18 janeiro 2012

Ai de quem se atreva


Às vezes - corrijo, sempre - as mentiras, as falsas verdades, as meias-mentiras, as semi-verdades, as mentiras revestidas de verdade, a verdade envergonhada que se cumplicia com a mentira, têm largo séquito de apoiantes. As pessoas - por cobardia, por traição, por comodidade - detestam dizer o que vêem, criam palavras redondas para se desculparem, fabricam artifícios de linguagem para se iludirem na sua escravidão. A verdade, meus amigos, é que as pessoas são inclinadas para a simplicidade, mesmo que construam uma pirâmide de conceitos, se vistam de citações livrescas, repitam mantras infindáveis para confundir o silêncio. A grande ambição da maioria é o consenso, o estar à la page, viver como os outros - isto é, não viver - fingir que têm consciência. 
No fundo, não há homem que não seja totalitário e anda por aí muito fulano - os tais intolerantes da tolerância - que em nome da liberdade que não têm, nunca tiveram e a que nunca aspiraram criaram um totalitarismo invisível.O parlamento francês - que agora se substitui à Academia - legislou sobre as perseguições aos arménios, como o parlamento espanhol impôs a Lei da Memória, como na Argentina se mandou retirar Vilela do friso dos presidentes, como nos EUA é proibido demonstrar que a maioria dos colonos lutou pela causa do Rei (inglês) na Guerra da Independência, como em França não se pode publicar nada que implique a mais leve sensação de incómodo aos muçulmanos e judeus. E falamos nós da China, do Irão e da Coreia do Norte.
Há anos, lembro-me como se fosse hoje, o agora chorado Alfredo Margarido pediu a palavra numa reunião de professores e exigiu dos colegas que uma certa aluna - que demoliu com os mais desbragados adjectivos - fosse chumbada, pois atrevera-se defender posições que o tal santarrão considerava "vergonhosas". Pediu a cumplicidade dos restantes professores para uma matança ritual. Eu saí da sala e ainda houve alguém que me perguntou sibilinamente "se o Miguel também partilhava as ideias da aluna". É assim, meus caros. Estamos cercados de criminosos inconscientes.

1 comentário:

Pedro Botelho disse...

Há verdade em tudo isso e especialmente no silêncio sepulcral do grande indizível, irrepresentável e irreparável. Coitados dos arménios.