23 dezembro 2011

O que está para além da biologia

Hisahito, futuro Imperador do Japão

O tempo passa, os homens envelhecem e a biologia faz o seu curso. Nas monarquias, os reis são eleitos todos os dias e em vez das urnas [dos votos como do luto] pulsa no coração da nação e do povo a unidade que não se discute, a liberdade que não se se questiona. Akihito prepara-se para o momento em que fechará os olhos. O Trono do Crisântemo será um dia ocupado por Hisahito, 126º de uma linha ininterrupta de imperadores. No Imperador está toda a história, toda a literatura, o teatro, a música, as artes, a língua, as instituições  de um povo. Sem eles, não há cultura, mas modas; sem eles, não há história - que é a de ontem, de hoje e de amanhã - mas apenas momentos. A monarquia é, para as sociedades e para os homens, o que a religião representa para o espírito e o pensamento para a inteligência. Só quem não compreende isto se atreve insurgir contra a necessidade biológica, social, cultural e espiritual da Restauração.

22 dezembro 2011

Portugal kim-il-sunguista ou "foi aqui que o dótór Pouco se sentou"

Rimo-nos como bijagós da ausência do sentido do ridículo nos outros, mas nesta terra povoada por descendentes de celtiberos, berberes e marranos - sempre governada a knut, sempre pronta a abocanhar a imprevidente mão do tratador - passam-se coisas espantosas - diria democrática e abrilinamente fascinantes - que deixariam de boca à banda Wells, Orwell, Virgil Gheorghiu ou Kafka. Muitos de nós têm o privilégio de, ao longo da vida de trabalho terem passado por situações horripilantes, pagando gota-a-gota o preço dessa estúpida liberdade que tão grandes amargos traz.

Lembro-me de um amigo que há anos, após dez anos de serviço numa universidadezeca - daquelas poligrupo que fizeram a fortuna de ex-sacristães e cavadores de batatas - ter sido convidado para uma reunião de urgência convocada pelo auto-proclamado reitor da mercearia de diplomas. A vítima ingénua acabara de oferecer à dita drogaria uma biblioteca que cumpria todos os requisitos exigidos pelos inspectores do ministério; formara pessoal, estabelecera política de aquisições e o cardex de assinaturas, construíra o catálogo em-linha, fizera um pouco de tudo - catalogação, indexação - sem qualquer respeito por horários, sábados, feriados, serões e noitadas caseiras. Ora, biblioteca terminada, os donos do negócio de diplomas arranjaram uma marmanja, nomearam-na bibliotecária sem lhe darem conhecimento, concederam-lhe o louvor público e puseram-no a andar.

Dias depois, a drogaria fez parecida ao desditoso amigo. Anos antes, andava por aí uma revoada de bibliotequice - todos queriam arranjar cabidela na rede de leitura pública - e pediram-lhe que ali montasse uma banca que vendesse a pataco cursos de pós-graduação em "ciências documentais". Como bibliotecário encartado, fê-lo. No terceiro ano de existência, o curso era o mais procurado pela clientela. Rendia bons cabedais, estava em franca expansão. Feito o trabalho do mouro, o lugar de direcção foi transaccionado a um tolo - homem que mal sabia assinar o nome - e o meu conhecido defenestrado.

Também conheço alguém (Mister X) que um dia se atreveu concorrer a um desses concursos ditos públicos destinados, creio, à provisão de lugar de chefia de divisão ou de direcção de serviços. Teve o infortúnio de ganhar, pois o lugar estava há muito prometido a um amigo - corrijo, um ex-camarada de partido - do presidente da instituição. A criatura passara semanas em visitas inopinadas aos seus futuros subordinados, dando-lhes lições, fazendo reparos, apresentando o grandioso plano dos amanhãs ridentes que os esperavam. Quando o resultado do concurso foi conhecido, um terremoto. O fulano que já era dirigente antes do concurso fora preterido por Mister X. Ora, aí começou um calvário que se arrastou por anos: mobbing, reuniões marcadas pela direcção sem que fosse convidado, subordinados instruídos para não frequentarem o gabinete da vítima, desprezo, silêncio, intriga e difamação. Um dia, resolveu mudar de ares, trocando a atmosfera viciada em que vivera por uma longa deslocação ao estrangeiro, de onde voltou com formação de topo no percurso académico. Ao apresentar-se, mandaram-no para um local gélido e fora-de-portas, onde vegetou submetido a uma capataz desmiolada que recebera instruções para o tratar como Mengele não tratava as suas cobaias. Assim, um fulano com obra publicada, falando fluentemente cinco línguas e longa experiência profissional, recebeu como tarefas quotidianas as de receber as malas das visitas, limpar o pó e carregar cadeiras. Ali encontrou uma antiga colega, que julgava morta, pois desaparecera sem rasto anos anos. A colega disse-lhe, como o Abade Faria a Edmont Dantès, que caíra na masmorra dos esquecidos por se haver atrevido levantar uma ténue objecção ao seu director-geral, um desses dótores Poucos que ao longo das últimas décadas se apossaram, uma a uma, das instituições deste que outrora foi um país. Soube, há pouco, que se abriram as portas dos calabouços da Junqueira após a última viradeira eleitoral e que os mortos regressaram à vida. Nós também temos, aqui dentro de portas, mil e um casos de kim-il-sunguismo. 

Um Kim Jong Il quase pacato


O esquematismo e a paixão toldam as pessoas mais razoáveis. A visão norte-americana empobreceu de forma dramática a análise das relações internacionais, forçando o alinhamento contra-natura entre o discurso de ficção gore e a decisão estratégica. Ao longo das últimas duas décadas perdeu-se, decididamente, essa elementar faculdade de análise ponderada que torna possível a abordagem compreensiva às realidades do mundo. Quem perdeu foi o Ocidente, que reduziu a caricatura grotesca tudo o que se lhe opusesse. Nunca como hoje, para nosso mal, o Ocidente esteve tão mal informado e tão incapacitado para compreender a complexidade do mundo. Incapacitado de compreender, rodeou-se de fantasmas - o "eixo do mal", "as armas de destruição massiva", "os hediondos ditadores", "o terrorismo" - que requerem cruzadas cósmicas cujo resultado é por todos conhecido.
A Coreia do Norte - assim como a Síria e o Irão - fazem as delícias do esquematismo e sobre tenebrosos recitativos de quase science fiction se vão acrescentando histórias a estórias, ao ponto de se exigir que a abordagem académica séria só seja aceite conquanto incluir adjectivação condenatória.
Ao seguir a reportagem de Kim Jong Il - fora do cenário da grande praça de Pyongyang - assalta-nos em doses iguais o ridículo de um pequeno homem rodeado de atenções que distribuiu casas (com papel higiénico e fósforos e tudo) aos aparatchik e aquilo que supomos estar por detrás do regime. É esta elementar dose de subtileza que se exige. Aquele regime deve ser pavoroso, é grotesco, o culto da personalidade que instituiu ultrapassa as mais delirantes distopias, mas não pode viver contra a vontade de toda a gente. Não haverá espaços de felicidade genuína ? É tudo propaganda ? É tudo encenado ? Se assim é, como pode um país a morrer à fome suportar o intolerável jugo de facínoras ao longo de quase setenta anos ? Que mistério é esse ?
A Coreia do Norte vive no nosso tempo uma utopia totalitária à 1930, um modelo congelado que subsiste, mas que não é - não as há - uma máquina do tempo. O medo que nos inspira advém simplesmente do facto de se apresentar como uma possibilidade alternativa ao nosso mundo, à nossa maneira de viver, às nossas aspirações e valores. Imagine-se o Camboja de Pol Pot se este não tivesse caído em 1979 e o seu jugo se tivesse prolongado por décadas até aos dias de hoje. A visão de cidades desertas de gente, na acepção de pessoas, tal como as entendemos, enche-nos de medo. Tudo o que rodeia a Coreia do Norte acciona medos e automatiza o estupor. Porém, o totalitarismo, ao invés de ter os dias contados, pode ter um futuro promissor. Há quem diga que o mundo, ao invés de marchar para aquilo a que chamamos de liberdade, poder aproximar-se lentamente de formas mais ou menos explícitas de totalitarismo. Aliás, nunca como hoje, foi tão grande o arsenal de meios de condicionamento e manipulação. Há quem se atreva perguntar se, também nós, não estaremos já a viver uma forma benigna de totalitarismo mascarado.

20 dezembro 2011

Delagoa Bay: viagem ao princípio da memória

Um surpreendente blogue de Manuel Botelho de Mello que nos conta a história de Moçambique, dos velhos dourados dias às tragédias que calamos. Surpreendido, também, por ali encontrar os meus familiares.Um Portugal que acabou. Nós também tivemos a nossa Shoah !

Os meus avós maternos, 1931

Tias-avós, anos 40

Bisavó paterna, anos 40

Felizmente não existo


Júris, votações e concursos já pouco me dizem, pois de experiência própria há muito abandonei a cândida ilusão de viver entre gente honesta, inacessível à corrupção, ao favor imerecido e ao mais estreito tribalismo. Num país dominado por pequenas panelinhas e onde, do porteiro ao presidente, tudo está arranjado, não é de espantar que até na blogosfera o grupismo, o comensalismo e a pernada se substituam à emulação da pena. Leio de quando em vez blogues - há coisas bem mais importantes sob o sol - e ainda me espanto com a mediocridade, o analfabetismo, por vezes roncante, outras vezes afectado, dos candidatos a tribunos da plebe, da burguesia da "direita social" e até da estupidez inteligente da intelectualite.
O Combate de Blogues, coisa inventada para dar cabidela a candidatos ao opiniarismo à Marcelo, à Medina Carreira ou à Sousa Tavares - sem graça e com atrevimentos acnosos de adolescente - esquece-se de blogues de ideias, onde diariamente se exercitam a graça culta, a provocação inteligente, se formam e informam leitores. Esses não interessam. O que importa é copiar a Lusa ou a triste crónica da politiquice trampolineira de S. Bento. 
Vivemos num tempo medíocre, de medíocres e para medíocres.

Tribunal Criminal Internacional para governantes iranianos


Reza Pahlavi, anteontem.

19 dezembro 2011

18 dezembro 2011

Goa, 1961: aqueles que souberam morrer e aqueles que não os seguiram


José Manuel Catalão Oliveira e Carmo, o último herói da Índia

Faz hoje 50 anos que a Índia, abjurando a sua propalada não-violência, invadiu o Estado Português da Índia. Um acto injustificável à luz do Direito Internacional, devidamente sancionado pelo Tribunal de Haia, lembrando aos ingénuos que o direito da força raramente se submete à força do Direito e que a moral que rege o comportamento dos Estados é coisa que a polemologia arruma no canto extremo e invisível da prateleira da vontade de poder.
A Índia Portuguesa era, desde o século XVI, a mais apurada expressão da presença de Portugal no mundo. Não era uma colónia, mas um Estado; os seus habitantes não eram nem colonos nem colonizados: eram cidadãos de pleno direito e os seus filhos, nos tempos de glória como nos do ocaso estiveram presentes em todos os actos marcantes da vida portuguesa: nas letras e nas artes, na ciência, no ensino, na administração, na missionação ou ao serviço de Marte.
Em Goa estava a sede do Padroado Português, como repousa ainda, no sarcófago de prata o Apóstolo das Índias. Os Vice-Reis e, depois, os Governadores-Gerais, confirmavam a investidura recebendo da imagem de S. Francisco Xavier o bastão de comando. A Índia Portuguesa era, contrariando a lenda negra e a novena de mantras da propaganda, um dos mais progressivos rincões do sub-continente indiano.
"De facto, quem percorre a Índia Britânica e, pondo de lado meia dúzia de cidades modernas, se interne nos centros nativos, nas populações rurais, chega necessariamente a esta conclusão: a Índia está hoje no mesmo estado de há mil anos! As aldeias, o povo, a mentalidade, os usos, os costumes continuam na mesma. Falta a higiene, a pior das misérias, atraso, ao passo que as nossas aldeias respiram certo bem-estar e o nosso povo vive uma vida incomparavelmente superior, sob todos os aspectos, à da população nativa da Índia inglesa"(1).
A actividade cultural que se desenvolvia em língua portuguesa na Índia britânica era motivo de grande orgulho e a animação tocava a investigação histórica, a crónica política e até produção literária e ensaística. O Investigador Portuguez em Bombaim, nos anos da década de 1830, O Echo de Bombaim, editado por uma Press Mercantil na década de 1860, deram corpo à necessidade de criar centros destinados a públicos mais exigentes e cultos. Assim nasceram o Instituto de Educação Portuguesa (1855) e em 1902, o Real Instituto Luso-Indiano. Os mais de vinte mil indo-portugueses recenseados em Bombaim em 1881 eram vinte cinco mil em 1915 e na véspera da Segunda Guerra abeirava-se a comunidade da meia centena de milhar. Em Bombaim, grande metrópole do Índico, na mudança do século XIX para o século XX havia 341 clubes goeses, com catorze mil associados, dos quais mil e quatrocentos eram homens ligados a actividades do mar. Para eles havia tipografias editando em português, escolas e igrejas. Um jornal em língua inglesa - Our Nation - gozava de grande autoridade e as paróquias editavam profusamente livros, folhetos, jornais e pagelas. A proeminência deste grupo não se prendia, apenas, com a inclinação para as humanidades e para as ciências jurídicas. Um dos mais afamados médicos-cirurgiões oftalmologistas no Império britânico era o Dr. Acácio da Gama (1845-1902). Nascido em Goa, formara-se no Medical College e na Universidade de Bombaim. A sua entrega aos mais pobres e o trabalho que desenvolveu nos bairros católicos valeram-lhe a outorga pelo Rei de Portugal do colar da Ordem de Cristo e eleição para a direcção da selectiva British Medical Association. Portugal na Índia era, indiscutivelmente, um caso de sucesso.
Depois, vieram os "ventos da história", crença que fez escola e não passa disso mesmo, de uma crença. Portugal tinha de sair, mesmo que saísse contra a vontade da população que era portuguesa e portuguesa queria permanecer. A prová-lo, o facto de após a invasão, abandonando as suas casas, haveres, laços, empregos e a terra onde haviam nascido os pais dos seus avós, trinta mil indo-portugueses se terem recusado ficar em terra onde ondulava outra bandeira que não a portuguesa. A saída dos indo-portugueses foi um referendo com os pés ao abuso e à arbitrariedade da invasão.
As ordens que vieram de Lisboa eram precisas. Sair, só empurrados. Os militares, mais que os paisanos, compreendem ou devem compreender o que significa o sacrifício derradeiro que lhes exige a carreira que voluntariamente abraçaram. Oliveira e Carmo compreendeu-o. Sacrificou-se pela honra e foi militar. Os outros, aqueles que pensaram quando não deviam pensar, que não cumpriram quando deviam cumprir, que partiram as espadas quando as deviam empunhar, que deitaram ao chão a bandeira quando a deviam levantar bem alto; esses, não foram militares. Há quem pense, erradamente, que os actos inúteis devem ser evitados. Errado, o acto inútil pode assumir transcendente significado. No caso de Goa, a Índia portou-se miseravelmente, Oliveira e Carmo cumpriu e não vacilou, como não vacilaram os goeses portugueses que deixaram tudo para serem dignos da sua condição de cidadãos - que reclamam direitos, mas têm deveres - e os outros, aqueles que se renderam à lógica, os pragmáticos que racionalizam, os homens dos afectos e da lágrima sentimentalóide, esses perderam. É tudo.

(1) Relatório do Patriarca de Goa, D. José da Costa Nunes, para o Governador-Geral da Índia Portuguesa, 1943, in Presença de Portugal mo mundo, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1982, p. 476.