31 dezembro 2011

O homem, actor do destino



Documento filmográfico surpreendente que coloca uma figura histórica em presença. Retirado de Franco, ese Hombre, 25 Años de Paz, com texto e locução de Blás Piñar, não é apenas uma mera peça de propaganda. Oferece o  inédito de um Chefe de Estado colocado no centro do palco da história, agindo sob instruções do realizador, como qualquer outro actor. O actor, então caudilho de Espanha, deixa de mandar, submete-se ao papel que lhe atribuiu o realizador, deus ex machina por antonomásia. O documentário, hoje considerado uma obra-prima do cinema documental, permite também outra leitura. Os estadistas aspiram à eternidade, mas sobre eles há forças que sobrelevam a sua capacidade, pelo que saber governar é compreender a transitoriedade e olhar sempre por cima, numa perspectiva transtemporal, a vida da comunidade sobre a qual exercem a sua missão. Franco compreendeu-o. Deixou à Espanha a Monarquia, síntese do passado, agente de unidade e força para o futuro. Outros não o souberam, infelizmente para nós, Portugueses.

O mundo de hoje é diferente. A democracia, a participação cidadã e as liberdades fazem parte do clima civilizacional do nosso tempo. Quem dela se apartar não pode, decididamente, participar na vida pública. Tal não implica, porém, que se subverta a essência pela aparência, que os interesses permanentes da nação se deixem alienar pelo amadorismo, pelas paixões ideológicas, pela incompetência atrevida e pelo improviso. A Europa precisa, de novo, de grandes estadistas - de direita, como de esquerda, pouco importa - homens de missão que se entreguem por uma vida ao pesado sacrifício. 

30 dezembro 2011

Marimbo-me para o "perigo amarelo"


Andam danados com o negócio com os chineses. Quem ? Quem esperava poder lucrar com o "negócio alemão" ? Quem não sabe que a Alemanha, dona do negócio, está a 2000 km de distância e nos trata como os "pretos da Europa", quando os chineses estão a 15000 km e têm por hábito não alimentar camarilhas coloniais ? O furor vem precisamente daí. Os alemães precisam de mainatos e colaboracionistas para fazer o que realmente interessa à estratégia de Berlim. Anda por aí tanto mufana a fazer trabalhos de cozinha para os alemães, tanto Quisling e tanto vassalo dos novos Reich Protektors. Nós sabemos como chegámos a este nadir de respeitabilidade, a este grau zero da soberania, mas para eles tanto importa.

Para além da manifesta má-fé das nossas elites ditas bem-pensantes, há um quase-estupor por se haver resolvido para sempre esse escandaloso monumento ao  empreguismo de amigos, familiares e protegidos que foi a EDP. Quem me dera - para mal do interminável cortejo de patetas que nem para arrumadores de cinema serviriam - que a receita se aplicasse à PT, à Caixa Geral, ao Metropolitano de Lisboa, à TAP, à Carris, à Estradas de Portugal, à EPUL, à Docapesca, à ANA, à CP.

Não há perigo amarelo coisa alguma.Há, sim, um claro perigo alemão e um perigo europeu que foi crescendo na proporção da inépcia de quase quarenta anos de governos irresponsáveis que alienaram e nos deixaram na miserável situação em que nos encontramos. O perigo amarelo é um mito, um mito distante, um topos de literatice oitocentesca. O verdadeiro perigo está cá dentro, come-nos por dentro, vende-nos hora-a-hora, enriqueceu e transformou a sociedade portuguesa numa caricatura de futebóis, negociatas ordinárias, favores, socialites de gente vinda do nada - quem nem à mesa sabe comer - que nos empobreceu e agora, incapaz de resolver os problemas que adubou, se quer converter à viva força na elite provincial e marginal de um império sem cérebro entregue ao arbítrio de merceeiros.

Por que raio me meto em questões destas ? Eu nunca vivi de expedientes, a política não me interessa. Vejo que andam por aí os habituais sabichões das psicologias colectivas e das antropologias a escrever pérolas sobre a venalidade dos chineses, a ganância dos amarelos, o cinismo dos mongólicos, a dissimulação dos amarelos. Estranho, pois, ao longo da vida, as pessoas mais correctas, afáveis, amigas, leais e trabalhadoras que conheci eram amarelas. Aprende-se todos os dias !

29 dezembro 2011

O meu ano de 2011 terá 18 meses


O ano é uma convenção. Se me perguntassem quando começou 2011, diria que foi em Outubro do V. ano de 2010, quando iniciei a redacção da minha dissertação conducente às provas de doutoramento. 2011 terminará, pois, em Março ou Abril de 2012, quando entregar ao meu orientador o texto final de 500 páginas, 3500 horas de escrita e centenas de noites passadas em branco debruçado sobre papéis. Em Fevereiro de 2011, ou seja, o 4º mês desse ano extenso, apresentei em Bangkok um pequeno livrinho sobre o Tratado Luso-Siamês de 1820, texto que me permitiu afinar o processo de escrita e depuração da talha dourada da literatice vã. Coube ao Professor António Vasconcelos de Saldanha a árdua tarefa de me disciplinar, coisa que o fez com a máxima autoridade. Só não aprende quem não sabe obedecer e o poder esclarecido tem a vantagem de deixar semente e exemplo. No 14º mês de 2011 - que os leitores conhecem por Dezembro de 2011 - inaugurou-se na Biblioteca Nacional a exposição Das Partes do Sião, para a qual trabalhei como Comissário-adjunto do meu orientador Vasconcelos de Saldanha. Sessenta dias (e noites) redigindo o livro, catalogando, anotando, comparando, lendo e relendo aquele que - perdoem-nos a imodéstia - ficará como o melhor breviário - para o público geral, como para os investigadores - sobre as mais antigas relações entre Portugal e um Estado asiático.As pessoas gostam de criticar. Aliás, em Portugal, como um dia disse Adriano Moreira, "há pessoas que trabalham e outras que se limitam a colar rótulos". No fundo, no mundo, desde que o há, os homens dividem-se entre aqueles que acrescentam e aqueles que subtraem. No que às comemorações dos 500 anos respeita, demos o que podíamos e o que não podíamos: militância, paciência, estudo. Palavras, leva-as o vento e neste particular, salvámos a honra do convento.


É assim. Quando a vontade não verga, quando há algo que se deve fazer por honra para não se perder a face, tudo se consegue. 2011 tem sido um ano longo e sofrido, mas valeu as penas e sacrifícios. Gostaria que os meus concidadãos aprendessem a ética do sacrifício, do cumprimento da palavra dada, fossem menos ociosos, menos palavrosos e, sobretudo, mais consequentes.

28 dezembro 2011

Atracção irresistível pela fórmula monárquica ou porque as ditaduras macaqueiam a realeza



Estranho que os nossos caros confradres esquerdistas do Jugular e do 5 Dias não se tenham pronunciado ainda sobre o relevante lugar atribuído pelo regime norte-coreano aos falecidos Grande Líder e Querido Líder na história do movimento comunista mundial - considerados sobre-humanos e cujos recitativos biográficos se transformaram em hagiologias - como não façam qualquer exercício de reflexão em torno da elaborada cenografia que rodeia as exéquias, nem se dignem emitir opinião sobre uma teoria do poder cujo mecanismo de transmissão e legitimação se processa por herança familiar.

Para aqueles que sofrem de acessos de liberalismo infantil - doença que está para a direita como o esquerdismo para o comunismo - o poder deve repousar nas mãos de banqueiros. É só. É elemento de toda a evidência que o poder, para os adoradores do dinheiro e dos negócios, serve apenas para fazer "mercado"; logo, tratando-se de "negócio", a transitoriedade da liderança não deve instigar manifestações de afecto. O grave no superficialismo de alguns liberais é a manifesta incapacidade para sondarem o que de mais importante existe no jogo político e na posse do poder. Desconhecem, ou querem deixar de parte, o mistério da vontade de poder e a dimensão religiosa de qualquer concepção política. O comunismo, contraditoriamente, fê-lo e teve quase um século para montar o cenário psicológico que agora atingiu proporções finais na Coreia do Norte.

As cascatas de lágrimas de Pyongyang podem ser vistas como magnífica encenação e carpideirismo, mas são, sejamos mais sérios, documento único para os estudo e compreensão da dimensão sagrada existente em todas as formas de governo, mesmo aquelas que arrogantemente se dispuseram eliminar a religião, substituindo-a pela Utopia do paraíso para cá da morte. 
Triunfante fica, pois, a ideia monárquica segundo a qual o Rei não é dono nem Deus, mas também não é negociante, mas sim, natural e humildemente, o rosto humano da comunidade.

PS. Confesso que recebi com perplexidade exaltadas manifestações [epidérmicas] - algumas publicadas, outras cujo nível me obrigam a censurar - que evidenciam incapacidade de pensar os problemas de forma "académica", ou seja, despidos de qualquer "pistis". Este não é um blogue-seita, nem visa cruzadas; não é, decididamente, como os livrinhos da Anita.

26 dezembro 2011

O mar pertence aos Protukét

Herdeiros de uma tradição de cinco séculos, os Protukét do Sião continuam a marcar presença na sociedade tailandesa, ocupando funções que foram dos seus pais e avós no exército, na marinha, na diplomacia e na administração pública. O Comandante de Fragata Ing Saravut Dias, chefe da comunidade católica de Bangkok, director dos estaleiros navais da Marinha Real Tailandesa e credenciado engenheiro naval, lançou ao mar mais uma vedeta de intercepção de alto-mar, a T994, inteiramente concebida pelo seu gabinete de projectos. É tempo de Portugal pensar seriamente a necessidade de restabelecer relações - culturais, comerciais, científicas, tecnológicas e militares - com a Tailândia, país onde subsiste a última grande comunidade de ascendência portuguesa no Sudeste-Asiático. É tempo de procurarmos saídas para o atoleiro europeu e voltarmos, de novo, ao mar.

25 dezembro 2011

Obituário na quadra natalícia: Joahannes Heersters (1903-2011)


Contemporâneo de Marlene Dietrich, Brigitte Helm e Leni Rienfensthal, amigo de Franz Lehár e actor preferido de Hitler, Joahannes Heersters atravessou as tempestades do século XX europeu sobre os palcos ou sob os holofotes dos estúdios da velha UFA - do mudo à era da televisão - falecendo aos 108 anos de idade com o palmarés do mais velho actor no activo. Estrela do musicall da Europa de língua alemã, o holandês sobreviveu às tormentas da guerra e da polémica e transformou-se no fóssil vivo de uma Europa há muito desaparecida, sempre rodeado por vénias e aplausos, mas perseguido pelo síndroma "Leni Riefensthal". Um caso raro de longevidade e sucesso em tempo de descartáveis, lembrando que o talento, a perseverança e o trabalho tudo sobrelevam.
 
Ich werde jede Nacht von Ihnen traumen