano e primário são sinónimos.

rui a. disse...

Ok, até pode ser um plágio, caro Miguel. Mas, para todos os efeitos, o Raiders of the Lost Ark é provavelmente o melhor filme de aventuras produzido em Hollywood nas últimas décadas. Para além do carisma com que o Harrison Ford conseguiu dotar o seu personagem, este sim inultrapassável, é bem melhor do que o filme inspirador.

Saudações cordiais,

Pedro Botelho disse...

Conte com o meu apoio. Ainda achei o primeiro Duelo bem apanhado e original, se não mesmo digno de um Bradbury, Beaumont ou Matheson (que o bom do Eça mais o seu mandarim me perdoem a última ousadia). Chegaram os Salteadores, achei piada ao pastiche, e perdoei de bom grado a explosão do Santo dos Santos nas trombas derretidas dos antisemitas, grato por me terem poupado os trinados ultrasónicos da Yma Sumac de que -- Jesús! Maria! -- ainda me lembrava, tantos anos depois dos «quase 12». Os discos voadores a tocar cornetas, ainda consegui perdoar a muito custo. Chegou depois a aparição galáctica de dedinho luminoso em riste, e induziu naúseas e apertos instintivos tais que nem os berros pela devolução do dinheiro na bilheteira conseguiram aliviar. E a partir daí, tem sido o descalabro quase ininterrupto, com uma brevíssima pausa para a farsa involuntária da Lista -- um dos melhores sucedâneos do Plan Nine From Outer Space, com equívocos gasosos e tudo, para já nem falar no extra Tom Lantos a brincar às pedrinhas -- e outra para os escassos toques de fidelidade da invasão dos marcianos, soterrados debaixo dos habituais disparates. Finalmente, o crime dos crimes, a abominação sem remissão possível, o assassinato a sangue frio do Hergé, que nem precisou dirigir a tempo inteiro. E acabou aqui. Nem mais um soldado para as colónias, o raio que parta o imperialismo. Desculpe mas não resisti.

Pedro Botelho disse...

Espantoso. Tinha-me esquecido por completo que o Duelo, ao contrário do que eu dizia da Caixinha, era mesmo obra do seu autor, Richard Matheson, bem melhor que o Spielberg, apesar das semelhanças infelizes. Enfim, partidas que a memória prega, com o interesse acrescido de me recordar a atribuição da ideia inspiradora do sino do mandarim que pode de facto atenuar suspeitas (inspiração comum não é plágio): "original idea (...) taken from passage 1.6.2 of 'Genius of Christianity' (1802) by François-René de Chateaubriand, in which the author asks the reader what he would do if he could get rich by killing a mandarin in China solely by force of will."

É um mundo complicado, mas acho boa ideia simplificarmos o caso Spielberg. Por mim, com ou sem reis à vista, os tormentos de Ravaillac & Damien, já! E pipocas para a plebe, se necessário.