28 dezembro 2012

Lições da Restauração para a crise actual


Para os mais experimentados leitores da história portuguesa, torna-se evidente que a actual crise será, talvez, a segunda maior aflição colectiva que o país experimenta desde a Guerra da Restauração. Infelizmente, persiste o mito [anti-histórico] segundo o qual as crises não se repetem. Não se repetem na forma e nos factos, mas repetem-se nas circunstâncias que concorrem para os acontecimentos. Se as manifestações são sempre distintas de época para época, devia ser estudado o modus faciendi para lhes pôr um fim. Ora, havendo entre nós um desconhecimento quase generalizado das coisas do passado, não é de estranhar que governantes e governados se sintam impotentes perante a magnitude dos desastres que nos assaltam. 

O estudo da polemologia e dos acidentes militares da Restauração é coisa apaixonante. Portugal venceu então grandes desafios e a longa guerra revelou uma sociedade capaz de levar a extremos de heroísmo a defesa da sua liberdade. Contudo, a Restauração foi, sobretudo, um continuado esforço no exercício da boa diplomacia - captando simpatias externas para o reforço dos direitos portugueses - e do bom comércio. Para o sucesso da diplomacia concorreu o preparo das embaixadas, a escolha dos parceiros, a selecção do escol que representou o país. Para o sucesso da política económica, foi relevante aquilo que hoje dá pelo nome de "maximização" dos recursos, mercê da facilitação do acesso e fixação de estrangeiros no país, do baixo preço da tributação nos portos e no trato, da segurança garantida e da formação de agentes comerciais que permitiram abrir novos mercados aos produtos portugueses. Em terceiro lugar, a Restauração foi possível graças ao aprofundamento da dimensão ultramarina: Angola e Brasil assumiram lugar destacado.

Fazendo a possível conversão para o quadro hodierno, todas as políticas que favoreçam a fixação de interesses estrangeiros em Portugal - corresponsabilizando-as pelo sucesso da nossa economia - todas as políticas que visem diversificar os parceiros diplomáticos e comerciais, assim como o esforço legislador que torne atractivo investir com segurança, levarão à repetição do bom sucesso da crise 1640-1667. Isto quer dizer: uma diplomacia moderna e de elite, abatimento da má legislação, promoção dos nossos produtos, reforço prioritário das relações com o Brasil e Angola. Tudo o mais virá por acrescento.

27 dezembro 2012

O registo de nascimento do patriotismo português: 450 anos sobre a publicação da Primeira Década da Ásia


Neste 2012 que se abeira do fim, caiu no esquecimento uma efeméride da maior relevância cultural; nada menos que a primeira expressão de uma prosa doutrinal de deliberado intuito patriótico, colocando no centro da acção o povo português, protagonista de História. Coube a João de Barros (1496-1570) a formalização de uma teoria da história centrada na iniciativa colectiva do povo português.Esse primeiro patriota português “era (…) homem de venerável presença, alvo de cor, olhos espertos e nariz aquilino, barba comprida e toda branca, magro e não grande de corpo, na prática ainda que grave era aprazível e de grande conversação”. Entrara ao serviço príncipe Dom João (futuro D. João III) como moço do Paço, exercendo funções de guarda-roupa. Ali frequentou a escola palatina na “idade do jogo do pião”, recebendo primícias nas artes liberais, nas ciências, no latim e no grego. Metódico, burocrata talhado para o serviço do Rei, foi-lhe confiada a tesouraria da Casa da Índia, Mina e Ceuta, cargo que ocupou com merecimento entre 1525 e 1528, ascendendo depois à alta burocracia dirigente, sendo nomeado Feitor da Casa da Índia (1533), funções que exerceu ininterruptamente ao longo de trinta e sete anos, até 1567. Em meados da década de 30, recebeu duas capitanias no Maranhão (1535), empresa em que perderia dois filhos e os cabedais, endividando-o para a vida. Pobre, honesto, dedicado, foi um dedicado servidor do Estado, num tempo em que a tentação do enriquecimento ilícito fazia razias, anunciando o desastre económico e financeiro de finais de Quinhentos.

Da sua pena, dedicado ao rei e publicado em 1522, um romance de cavalaria – Primeira parte da cronica do Imperador Clarimundo – a que se seguiu Ropicapnefma (1532), colóquio metafórico em que intervêm o Entendimento e a Vontade e, em 1533, quiçá aspirando ao cargo de cronista do reino, o Panegírico de Dom João III. Em momento de profundas alterações, consequência das reformas Protestante e Católica – a Inquisição foi instituída em Portugal em 1536- a atividade do letrado prosseguiu, espraiando-se por mercadoria espiritual, constituída pelas “artes de aprender a ler” e cartilhas – Gramatica da língua portuguesa (1540); Cartinha com preceitos e mandamentos da santa madre igreja (1540); Dialogo da viciosa vergonha (1540). 

Não sendo cronista geral do reino, escrevendo “não por ofício, mas por inclinação; não por prémio, mas de graça e, mais favorecendo que convidado”, entre os encargos oficiais e os momentos de ócio, concebeu um grande plano que pretendia ser uma história da conquista, da navegação e do comércio de Portugal na Europa, em África, na Ásia e Terra de Vera Cruz (Brasil). Desta “catedral historiográfica” inacabada, inscrevendo um arco cronológico que se inicia em 1420 com o início do povoamento da Madeira e termina em 1549, surgiriam as três décadas publicadas em vida de Barros (Primeira Década, editada por Germão Galharde em 1552; a Segunda Década, também de Galharde, em 1553; a Terceira Década, editada em 1563 por João de Barreira; a Quarta Década, seria completada por João Baptista Lavanha em inícios do século XVII). 

Inspiradas em Tito Lívio, as Décadas dão expressão eloquente à novel historiografia ultramarina, género discursivo que herdava, sintetizava e transpunha as crónicas reais, as histórias eclesiásticas e histórias de cavaleiros de finais da Idade Média, pretendendo-se monumento apologético inculcador de orgulho, consciência de missão histórica e fonte de exemplo. Não se trata, contrariando Hernâni Cidade, de prosa delirante. Barros teve acesso directo às fontes e aos actores principais e secundários da história que quis salvar do esquecimento, foi fiel a um princípio de ordem e equilíbrio, defendendo-se do exagero, procurando o rigor, condições do labor historiográfico. Valeu-se de recursos estilísticos e de modelos próprios do Renascimento, bem da riqueza e subtilezas da língua portuguesa, então já preparada para voos literários, preferindo os grandes acontecimentos aos pequenos factos. Os grandes protagonistas das Décadas são o Infante dom Henrique e Dom João II, pródromos da expansão, assim como Dom Manuel I, Dom Francisco de Almeida, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e outros capitães-mores das armadas. Contudo, colocando o povo português - motor do tempo novo – no centro da narrativa, Barros criou uma vibrante narrativa patriótica. Transpostas Colunas de Hércules, tornando o desconhecido conhecido, os portugueses haviam feito do mundo o palco de proezas que emulavam as dos heróis clássicos. 

Não será necessário acentuar a influência de Barros em Camões e lembrar o sucesso que as Décadas conheceram na Europa. De Afonso Ulloa, L’Asia del S. Giovanni di Barros – tradução das Décadas primeira e segunda – editada em Veneza em 1562. Na terceira edição de Delle navigationi et viaggi, de Ramusio (1563), surgem extractos, novíssima revelação de outros mundos e modos insuspeitos. O interesse concitado prolongar-se-ia pelos séculos seguintes, e ainda em inícios do século XVIII, enriquecidos pelo esmero editorial de Pieter van der Aa, Expedições Navais (Scheeps-togt), quadros das viagens dos capitães do Oriente retirados de João de Barros e adornadas por gravuras que são desde então inseparáveis da visão europeia do sub-continente indiano e da Insulíndia. 

Mas para quê falar de coisas de somenos. O importante são as lamúrias, a choraminguice, a rediscussão da dívida, o Professor Doutor Artur Baptista da Silva, as indignações, os ataques à Isabel Jonet, a crise no Sporting, os insultos ao Primeiro-Ministro; isso, sim, são coisas importantes.

25 dezembro 2012

Renovação do mundo: o Sol Negro

Pelo Natal, festa da esperança e da renovação do mundo, o belíssimo Soleil Noir, biografia de um Rei que se entregou às paixões humanas, transigiu com os miasmas invisíveis que preparam o sangue e o terror que assaltariam a França e a Europa após a sua morte, deixou-se por cercar por amigos-inimigos mas que, in extremis, último assomo de fibra, quis reformar o Estado, dominar o egoísmo estreito dos privilegiados, estabelecer a igualdade na justiça. Luís XV, esse belo exemplar do século XVIII, é uma personagem actualíssima. Quando as sociedades adormecidas e petrificadas, dominadas pela rotina e pelo consenso que evita olhar a realidade, se mostram indisponíveis e inacessíveis ao bom-senso, há que lançar mão às reformas, contra todos se necessário, para evitar o descalabro. Luís XV percebeu-o tarde, é certo, mas os privilegiados quiseram manter o status quo. Como a vida do Rei se assemelha à dos actuais reformadores, odiados por querem mudar o estado de coisas que levará ao caos que nos espera.

24 dezembro 2012

O portentoso país dos bitaites: os falsos Dom Sebastião


Aparece um indivíduo afirmando-se cumulado de títulos e funções (ex-bolseiro da Gulbenkian, consultor do Banco Mundial, coordenador mandatado pelo Secretário-Geral da ONU, professor universitário), desdobra-se em entrevistas à imprensa, a reuters certifica-o, senta-se nas mesas redondas das intermináveis parlapatanices televisivas, é orador convidado em jantares promovidos pelas mais desvairadas instituições - umas sérias, outras nem tanto - ganha respeitabilidade sentando-se com Bagão e Maria Barroso, é coqueluche de blogues

O país rende-se-lhe, ouve-o, exulta com o tom de milagre no ar das boas novas que debita. A crise não existe, a dívida é uma ilusão, quem tem culpa é o governo. O Cagliostro de trazer-por-casa, o Rei da Ericeira, o novo pasteleiro do Madrigal continua, alarga-se a multidão de seguidores. Para mais, é de esquerda, cidadão empenhado, abaixo-assinante em tudo que envolva amanhãs cantantes, senador da esquerda revolucionária, defende um onírico "ministério da Felicidadetudo aquilo que faz pergaminhos e confirma brasão e título. O português, maioritariamente semita ou berbere, acredita em elixires, em sinais e presságios, curas milagrosas. É contra tudo e de tudo duvida, não ouve a razão, desdenha da clareza, mas se lhe surgir pela frente um António Conselheiro - e tantos têm sido os messias ao longo dos quarenta anos que levamos deste regime - transfigura-se, adere cegamente, não balbucia. O fim do mundo passou, e com o alívio do não cumprido armagedão, o falso Dom Sebastião é posto a descoberto. Seixas da Costa ainda protesta a presunção de inocência, outros descalçam as botas que ajudaram a fabricar para o novel marquês de Carabas. Mas para este caso não vai haver uma cela na Bastilha, uma galé ou uma carnificina no Paço da Ribeira. Isso era dantes. No paraíso da Dona Branca, de Vale e Azevedo, Alves dos Reis e Duarte Lima, permite-se que haja mágicos, conquanto seja apenas um de cada vez.
Ao longo da vida todos temos conhecido a mais diversa casta de aldrabões, mentirosos e falsários aos pés dos quais são depostos os mais sonoros pachões e os mais cheirosos pivetes. Já o meu saudoso pai me advertia: "não te aproximes demasiado", "isto não é gente de confiança", "estão sempre prontos para todo o tipo de habilidades e, depois, paga quem foi ingénuo". É altura, caros leitores, de duvidarmos por princípio, duvidar sempre, até prova em contrário. Bom Natal no grande Rilhafoles em que se transformou Portugal !

22 dezembro 2012

Receita infalível para destruir a economia portuguesa


Se os adeptos do quanto pior, melhor, continuarem a insistir na alteração daquela segurança mínima requerida pela indústria turística, estão no bom caminho. No Magreb, o turismo caiu 40 a 50% desde o início da Primavera Árabe e na Grécia os resultados são igualmente devastadores, registando-se em Outubro uma quebra de 200 milhões de Euros face a dados homólogos de 2011. Os operadores turísticos europeus advertem os incautos sobre os perigos que espreitam os viajantes que demandam a Hélade. É sabido que reconstruir a imagem turística de um destino é mil vezes mais penoso que a criar. Os nossos agitadores profissionais sabem o que fazem. Depois das exportações, miseravelmente estropiadas por uma greve terrorista nos portos, podem lançar mão ao turismo, que subiu 4% desde 2011, gerou 2.000 milhões de Euros de receitas e garante cerca de meio milhão de empregos. Continuem, pois, a brincar e teremos mais 500.000 desempregados.

Bárbara sentença


O porta-voz da National Rifle Association, Wayne LaPierre, afirmou ontem que "a melhor defesa contra um tipo mau portador de arma de fogo é um bom tipo portador de arma". A lógica do far west num país onde circulam 350 milhões de armas aplica-se como uma luva à doutrina externa de um país habituado a exercer violência preventiva, bem como violência retaliativa numa escala nunca proporcional à ameaça do agressor real ou imaginado. A cultura da arma - invocada como um direito cidadão - gerou um complexo sistema de manifestações que contrariam o carácter apaziguador das sociedades face ao uso da violência individual. Neste particular - vide o cinema, os jogos de computador, o prático decisorialismo norte-americano - o recurso à violência assenta como condição prévia ao triunfo. O direito a matar, real ou figurado, o direito a passar por cima dos concorrentes gerou a convicção segundo a qual não há triunfo sem a eliminação do próximo. Coisa terrível, sem dúvida, pois a violência, ultima ratio, passou a prima ratio, da qual todas as outras se legitimizam. A democratização do porte de armas contraria a velhíssima instituição militar, que Georges Dumézil considerava um dos três pilares da ordem trifuncional (guerreiros, sacerdotes, camponeses) e é aval para o terrível diagnóstico de uma sociedade disfuncional onde todos se guerreiam e matam uns aos outros.

21 dezembro 2012

Quatro perguntas sobre a TAP após o fim do mundo

1. Quem vai pagar os 500 milhões do passivo da TAP-Brasil?
2. Quem vai pagar o passivo acumulado de 1.500 milhões da empresa?
3. Quem vai garantir emprego aos milhares de funcionários da TAP que deverão ser despedidos nos próximos dois anos, após cortes em pessoal já decretados na Iberia, British Airways, Air France e Lufthansa?
4. Como se fará a renovação da fronta existente, hoje obsoleta, conhecida a interdição da UE a qualquer injecção de capitais públicos em transportadoras aéreas de bandeira?

Se a crise persistir, não havendo outro candidato, a companhia vai-se esvair lentamente, não obstante o esforço em lutar contra o inevitável. Em 2012, os excelentes resultados obtidos pela empresa não impediram o aumento da dívida que, ao invés de minguar, aumentou, demonstração clara que se trata de um problema estrutural. 

20 dezembro 2012

A geração que queria ser europeia


Helena Roseta mostra as maiores reservas sobre a possibilidade de junção entre a TAP e a TAAG, aplaude a inviabilização do negócio com os brasileiros. Invoca os "grandes desiquilíbrios" e desigualdades culturais para, logo, exprimir preferência por uma solução "europeia" para a transportadora aérea nacional. Para mais, referindo-se aos angolanos, resolve o problema recorrendo à psicanálise pronto-a-vestir, aludindo a uma "vingança da história" e à "colonização do ex-colonizador". Esta gente não tem emenda. Odiaram Portugal como os seus maiores inimigos não o fizeram, nunca puseram um pé na África portuguesa e viram o fim do império como a libertação de um fardo, esquecendo-se que Portugal não era a Bélgica, a França ou a Grã-Bretanha, que se podiam dar ao luxo de manter o poder colonial através de uma elite nativa que lhes garantia a intocabilidade da exploração.
Quiseram meter-nos no redil europeu a empurrões e pontapés, sem condições, assinando de cruz e dos fundos europeus - que escondiam a destruição da economia portuguesa - fizeram bandeira para justificar a submissão colonial, a evacuação da soberania, a raquitização do Estado. Viveram como "europeus", imersos  na rede de cumplicidades que os mantinha por cá como procuradores de interesses que serviam mas não controlavam. Quando tudo acabou - chegados a esta ignominiosa situação de mão em concha, mendigando favores - não conseguiram pensar para além do que tinham aprendido. Insistem e até esqueceram as torrentes palavrosas da "lusofonia" sem obras, este adereço que ocupava o vazio deixado pela redução de Portugal às fronteiras do século XV. Agora, já nem Pessoa lhes interessa, tão ligados estão à feudo-vassalidade que os prende aos "europeus". Assim não vamos lá. Portugal está a perder a experiência do mundo, pois coisas destas não estão na genética mas no exercício e práticas de relacionamento. Estamos a transformar-nos numa Catalunha, na Sicília ou em mais uma dessas veneráveis carcaças históricas, cheias de passado e sem futuro algum.

O bezerro de ouro


Está bem, tudo é trabalho, tudo faz currículo, tudo é mercado. Acordei, li e já dei umas boas gargalhadas. Este país é uma pilhéria, pelo que me admiro como ainda nos deixamos colher por surpresas deste jaez. Os empresários, aqueles que investem, dão emprego, pagam impostos, exportam e reinvestem com risco, esses não têm "carreira", este senhor, sim. Depois, fatalidade das fatalidades, a "carreira académica" na lusófona, o  doutoramento, a farpela catedrática. Um velho general disse-me um dia que já não vestia a farda há muitos anos, precisamente a partir do dia em que viu fulanos que nem para soldados arvorados tinham gabarito passearem-se com galões e calças de passadeiras vermelhas.

19 dezembro 2012

China: a grande ilusão ou nas vésperas do IV Império?



Wang Gungwu é uma das incontornáveis referências da sinologia contemporânea. Chinês da diáspora, autor de reconhecida argúcia e complexidade, tem sido um dos mais proeminentes críticos dos mitos que envolvem a China actual. Para quantos, aterrorizados pelo "perigo chinês", julgam inelutável a expansão chinesa sobre o mundo, Wang Gungwu constituiu um bálsamo, apontando as deficiências, as fracturas e a instabilidade interna inerentes a um modelo de desenvolvimento incontrolável que gerou grandes desigualdades e ressentimento, dependência extrema do país face à economia mundo mas, sobretudo, novas elites que tarde ou cedo concorrerão com a elite dominante do PCC. Confrontados com o dilema de destruírem a China, alçando-a a potência global alicerçada num mundo há muito ocidentalizado, ou manterem a mais antiga civilização - única sobrevivente da Antiguidade - recusando o Ocidente, conseguirão os chineses superar a actual fase de abertura ao mundo exterior que sempre olharam com reserva e medo?
A invenção da etnia, a construção de uma língua unificadora - parte mística da identidade chinesa - o serviço do Estado, tudo isso corre riscos de alcance ainda não previsíveis. Estará o capitalismo a destruir as condições que fizeram a China? Será a democracia uma via para China? Ouvi-lo, proporcionará aos leitores desta tribuna uma compreensão menos simplista do Império do Meio.

18 dezembro 2012

Ah, senhores jornalistas !

O DN informa hoje que a Coreia do Sul se situa no Sudeste Asiático. Confundir o Sudeste Asiático com o Extremo Oriente está para a Ásia como confundir a Escandinávia com a Península Ibérica. Se já nada nos pode espantar, há mínimos de algibeira requeridos. Nestes tempos de proletarização do jornalismo e dos cursos de composição, corte e recorte, já nem a famigerada wikipédia consultam. 

Sombras: Malraux


O autor de Les Conquérants, La Tentation de l'Occident, La Statuaire, La Monnaie de l'absolu, André Malraux, jornalista, editor, conferencista, globe-troter, resistente, ministro da cultura, oficial da Legião de Honra, orador cativo em todos os grandes fastos da V República francesa, continua a reclamar sucessos editoriais trinta e seis anos a pós a sua morte: reedições, antologias, correspondência, biografias e estudos enchem estantes. Um dos mais recentes estudos sobre Malraux - André Malraux: un combattant sans frontières - está disponível numa das mais conhecidas livrarias de Lisboa. Apresenta-o como a perfeita coincidência entre o homem de acção e o intelectual, o arista da palavra e o metteur em scène dos grandes mitos pelos quais os homens se oferecem às balas e ao martírio laico na luta pela liberdade.
Folheei e procurei, procurei, mas não encontrei aquele pequeno detalhe que faz o retrato sem adorno do biografado. 

Especulador bolsista, em 1923 Malraux estava à beira do colapso financeiro. Ainda rapaz, tornara-se famoso pelas vibrantes conferências sobre a arte, abrira uma editora, aspirava à grandeza e ao reconhecimento público, sonhando, talvez, vir a ser o mais jovem imortal da Academia. O esteta, o amante das belas formas, o pregador do sublime que carrega qualquer peça artística, resolveu o problema que o afligia. Enganou a direcção da École Française d' Êxtreme Orient, falsificando documentos que o encartavam como arqueólogo, conseguiu cartas de apresentação destinadas a garantir o apoio do Governador-Geral em Saigão, meteu-se num vapor e rumou à Indochina Francesa. Ali chegado, organizou uma expedição e internou-se pelo Camboja, acampando nas imediações de Angkor. Durante semanas, em vez de extasiar perante as estátuas khmeres, Malraux dedicou-se a destruir baixos-relevos de  Banteay Srei, cortando-os, embalando-os e enviando-os para França, onde seriam vendidos a coleccionadores. Apanhado em flagrante, foi preso e condenando. Em tribunal defendeu-se, afirmando estar a ser vítima de perseguição política, pois era um feroz crítico do colonialismo. Ao regressar a Paris, entregou-se freneticamente à escrita da Voie Royale, romance em que relata o insucesso da sua peregrinação ao Camboja. Lutadores destes que escrevem junto malfeitorias e vocações libertadoras não são tão raros como podemos pensar; diria mesmo que a ego-história de qualquer ficção é mais poderosa que qualquer impulso criador. Desde o dia em que soube do passado de Malraux, deixei de lhe conferir o mínimo interesse, como homem e como autor. Sei que sou um desmancha-prazeres. Há quem idolatre o fazedor de proezas, mas quem pode gostar de um falsificador ou de um traficante de tesouros artísticos?

A quem interessa continuar a mentir sobre a situação na Síria?

Imagens captadas ontem em Aleppo, onde se trava dura batalha há mais de cinco meses. A população continua a resistir à escalada salafista. Quem, nos EUA e na Europa, persiste em financiar, armar e treinar os verdadeiros inimigos do Ocidente?

17 dezembro 2012

Necrofilias


A capital da Coreia do Norte conta a partir de hoje com mais uma atracção. O corpo do Querido Camarada Kim Jong-il passa doravante a estar patente ao público, juntando-se ao de seu pai Kim il Sung, que repousa numa mastaba-mausoléu. O culto pelas múmias expostas, inaugurado pelo cadáver de Lenine -logo seguido de Mao e agora da dinastia Kim - é uma manifestação da psicótica relação dos comunistas com a eternidade. Porém, no que respeita a chineses e coreanos, acresce tratar-se de um insulto aos mortos, cremados no Coreia e inumados na China. Aqueles regimes, tendo-se firmado sobre a destruição de interditos culturais, declararam guerra às respectivas culturas, demonstrando que o marxismo foi, na Ásia, o mais poderoso agente de auto-colonização. O materialismo tem destas coisas. Tão arrogante, tão explicativo e pretensamente "científico", baqueia perante o mistério da morte. São estes cadáveres expostos a melhor impugnação do absoluto imanente?



Portugal de parte no business e na barganha



As relações entre os EUA e a China estão na ordem do dia, pelo que não há semana em que não surjam nos escaparates obras que visem lançar luz sobre o confronto de duas potências em tudo distintas, condenadas à cooperação ou ao enfrentamento. Os EUA, potência global em declínio, confiscaram, hegemonizando-as, as relações com a China, detidas até meados do século XX pelas potências europeias, pelo que se compreende que os norte-americanos procurem, não sem alguma imperícia, inflaccionar - inchando-as - a importância relativíssima dos contactos de natureza comercial estabelecidos na primeira metade do século XIX.

Recurso a conceitos obsoletos, absoluta falta de informação de base sobre a antiguidade das relações entre os ocidentais e o Império do Meio, este When America first met China, de Eric J. Dolin, acabado de sair, constitui oportunidade perdida para um melhor entendimento do primeiro estádio da presença norte-americana no Oriente. Desconhecendo a hierarquia que separa relações de contactos, Dolin marginaliza e minimiza a presença portuguesa, então já multissecular na Ásia, confundindo trocas comerciais com relações de Estado-a-Estado. Colocar o chá, as porcelanas e as sedas - trocadas pelas peles de focas americanas - ao mesmo nível que as embaixadas portuguesas a Cantão e Pequim, a acção do Padroado, os matemáticos e astrónomos jesuítas na corte do Império Celeste - onde nem faltou a assessoria política para o estabelecimento das condições para a assinatura do primeiro tratado formal entre a China e a Rússia, façanha que coube ao padre Tomás Pereira, recentemente homenageado num soberbo In the Light and Shadow of an Emperor: Tomás Pereira, SJ (1645–1708), the Kangxi Emperor and the Jesuit Mission in China, obra de Artur Wardega e Vasconcelos de Saldanha - é por demais revelador do desequilíbrio e ausência do sentido das proporções.

Esquece - ah, como faz falta uma política sistemática de tradução dos nossos trabalhos historiográficos para a língua inglesa - que além do hard power militar e económico que Portugal detinha no Oriente, havia um soft power, um status que separava portugueses de outros europeus aos olhos dos asiáticos. Em finais do século XVIII e princípios do século XIX, Portugal era ainda, aos olhos dos asiáticos, uma potência desenvolvendo actividade em níveis diferentes, reunindo condições que o colocavam em vantagem sobre outros ocidentais. Dolin pouco diz sobre Macau, pois ali funcionou a partir de 1568 o primeiro hospital ocidental na China, responsável não apenas pela assistência, mas pela difusão das técnicas operatórias e de diagnóstico e até na introdução do quinino no Império do Meio. Esquece, igualmente, que a tipografia portuguesa trabalhava na Ásia desde o século XVI e que no início do século XIX, antes da criação de Singapura e Hong Kong, a única imprensa periódica editada no Extremo-Oriente era a macaense. Omite, desconhecendo-o, que o seminário superior de Macau era a única universidade no continente, que a sinologia foi, até Setecentos, portuguesa. 

O interesse pela barganha, gente levando mercadorias e carregando mercadorias, lobos-do-mar, contratadores de coolies, empresários do ópio e simples aventureiros são coisa pouca, quase marginal, no cômputo do encontro de duas civilizações. Dolin dá prioridade ao business, pelo que o seu trabalho - exótico, colorido, escrito para entreter - não passa de um texto para se ler na praia.


15 dezembro 2012

Um país absolutamente sinistro


O massacre ontem ocorrido nos EUA serve de manifesto para sublinhar aquilo que os mais empedernidos americanófilos teimam em ocultar. Trata-se de uma sociedade fundada por inteiro sobre a violência, constituída por gente dominada por instintos agressivos, uma cultura que exalta o "darwinismo social" e o direito da força. Assim foi desde o primeiro momento - o extermínio dos nativos, o esclavagismo, a segregação - e foi-se expandindo, primeiro pelas américas, depois pelo mundo em sucessivas guerras em nome dos mais nobres ideais. Não contem, pois, com entusiastas para repetir as pias mentiras do "sonho americano".

Sempre que vejo massacres destes - coqueluches para noitadas televisivas - ocorre-me a foto da americaninha escrevendo ao namorado a carta, enquanto olhava embevecida para a caveira do soldado japonês (decapitado e esfolado) que a cara-metade tivera o bom-gosto de lhe enviar. Nem a cadela de Buchenwald a tanto se atrevia.

14 dezembro 2012

Isabel Jonet e os palradores


Continua a via sacra de Isabel Jonet. Três senhores, rotundos e loquazes, discreteando por uma longa hora bem estipendiada sobre solidariedade e caridade. Lobo Xavier no papel de advogado, nem bem nem mal, António Costa menos mal e até com uma pontinha de simpatia, Pacheco Pereira odioso, sem cura possível para a erisipela vermelhusca que não desgruda e que de quando em vez lhe prega partidas de emerrepêpismo.
Jonet a pagar o preço pelo Bem que não veste a camisola vermelha das boas causas da santidade laica. Esta mulher tem alimentado dezenas de milhares, tem sido agasalho para a fome, a esperança para os abandonados, o aconchego para os desesperados. Ali não há fundos do Estado, não há agenda política, um cargo a filar, os louros de um prémio a receber. Trata-se de caridade - sim, caridade e não "solidariedade" -  amor ao próximo e mandato da consciência. Num país de palavrosos inconsequentes, de teóricos e de elites  presunçosas, Jonet é granítica, enorme, uma exemplar e teimosa força merecedora de um tapete de flores. Devia circular pelas ruas sob uma estrondosa e torrencial salva de palmas. Mas não, em Portugal, há sempre um Pacheco a espumar raiva, a perorar sobre sociologias, "conceitos" e "ideias".
Como em tudo, há pessoas que fazem, outras que não fazem, não querem fazer nem sabem fazer; outras ainda que só sabem desfazer. No género humano, tão previsível, há os que são talhados para dar, outros para receber. Jonet é líder, deixa. Os seus detractores, esses, criticam, amarfanham e querem a todo custo ver-se livres daquilo que não suportam. 

13 dezembro 2012

O fim do grande mito



"Há-de haver leis que presidem aos homens, que isto é dar a presidência a Deus; não hão-de presidir os homens com o seu arbítrio à lei e à razão, que isto é dar a presidência às feras, à cobiça, à ira e às paixões, como disse Aristóteles".
                                                    Manuel Rodrigues Leitão, Tratado analítico e apologético, 1715

A Europa no fim do ciclo do povo-rei. As tiranias do futuro, alimentando-se do caos, reúnem argumentos liberticidas e preparam-se para entrar em cena. A soberania sem cabeça - a soberania dos braços e das pernas - deu nisto. Ontem foi no parlamento ucraniano; amanhã será por todo o lado. Acabou o tempo dos senhores burgueses bem-postos afectando a gravitas dos comícios da Roma clássica. Agora, como previra Tocqueville, é este formigueiro de gente igual, violenta e incontrolável, presa dos instintos, falando com os punhos.
Ainda há tempo de mudar, lembrando a velhíssima sentença de São Francisco de Sales a propósito do suicídio de Judas: "entre o momento em que a corda estica e aquele em que a corda estrangula, ainda há lugar para que a [salvação] intervenha". O sistema representativo tem, pois, perante si a possibilidade de se redimir ou de se perder. Se o não fizer agora, o futuro pertencerá àqueles que o negam.


12 dezembro 2012

As esperas na traulitânia


"Nunca um Governo foi tão humilhado e odiado pelas pessoas como o atual, nem no tempo de Salazar, porque esse sabia manejar as coisas de outra maneira". Mário Soares, 11.12.2012

09 dezembro 2012

Medinho, convencionalismo, incapacidade para ganhar distância perspectiva



O documentário Estética, Propaganda, Utopia no Portugal de António Ferro, por aí tão incensado nas passerelles do academicamente autorizado, passou há minutos na RTP-2. Os mesmos clichés, a mesma desonestidade, essa quase doentia necessidade de dizer mal do país, de serrar as pernas a quantos superem o metro e meio da mansa mediocridade, o prestar serviço à carreirinha e à boa imagem pública exigindo dos depoentes referências "ao Salazar" e "ao Ferro"; em suma, uma bela oportunidade perdida para rever Ferro, esse homem grande que fez no campo da cultura o que nunca ninguém fizera ou voltaria a fazer. 

Há que acabar de vez com o ranço de uma "História Contemporânea" de facalhão em riste. Lá estavam Acciaioli a debitar palavrório, o nonagenário França (que devia ser coibido de continuar a escrever, para não deslustrar a boa obra que assinou há 30 ou 40 anos), um Rosas sempre superficial e adjectivador, uma menina formatada nos mestradros do corta-cola e, até, o pronto-para-tudo de serviço Eduardo Lourenço com a sua filosofice-light, redonda, sem ponto de aplicação. Só Dacosta, agigantado perante tão apoucada companhia, brilhou pela isenção. Esta gente não descola nem desanda. Vive imersa em ódios a mortos e coisas de há 80 anos. São conservadores, reaccionários, imobilistas, têm feito um mal terrível ao país e são, no diminuto campo em que operam, os ditadores das modas culturais. 

Sei que a "academia portuguesa" não passa disto. Continuamos pequenos, subdesenvolvidos, afectados e presunçosos. Esse cascão quase irremovível precisava de um novo Ferro. Mas os Ferros só surgem de 100 em 100 anos para contrastar com as Acciaioli's, os Rosas e as meninas "mestrandas" das banalidades exigidas pela máquina dos currículos. O João Amorim di-lo melhor que eu. Isto é, simplesmente, demagogia e desonestidade intelectual.

Ibi sunt leones


Os cartógrafos carolíngios, sempre que desconheciam com exactidão territórios localizados fora dos limites do império, escreviam displicentemente "ibi sunt leones" (aqui há leões); por outras palavras, inventavam, supunham. Medvedev fez declarações consideradas escandalosas para um responsável político. Escandalizada ficou a "boa imprensa" - a tal que mal sabe assinar o nome - e o coro de indignados foi alargando. Crenças são crenças, cada um acredita no que quer. Eu, por mim, acredito no purgatório, nos anjos, na percepção extra-sensorial. Mas há pior; há quem acredite na bondade do mercado, no calendário maia, na base hitleriana no Polo Sul, na Terra oca, nas guerras justas para espalhar democracia, em sociedades perfeitas e até numa Idade Nova joaquimita dada à luz pela tal mirífica revolução mundial. Pior ainda, há quem acredite na bondade da nossa república. É a nossa costela semita.

07 dezembro 2012

Hoje, 7 de Dezembro, dia da infâmia


Os norte-americanos chamam-lhe o dia da infâmia, evocando o ataque inopinado, sem declaração de guerra, arrasador e cobarde desferido pela armada japonesa a Pearl Harbor naquele 7 de Dezembro de 1941. À escala portuguesa desta era de trevas, de gente pequenina, raivosa, anónima, maledicente, invejosa, incapaz de um desabrido gesto frontal, numa palavra vingativa, a coisa fica-se pela destruição das reputações. É evidente que o país está cheio de ladrões, de corruptos, de marajás da impunidade - farta sementeira de décadas em que a justiça desapareceu - e que não há esquina, beco, vão de escadas ou dispensa onde gente absolutamente nula mas cheia de influências, amigos e padrinhos dá largas à paixão pelo dinheiro fácil, ou seja, dinheiro roubado aos cofres do Estado.
Hoje, as parangonas derramam a baba venenosa em Medina Carreira. Pudera, Medina Carreira tem sido ao longo dos anos o porta-voz da verdade. Diz o que outros, por medo ou por comodidade, se recusam pronunciar, ataca sem quartel a fulanagem da vida airada, despe os sofismas, arrasa os medíocres, diz ao povo o que lhe espera se perseverarmos neste aquário de ilusões. É MC uma assombração para o pessoal de Liliput, os palavrosos sem substância, os mentirosos compulsivos, a burguesia meia-tigela vinda do nada e que proclama os socialismos, as virtudes do Estado social, os direitos e quejandas mentiras, conquanto o dinheiro (que já não existe) continue a encher bolsos de amigos, parentela, irmãos de templo. Não sei se MC está ou não envolvido no tal Monte Branco, mas se o regime tivesse um pingo de vergonha - o regime é um Himalaia de corrupção - calar-se-ia.


Morreu Niemeyer, génio da Utopia totalitária


Oscar Niemeyer morreu centenário, confirmando a longevidade dos génios, anúncio da imortalidade em que não cria. No obituário dos tolos que lhe quiseram render homenagem - e Deus fala quase sempre pelas crianças ou pelos simples - Niemeyer foi, apenas, o amigo de Fidel, de Chávez, o revolucionário que nunca desarmou, o Prémio Lenine da Paz e o arquitecto que desenhou a sede de um partido hoje quase inexistente (o Partido Comunista francês), expressão acabada de um futuro que o não foi. Niemeyer é muito mais. Fazia parte daquela geração de planificadores de cidades, escultores de monumentos, "poetas do betão armado" e entusiastas desse remoto sonho - tão provável como um centauro - da mudança do homem. Teve como inspirador Le Corbusier (amigo de Valois, de Mussolini e leal servidor de Vichy) e foi, no seu momento de ouro, o que Alfred Speer pretendera ser no regime nacional-socialista. 


Niemeyer entronca no construtivismo e no funcionalismo, mas a sua gramática, substituindo o bloco pela curva, mascara o fascínio irresistível pelo poder do Estado, tomado como caminho mais curto para a Utopia. As jubilosas sedes do poder (os ministérios, a sede da ONU, os palácios) em que deixou marca do seu génio - deixemos de lado as encomendas menores - são evidências estridentes  da visão totalitária da arte. Não há, escandalizem-se os adeptos do galerismo e da arte-mercado, arte que não seja totalitária, ou seja, total, absorvente, centrípeta, magalómana e psicótica. Brasília, a mais bizarra experiência bem-sucedida de centralização do poder dos tempos modernos - tão chocante na sua formulação como Tell el-Amarna de Akhetaton, Germânia de Hitler, Islamabad, Yamoussoukro ou Naypyidaw - é uma tese. Ali, não há escala humana, os homens não interessam. Como é sempre jovem a velha Utopia de Moro, asfixiante, codificadora e controleira, matriz do sonho de uma sociedade sem mudança, perfeita, tão perfeita que recusa o desejo, o sentimento, os afectos. Não se destina a pessoas, mas ao poder. 

Große Halle, de Speer

O meu velho amigo Gerardo Mello Mourão, já falecido, nome grande da poesia brasileira do século XX, contou-me um dia a acalorada discussão que tivera com Niemeyer a respeito de Brasília. Niemeyer afirmara que estava a construir uma tese e uma Utopia, que essa Utopia estava a transformar-se em verdade histórica. Mello Mourão respondeu-lhe que não queria viver numa tese, queria ser homem, viver habitualmente, ter jardim, ter mercearia, o quiosque de jornais, a tabacaria, a loja de pronto-a-vestir. Depois, desistiu. O olhar de Niemeyer tornou-se opaco, distante, desinteressado da pequenez humana. Há, entre Speer e Niemeyer coincidência de propósitos, disso não tenhamos dúvidas. A arte do poder cultiva deste os tempos da velha Babilónia a monumentalidade, o grande, o eterno. Na era da insignificância - a era em que o poder trocou o mármore, a pedra granítica (ou o betão) pelas caixas de vidro - o poder passou para as mãos da gente das habilidades e do dinheiro. A arquitectura, hoje, está para a arte como o heavy metal para Mozart, como António Vieira para a Rebelo Pinto, como Visconti para as telenovelas.

05 dezembro 2012

A força do Rei está no coração do povo



Imagens sem a grandeza cénica exigida pelo protocolo, mas bem expressivas da unânime adesão de todos os extractos da população tailandesa à monarquia e à pessoa do Rei. Ontem, em todas as províncias deste grande país, cerradas colunas convergiram para as praças centrais das capitais regionais para celebrar os 85 anos do monarca. Trabalhadores fabris, camponeses, empresários, funcionários públicos, estudantes do ensino básico e universitário, escuteiros, muitas associações de carácter profissional, cultural, social e cívico formaram uma impressionante muralha humana em torno do trono. Em Bangkok, foram centenas de milhares os que dormiram ao relento para guardar um lugar. É evidente que tudo isto tem um significado que extravasa a circunstância e a geografia. A "globalização" plutocrática não passou na Tailândia, os modos e adamanes de certo capitalismo apátrida que rima com alienação, subjugação ao estrangeiro, perda da identidade, do patriotismo e da soberania, não conseguiu e não conseguirá passar sobre a alma colectiva de um povo orgulhoso da sua cultura. Felizmente para o antigo Sião, glosando Castoriadis, a era da insignificância aqui não assentou arraiais.
Como alguém um dia me disse, os inimigos da especificidade thai teriam de passar por cima de toda esta gente. Haja Deus !

66 anos ao serviço do povo e da nação

Esta manhã, Bangkok inteiramente vestida de amarelo - a cor da monarquia - para prestar tributo de admiração, fidelidade e amor à pessoa do Rei. As palavras e os exercícios de estilo rendem-se perante a grandeza da festa do povo no dia em que o primeiro servidor da nação celebra 85 anos de vida. Quando pedimos a restauração monárquica é no modelo tailandês que nos inspiramos: firmemente implantada nos corações e nas inteligências, acima das classes, das etnias, das religiões e dos partidos, agente de conciliação, protectora das liberdades, a um tempo progressiva e cultora das tradições e da identidade. O que somos nós, na nossa mísera pequenez republicana, perante a evidência destas imagens?

3.000.000 nas ruas de Bangkok para tributar amor e respeito ao Rei


Um verdadeiro plebiscito nas ruas na capital tailandesa. Nunca tão grande massa humana se unira para celebrar o aniversário de S.M. o Rei. As imagens que aqui reproduzo foram captadas pelas 9 da manhã no hospital onde o idoso monarca tem recebido cuidados médicos. Para os nossos (poucos) republicanos, as imagens são suficientemente elucidativas. 

02 dezembro 2012

O mito da Idade Média


Já aqui, por duas vezes, aludi a um pequeno ensaio da autoria de Umberto Eco intitulado A Nova Idade Média. Em meados da década de 1980, Eco diagnosticava certeiramente o processo de decomposição do Iluminismo, pressentindo o advento de uma nova era cujos primeiros passos balbuciantes lembram esse longo período a que erradamente designamos como "Idade Média". Eco não exibe qualquer parti-pris a respeito da chamada "Idade Média", pois, soberbo medievalista, sabe que a má vontade, tinta de hostilidade e arrogante ignorância que por aí se continua a debitar sobre esses gloriosos mil anos de existência da civilização Ocidental foi uma invenção das "luzes". Como sabem, a alusão a um medium tempus foi cunhada por Petrarca (um homem "medieval"), mas só passou ao jargão historiográfico em finais do século XVII como sinónimo de trevas, superstição, clericalismo e violência. Seria fastidioso proceder aqui ao enumerar de erros que fizeram o mito dessa "Idade Média". Romano Guardini deixou, nos anos 40, o Fim da Idade Moderna, ensaio filosófico que define com precisão as características do pensamento e visão do mundo "medievais", por oposição à modernidade. Em Guardini há o refutar dos mitos anti-"medievais" da modernidade. Mais, Guardini afirma que a Idade Média conseguiu um notável equilíbrio entre a autoridade (cultural, política, religiosa) e a liberdade.

A "Idade Média" a que aludiam Burkhardt e Michelet no século XIX nunca existiu; ou antes, foi construída como ideologia oposta ao "Renascimento" e movimentos que se lhe seguiram (racionalismo, iluminismo, liberalismo, marxismo, etc). A Idade Média - cedamos à convenção - foi a mãe da civilização Ocidental. A velha história da herança grega e latina não resiste à mais leve acareação. A Idade Média foi reformista, foi inovadora sem chamar pelo nome e deixou as grandes instituições e institutos que ainda hoje são cimento do que resta do Ocidente. Para isso, basta lermos a fascinante biblioteca que é a obra de Jacques le Goff para raspar os cascões do preconceito. A literatura, tal como a entendemos (e sobretudo o romance) é criação da "Idade Média". A Universidade, sede de saber, transmissão, formalização e polémica em torno do conhecimento, é uma invenção medieval. A arte, neta de Deus como lhe chamava Dante, muito embora o conceito só fosse estabelecido no século XIX, é também uma conquista medieval. Até o "capitalismo" - passando por cima do errado lugar-comum que afirma a oposição da Igreja à economia, ao dinheiro e ao lucro - nasceu do processo de legitimação do dinheiro, fenómeno que ganhou expressão a partir do "renascimento do século XII. Coube, também à Idade Média, a invenção do trabalho entendido como valor moral. Ou não foi a Idade Média a inventora de uma sociedade que repousava sobre a organização do trabalho, de que as corporações, as guildas, as comunas, as liberdades burguesas e concelhias, raíz daquilo a que se vulgarizou chamar de "democracia"?

Tenho adquirido ao longo dos anos o Lexikon des Mittelalters, enciclopédia de 9 volumes de que possuo os seis primeiros. Folheio-a ludicamente, como quem lê antes de dormir, sem qualquer preocupação outra senão o entretenimento. Não há dia em que não leia uma ou duas páginas, saltando entradas. Faço-o para praticar o alemão - a mais inteligente das línguas - e não há leitura  em que não me deixo de espantar com a pujança, a grandeza e a simpatia contaminante dos avós dos nossos avós, os medievais. A "Idade Média" é viciante, tão viciante para mim como a matéria do Sudeste-Asiático pré-contemporâneo, com a qual, aliás, se assemelha em variadíssimas perspectivas sobre o entendimento da vida. Como estou cansado da ganga "moderna", do linearismo e da chocarreira banalidade do mundo sem o véu do sagrado e das grandes interrogações ! Viva a Idade Média.

30 novembro 2012

"Vai muy bien gobernadita"


Antropologia peninsular. Uma horta, um camponês, um naco de jota aragonesa. Neo-realismo? Lutas sociais? Não, aqui era outra história. Imperdível.

29 novembro 2012

A "carta aberta" e outras tecnologias do passado


As cartas abertas tiveram o seu tempo. Faziam parte do horizonte tecnológico nos anos de ouro do jornalismo - entre finais do Oitocentos e os do advento da rádio - e confundiam-se com o mundo, nos termos em que os frequentadores das tertúlias e dos cafés da conspirata e da maledicência entendiam o mundo: uma centena de senhores bem-postos, umas dezenas de jornalistas à cata de fofocas, políticos em busca de lugar, uns miúdos em volta dos velhotes do reviralho aguardando um lugar na revolução que se esperava. As cartas abertas, hoje, há-as aos centos circulando com profusão de praga na internet. Há abaixo-assinados para tudo o que interessa e não interessa e não há dia em que no facebook ou no twitter não nos interpelam para deixar uma assinatura virtual. Em suma, cartas abertas e ácaros é o que não falta.

Tomei conhecimento da carta aberta que Soares, encabeçando um comboio de octogenários, enviou à Assembleia e ao presidente de Belém exigindo a demissão do Primeiro-Ministro. Mário Soares (88), Eduardo Lourenço (89), Júlio Pomar (87), Pires Veloso (86), mais uns amigos reformados (Bruto da Costa, 74; Siza Vieira, 78; Boaventura Sousa Santos, 70, João Cutileiro, 75) e uma lista interminável de gente independente, que nunca amesendou, que sempre repeliu a canga de um alfinete na lapela (Eduardo Ferro Rodrigues, Fernando Rosas), "teólogos" (Bento Domingues), "filósofos" (Barata Moura do fungagá), "artistas" (Abrunhosa e Tordo) e até o omnipresente Jojó papa-prémios, todos com exigências de diktat pedindo a cabeça de Passos Coelho. Vão-se despir, tenham vergonha, usufruam das reformas e deixem que outros, eleitos, amenizem os efeitos dos quarenta anos de regime de benefício e senhorialização que os abaixo-assinantes aplicaram ao país. Há dias em que não tenho paciência para compreender terapias ocupacionais, muito menos demências senis.

28 novembro 2012

A profanação do passado, génese do totalitarismo


Com quatro anos de atraso sobre a publicação, chegou-me finalmente às mãos o Livre Noire de la Révolution Française, tremendo juízo historiográfico sobre a mãe de todos os totalitarismos. Não se trata, bem entendido, de peça de propaganda, mas de obra colectiva de grande envergadura que conta com a colaboração da nata da academia francesa: Pierre Chaunu, Emmanuel Le Roy Ladurie, Xavier Martin, Jean Sévillia, Jean Tulard, Christophe Boutin. Quem não leu a Revolução Francesa, de Pierre Gaxotte, Le Terrorisme Révolutionnaire 1789-1799, de Bernard Lerat, Le Terrorisme Intellectuel, de Jean Sévilla, poderá persistir na ingénua opinião de pensar a Revolução como um bem manchado por erros e excessos. Contudo, lendo os autores que levaram à Revolução, aí encontra-se o pan in herbis dessa hacatombe, a ideologia homicida, o ódio à cultura que fazem a genética de todos os totalitarismos.
Foi com sobressalto e indignação que li o capítulo dedicado ao vandalismo revolucionário, essa guerra sem quartel que os governantes da Convenção votaram aos tesouros da memória do seu povo, num entusiasmo paranóico que não poupou abadias, mosteiros, palácios, bibliotecas, teatros. Entre estes feitos criminosos, que prepararam as matanças generalizadas que encheram a França de valas comuns, avulta a destruição metódica da Basílica de Saint Denis - um manifesto em pedra da arte gótica - alvo do ódio à história e à cultura. Saint Denis, o equivalente francês ao Escorial, era mais que o panteão das dinastias francesas, dos Merovingios aos Bourbons. Ali percorria-se um milénio de arte sacra que se confundia com a cristianização da Europa.

Em 31 de Julho de 1793, da tribuna da Convenção, Bertrand Barrere pedia em nome do Comité de Salvação Pública a destruição dos mausoléus reais em Saint-Denis . O deputado ganhou facilmente o apoio dos seus pares. A destruição ritual serviria para comemorar os eventos de 10 de Agosto de 1792, que haviam derrubado o trono. No dia seguinte, a Convenção Nacional decretava a imediata destruição dos "túmulos e mausoléus dos reis levantados na igreja de Saint-Denis, bem como em templos e outros lugares em toda a extensão da república", operação que devia terminar até um prazo de dez dias. A população não aderiu, pelo que foram criados grupos, coordenados por uma comissão mandatada pela Convenção para executar tal medida. A comissão foi entregue a um antigo beneditino, Germain Poirier, pedindo-se-lhe que procedesse à localização dos corpos das cinco dinastias dinastias presentes em Saint Denis.

Ao longo do mês de Outubro de 1793, dezenas de sepulturas de reis e rainhas, membros da família real, assim como as de nobres do reino foram profanados: a matança póstuma de Dagoberto, Hugo Capeto, Henrique IV, São Luís, Francisco I, Luís XIV, Isabel da Baviera, Maria de Médicis, Carlos Martel, de Constable Bertrand du Guesclin foram algumas das muitas vítimas sacrificiais de uma raiva revolucionária aparentemente irracional. Estes abusos continuaram com a exumação do Cardeal de Retz, 19 de novembro de 1793, de Margarida de Flandres, filha de Filipe V, 18 de janeiro de 1794.
Não foi, porém, um movimento espontâneo. Foi um crime metódico, legislado, pago pelo governo. Que diferença, pois, entre Pol Pot, a queima dos livros na Berlim de 1933, a dinamitação da catedral de Moscovo e a destruição de Saint Denis pelos comités revolucionários ? No próximo ano celebram-se 220 anos sobre esse acto de barbárie. É evidente que Hollande passará ao lado. Há coisas que não interessam aos baladeiros das mentiras reverenciadas. Em 1793, precisamente em Outubro, plantava-se a Árvore da Liberdade sobre a morte do passado. As tiranias só crescem entre gente privada de passado.


26 novembro 2012

Alter-história: 17 milhões de escravos castrados em nome de Alá

Para nossa segurança, a Espanha resistiu


É em momentos críticos que se revelam as patologias políticas e as soluções extremistas ganham respeitabilidade, sentimentos represados encontram voz e profetas, o impensável atreve-se e rompe com os lugares-comuns. É nas crises que os furiosos, os imoderados e os inacessíveis ao razonamento ganham adeptos e seguidores, como cegos badalando um sinete levando pela cana uma legião de cegos para o abismo.
Ainda ontem, havia quem sonhasse com o desmembramento da Espanha, uma Catalunha independente e, quem sabe, um País Basco, uma Galiza e umas Canárias independentes. Portugueses há que torceriam pela desagregação da unidade espanhola, ignorando ou querendo ignorar que uma península multipolar seria mais pobre, mais violenta e perigosa para o que resta da unidade portuguesa. É matéria de toda a evidência que desde 1668 - ano em que se firmou pelo tratado de Lisboa a paz entre a Espanha e Portugal - não há espaço na península ibérica para mais Estados. Uma Espanha "Estado-nação império", glosando a fórmula de Nial Fergusson, e um Portugal homogéneo que se fez  diferente pelo Estado, eis as únicas entidades com ossatura, memória e unidade de destino. Tudo o mais são regionalismos e localismos reinventados pelo romantismo e exorbitados pelo delírio das autonomias fictícias que tiveram o seu momento após a transição espanhola.
A Catalunha disse não a uma independência sem sentido, pois a Catalunha não é castelhana, mas espanhola e na história cultural de Espanha as letras, os políticos, os banqueiros, os industriais catalães sempre tiveram lugar de honra. Desta vez, a quixotada foi da burguesia catalã, inebriada com os tais 27000 Euros per capita que a aproximariam da Finlândia. Esquecem-se os catalães que sem a Espanha essa mirífica entidade não seria maior que a Bélgica, que os seus 5 milhões de habitantes igualariam os sicilianos em número, que uma Catalunha independente teria de discriminar 25% de população não catalã, que a pujança económica da região se deve à integração espanhola no mercado europeu e que as 500 empresas catalãs operando à escala global muito devem ao apoio e redes de influência da Espanha no mundo. Se tudo isso se desmoronasse, os catalães compreenderiam que, afinal, a Catalunha é mais forte no quadro da monarquia espanhola, hoje como há trezentos ou mais anos.

24 novembro 2012

O último aviso


O Príncipe Carlos - talvez o maior inimigo do chamado "progresso", do "desenvolvimento" e do "crescimento", bezerros de ouro da mitologia industrialista e da religião do lucro - deixa um tremendo aviso que deve ser ouvido. Ficam, pois, explicadas, as sucessivas campanhas difamatórias que lhe têm sido movidas pela plutocracia. Carlos faz lembrar, cada vez mais, o velho Konrad Lorenz nos seus Oito Pecados Mortais da Civilização. À beira do abismo, a voz de um Príncipe, representante de um passado verde, de agricultura biológica sem transgénicos, regimes alimentares sem hormonas, águas limpas, florestas reverenciadas, urbanismo à escala humana; em suma, a ideia medieval da natureza como um limite ao atrevimento destruidor do homem. 

22 novembro 2012

Alter-história:o pai de Magarila Machel, aliás Samora Machel, em 1973


Notícias da Beira, 31 de Outubro de 1973


"LOURENÇO MARQUES, 30 (Delega­ção) — «Meus olhos choram e meu coração fica triste quando o pessoal vem dizer o que meu filho faz», afirma, com voz em­baraçada, comandante Moisés Machel. 
A nossa, frente está um negro de feições duras, cabelos esbranquiçados, olhos perspicazes. Fato escuro, camisa cor-de-rosa, bem vestido. É praticante da Igreja Metodista Livre. Pesa as palavras, falando lenta e prudentemente. A nossa frente está o pai de Samora Machel, presidente do movimento anti-português (FRELIMO) (ou Frente de Libertação de Moçambique). À sua volta, reúne-se grande parte do clã, constituído por três mulheres (uma é a mãe de Samora), vários filhos, irmãos, sobrinhos. Ele não é só comandante de nome; é também o comandante de facto, no conjunto das cinco palhotas maticadas da sua terra.
«Nasci aqui mesmo, a 1 de Fevereiro de 1900. Esta terra, que era já dos meus pais, chamava-se Mananganine», refere papá Machel. Hoje aquela terra situa-se à entrada da Aldeia da Madragoa, onde vivem quase duas centenas de europeus, e que é o núcleo de povoamento mais progressivo do célebre Co­lonato do Limpopo, a duas cen­tenas de quilómetros de Lou­renço Marques.
«Esta é a mamã de Samora», apresenta o comandante. «Chama-se Gougnia Thema Zimba. É filha de Matonga, chefe do gru­po de povoações Zungula (já fa­lecido), da regedoria Canheze, aqui vizinha. Nasceu em 1902».
Thema Zimba, pequenina, tem uma cara prazenteira. Sor­ri. O cabelo branco tapado com o chapéu «beige» como usam as mulheres da Suazilândia.
E comandante Machel pros­segue: «Desta mulher tive 13 filhos. Nove morreram. Quatro estão vivos. O mais velho chama-se Josefate Moisés Machel. Enquanto trabalhou na garagem dos Oliveiras, em Chilunguine (Lourenço Marques), fez a quarta classe. Depois estudou mais. Hoje é lá enfermeiro, no Hospital Miguel Bombarda. O segundo filho chama-se Magarila Samora Machel. Fez a quar­ta classe na Missão Católica de S. Paulo de Messano, Bilene, do Distrito de Gaza. Depois mandaram-no estudar para a Ilha da Inhaca. Parece que fez o quarto ano do Liceu, enquanto aprendeu para enfermeiro. Em 1951, mais ou menos, empregou-se no Hospital Miguel Bombarda».
Interrompemos. Trata-se do chamado Samora Moisés Ma­chel, actual Presidente da FRELIMO ? O pai reafirma que seu nome verdadeiro é Magarila. Que ele optou pelo nome Sa­mora, porque assim era conhe­cido. Que também nasceu ali, naquela «sua» terra, a 11 de Maio de 1932, numa palhota on­de, mais ou menos, fica hoje o edifício da Administração. Que Magarila tem um filho de cer­ca de onze anos a estudar em Lourenço Marques.
Comandante Machel, sempre lentamente, fala ainda dos ou­tros irmãos de Samora: de Boa­ventura Moisés Machel, nascido em 1936, a trabalhar numa la­vandaria em Benoni (Transval, África do Sul); e de Enosse Or­lando Machel, nascido em 1939, electricista, a residir no Sul de Moçambique.
Perguntámos subitamente se sabem que Samora é viúvo. Não mostraram espanto, mas a mãe, Thema Zimba, comove-se e cho­ra com visível comoção. Fica­mos convencidos que, tal como ainda recentemente afirmou Feliciano Dimbeju (ex-FRELIMO regressado de Nairobi com o apoio da Cruz Vermelha In­ternacional), eles sabem que Samora mandou envenenar a mulher, Josina Mutemba.
O pai de Samora, porém, in­flexível, quebra o gelo da situa­ção, continuando a falar, embo­ra com palavras ainda mais mastigadas: «Ele visitou-nos, pe­la última vez, no Natal de 1961. Nada nos disse do que pensava fazer. Nunca nos disse nada, tal como nunca escreveu. Nesse Natal, eu fiz grande festa, aqui mesmo, na minha terra. Mais tarde soube que ele foi para «outra parte». E meus olhos cho­ram e meu coração fica triste quando as pessoas vêm dizer o que o meu filho faz. Porque eu não gosto, e a mamã também, que ele ande na «outra parte».
E mais adiante: «E usei que ele tem muitos inimigos, muito perigosos. Que esses inimigos são os camaradas dele, os macondes e outra gente do Norte. Querem matá-lo. E isso traz sempre o meu coração triste. E o meu coração ainda sofre mais, quando sei que ele também tem medo...»
«Como sabe isso, se não rece­be notícias?», interrompemos.
O comandante Machel sentiu-se apanhado. Hesitou pela única vez. Mas respondeu mui­to lentamente: «Eu sei disso porque conheço o Samora».
«Acha que Samora poderá ga­nhar a guerra? E, se ganhar, poderá ser um bom presidente de Moçambique?» — indagámos ainda.
«Samora tem muitos inimigos ao lado dele», responde. Nunca pode conquistar Moçambique, que é muito grande. Também nunca poderia ser o governa­dor, pois para isso é preciso es­tudar em muitos liceus, ter muito saber. E Samora é ape­nas um bom enfermeiro.»
O pai do Presidente da FRELIMO, velho agricultor, aceita um dos nossos cigarros. Começa a desenhar-se mais confiança no seu rosto, enquanto disparámos a máquina fotográfica, e falá­mos da sua gleba.
Tem vinte mil metros quadra­dos de terreno, irrigados e apoiados tecnicamente pelo Ga­binete do Limpopo, que integra o maior núcleo de povoamento de Moçambique, incluindo a ci­dade de Trigo de Morais, uma dúzia de aldeias com todos os requisitos, uma Cooperativa Agrícola com cinco fábricas transformadoras. A sua terra, outrora estéril, está hoje inte­grada num dos maiores planos de irrigação do Ultramar português (cerca de 80 mil hecta­res) que lhe permite ser, por exemplo, a maior produtora de arroz, tomate e luzerna de Mo­çambique. Desse plano faz par­te a barragem de Massingir, obra no montante de 590 mil contos, em adiantada fase de construção.
Comandante Samora fala: «O Governo tem trabalhado bem. E eu colaboro, até nas «banjas» (reuniões das autori­dades com as populações), quando é preciso. Mas agora pedi mais 40 mil metros qua­drados de terreno, porque só assim poderei expandir à vontade a minha casa. Porque o meu filho mais novo, aquele que ali está, tem quatro meses. E meu irmão, Tanquisso Gabriel, também precisa de mais quatro hectares».
Estávamos a poucas horas das eleições para deputados à As­sembleia Nacional. Perguntámos ao pai do Presidente da FRELlMO se iria votar pelo Governo que o filho combate. “Voto pelo Governo Português, porque fez da minha terra uma grande terra”, salienta com energia. «Na­da percebo das ideias do meu filho. Só desejo mais quatro hectares para aumentar a gle­ba. E Samora pode voltar, que muita alegria dará aos nossos corações. Não sabemos se as autoridades lhe fariam bem ou mal. Mas pelo que vemos em relação aos outros, haviam de o receber bem. E eu e mamã havíamos então de morrer feli­zes...».



Novembro, de Jaime Nogueira Pinto


De Jaime Nogueira Pinto saiu recentemente "Novembro", obra que tem a vantagem de se apresentar como sendo de ficção, libertando o autor da inibidora máscara académica, mas que substituiu a historiografia e o memorialismo proibidos numa terra em que a memória só pode ser de esquerda e a historiografia não se aparta da genuflexão perante os mitos inatacáveis. Nogueira Pinto reúne muitas e estimáveis qualidades. É inteligente, culto, tem veia literária e tem chama, para além de nunca ter deixado transparecer medo na defesa das suas convicções, coisa tão rara em Portugal como um dodó. Nogueira Pinto nunca foi anónimo nem recorreu ao conforto da cobardia de um nome literário ou de um pseudónimo.

Jaime Nogueira Pinto é a outra parte escondida da geração do Maio de 68. Entre nós, essa geração teve Nogueira Pinto, Marques Bessa, Vale Figueiredo e o saudoso Rodrigo Emílio, um grande poeta, tão grande que trataram de o exterminar das letras portuguesas. Acompanhei, desde os meus 16 ou 17 anos, a obra de Nogueira Pinto. Os seus editoriais na Futuro Presente justificavam qualquer número da revista, os seus Direita e as Direitas, Visto de Direita e o best-seller Introdução à Política (I, II e III), lembrando um aguerrido Dicionário Político do Ocidente de finais da década de 70, são importantes contributos para a recepção em Portugal das correntes de uma direita culta europeia. 

Há quem diga que o autor e a obra são imiscíveis, ou antes, que o autor é indiferente à obra e vice-versa. Não concordo, pois o timbre da obra identifica a sombra do autor ausente-presente. No que toca a Nogueira Pinto, à sua pessoa e carácter, destacam-se a lisura, o gabarito intelectual mas, sobretudo, o seu bom carácter. Num país onde se premeiam as "boas pessoas" com o ferrete da imbecilidade, Nogueira Pinto é "boa pessoa" e é inteligente. Para mais, parece não haver na figura um choque entre as convicções expostas, os mitos que o mobilizam, a formação e a obra. Este Novembro consagra uma estreia literária e confirma uma grande pluma. Vai ficar certamente como o grito de libertação de parte de uma geração que foi impedida de participar de corpo inteiro na vida colectiva, que foi perseguida, silenciada e exilada por defender uma certa ideia de um Portugal ultramarino, integrador, fraterno e não-racista. Esse Portugal foi morto pela estupidez e má-consciência de alguma esquerda, mas foi-o também pela idiotia de uma certa direita anti-tudo, mal formada, mesquinha e de mau carácter, que nunca foi portuguesa, sempre detestou a especificidade portuguesa e nunca abandonou as primeira leituras adolescentes de coisas terríveis que despontaram na Europa nos anos 30. 

20 novembro 2012

Triste apotegma

"O meu avô disse-me uma vez que havia dois tipos de pessoas: as que fazem o trabalho e as que ficam com os louvores. Ele disse-me para tentar ficar no primeiro grupo, pois há menos concorrência".

                                                                                                                                Indira Gandhi

Efeitos devastadores da ignorância


Obama acaba de destruir num ápice a reputação de Aung San Suu Kyi aos olhos dos birmaneses. Ao abraçá-la e beijá-la em público no decurso da visita que realiza a Myanmar, gesto localmente interpretado como indecente - no Sudeste-Asiático um beijo a uma mulher coloca-a na condição de meretriz - Obama exibiu a absoluta inépcia dos serviços de assessoria de protocolo da Secretaria de Estado, confirmando tudo quanto se deixara entrever nos explosivos ficheiros divulgados pela Wikileaks. Beijar alguém, tanto mais tratando-se de uma viúva, significa, tão só, que essa mulher não é merecedora de qualquer respeito, que está disponível e, também, um preliminar ao acto sexual. No Ocidente há quem exulte com estas torrentes de abraços e beijos. Obama foi mais longe. Por duas vezes colocou a mão na cintura e por duas vezes a mão pousou sobre os ombros da anfitriã. Na região, porém, basta consultar um reles do's and don'ts para viajantes para compreender tratar-se de  interditos.
Infelizmente, os americanos são tolos, são ignorantes e absolutamente insensíveis à cultura.Ouve-se habitualmente dizer que as generalizações são sempre perigosas. Discordo. Em ciências sociais trabalha-se sempre com regularidades estatísticas. Há comportamentos colectivos - isto é, que se repetem por padronização - e Obama não terá feito nem mais nem menos que outro qualquer americano. A América, o que resta do Ocidente, parece não ter competência para carregar as responsabilidades de uma potência global.

19 novembro 2012

A monomania do 13º e do 14º


Bagão Félix não se cala e insiste. Tenho-o por homem sensato e inteligente, mas quando alguém vive obcecado por algo que é contrário à razão e ao bom-sendo - no vertente, o economista passou a adventista  - aconselha-se um retirozinho e um pouco de amor-próprio. O demónio teima em ensandecer aqueles que quer ver perdidos.

Não à Constituição, pela revolução


Há dois anos, preparando um dos capítulos da minha dissertação, ao consultar a tratadística birmanesa sobre cosmologia e filosofia do Estado e da política - sobretudo os textos de Maung Maung Tin, académico de envergadura intelectual agigantada - deparei com surpreendentes analogias entre o pensamento tradicional budista theravada e a teoria da história europeia pré-revolucionária. Para os budistas, o progresso não existe nem pode existir, dado haver uma ordem sócio-cósmica que se aplica à natureza e ao homem - daí a existência de conhecimento - e, como tal. inalterável. Os europeus têm, desde o século XVIII, exorbitado a importância das rupturas e das perturbações, tomando-as como nucleares. Ora, as perturbações são, sempre, conjunturais. No pensamento pré-moderno, as convulsões indicavam doença no organismo, pelo que exigiam reformas, o que quer dizer cura, recuperação do equilíbrio, retorno à normalidade.
Em Portugal, esse retorno (essa "revolução" / revolutio, acto de re-volver) chamava pelo nome de Regeneração. Foi em nome da Regeneração que os homens de 1640 sacudiram a monarquia dual, foi em nome da Regeneração que os vintistas exigiram no preâmbulo à Constituição de 1822 o restabelecimento das leis fundamentais da monarquia, foi em nome da Regeneração que Dom Miguel voltou de Viena para devolver aos portugueses a Lusitana antiga liberdade.
Depois, caiu sobre Portugal o progressismo. Há uma clara distinção entre ser-se progressivo e progressista. O progressivo exprime continuidade, ajustamento ao tempo, recuperação da vitalidade perdida. O progressismo, por seu turno, implica alienação, criação ex-nihilo (a partir do nada), perigo, ruptura, engenharia, experimentalismo. Onde antes, na monarquia, havia empirismo da Constituição histórica fundada em leis produzidas pela necessidade, passou a haver essa coisa programática, normativa, limitadora, imobilista e cronofóbica que dá pelo nome de Constituição (de 1822, de 1826, de 1838, de 1911, de 1933, de 1976). 
Por alguma razão, o único país europeu que não tombou no progressismo - o Reino Unido, que não tem outra Constituição que a Constituição histórica - é o mais estável, adaptável e bem sucedido regime numa Europa assolada por revoluções, pela cultura da "indignação" e pela rabugice inconsequente. É tempo de, nós portugueses, voltarmos à tradição da revolução e das leis históricas. É tempo de voltarmos à monarquia.

18 novembro 2012

Na rua também se vota


Em 1908, para demonstrar que a maioria esmagadora do país estava com a Carta e com o legítimo governo do Rei, Lisboa saiu pacificamente à rua em defesa da normalidade e das liberdades políticas ameaçadas pelos grupos terroristas republicanos.

Desde que Portugal se começou a desconjuntar, ou seja, em 1820, que a violência tem sido aplicada com uma regularidade quase geracional, com o argumento de que as mudanças, a ocorrerem, só se podem produzir mediante ruptura. Seria ocioso enumerarmos a sucessão de acontecimentos que desde o século XIX ao presente exprimem essa constante adesão de minorias a soluções expeditas. Para os adeptos da violência como instrumento da acção política, o derramamento de sangue anula ipso facto a legitimidade de quem governa e o império das leis, justificando o momento excepcional. Há, latente ou expresso em alguns sectores da vida política portuguesa, um desprezo quase epidérmico pela crença básica da cultura e do método democrático (como do liberalismo) que se funda na aceitação da vontade da maioria como premissa para o consenso/ contrato social. Hoje, calcando resultados eleitorais que datam de há pouco mais de um ano, essa tentação putchista, esse desrespeito pela voz das urnas e da representação saída das eleições de 2011 assume proporções quase indecorosas. Há gente que só aceita a legalidade se tiver por si a maioria. Há gente que se considera democrática, conquanto os outros se lhes submetam. Os resultados de 2011 são trocados ao desbarato por sondagens, os deputados da maioria desrespeitados por comentadores pagos e sem qualquer mandato, o governo e os seus ministros permanentemente insultados por gente que nada é.
O governo parece não se ter dado conta que os seus adversários já passaram da acção parlamentar para o escrutínio das ruas. Seria interessante saber se as forças que apoiam a maioria estão dispostas a uma prova de força nas ruas e, assim, neutralizar uma escalada que poderá vir a justificar uma ruptura anti-democrática em nome da "vontade geral" de partidos e grupos, que juntos, não ultrapassam 1/5 do eleitorado.