17 dezembro 2011

Pródromos da nossa desgraça: Jó-Jó Papa-Prémios no tempo do comuno-terrorismo


Antes do spa da SPA, a barba de três dias, quando do PC ainda pingava e o PS era "reacção a abater". Caminhos de uma geração que nos trouxe à boca da fome.

16 dezembro 2011

Pétain: 60 anos depois


Pétain em Paris, em Abril de 1944



A amnésia voluntária, o cinismo, o mascaramento e a manipulação da verdade histórica são instrumentos do exercício do poder e da luta política. Contudo, se impostos como limite ao conhecimento e dogmaticamente se substituem às fontes da verdade, transformam a historiografia numa pseudo-ciência ou, pior, em mera propaganda. A França comemorou este ano, de forma discreta mas não isenta de debate, 60 anos sobre o passamento do Marechal de França Filipe Pétain.

A figura do velho cabo de guerra, o único grande militar gaulês do século XX, vencedor de Verdun e salvador da França, surge envolta em mistério. A França reivindicou quinhão relevante da vitória de 1918 graças a Pétain. Contudo, em 1945, condenou-o à indignidade civil, retirou-lhe todos os direitos de cidadania, confinando-o a uma cela, onde morreria nonagenário e marcado com o ferrete de traidor. Terá sido ?

Não, Pétain ascendeu à chefia do Estado através dos mecanismos extraordinários inscritos na Constituição da III República. Em Julho de 1940, recebeu da Assembleia Nacional e do Senado - em votação absolutamente democrática na qual participaram quase todos os representantes do povo francês - 87% dos votos que decidiram a sua elevação à chefia do Estado, conferindo-lhe plenos poderes para negociar com os alemães um tratado de paz, que Hitler nunca quis discutir. Apoiaram-no deputados do SFIO (socialistas), da Gauche Démocratique (radicais socialistas), da Federação Republicana, do Partido Comunista, da União Democrática, do Partido de Unidade Proletária, dos Republicanos Independentes.

O Apelo de 18 de Julho, feito por de Gaulle a partir de Londres, não foi, decididamente ouvido nem pelos representantes do povo francês, nem pela maioria da população. Há um grande mito em torno do apelo do quase desconhecido de Gaulle, texto mítico que foi sucessivamente alterado, como também mítica foi a liderança daquele a que os americanos chamavam de "candidato dos ingleses a ditador da França".

A atestar a legitimidade reconhecida do regime dito de Vichy, o facto deste haver mantido relações diplomáticas normais com a URSS até 1941, dos EUA terem mantido embaixador junto do governo de Pétain até Outubro de 1942, assim como o Canadá (Novembro de 1942) e a Austrália (1944). A luta dos "Franceses Livres"(de Gaulle) com a "França Livre" (Pétain) surgia claramente aos olhos da diplomacia internacional como uma guerra civil e não como um capítulo da guerra global.

Depois, a popularidade. Para a maioria dos franceses, Pétain era por antonomásia o nome do orgulho francês. Até aos últimos dias da sua presença na chefia do Estado, recebeu os maiores banhos de multidão de que há memória na história francesa contemporânea. Foi uma força teimosa que se opôs aos ultras fascistas da colaboração rastejante, foi um dique aos abusos dos alemães, deu alento e esperança quando não havia vislumbre de futuro numa Europa que Hitler queria sem voz e sujeita à bota alemã. Pétain foi ainda mais: percebeu que a vitória de qualquer dos beligerantes (dos Aliados como do Eixo) ofereceria condições para o colapso da Europa, com vantagem para o comunismo (URSS) e para os EUA, dois poderes exteriores à Europa. A sua atitude surgia, de manifesto, muito próxima da de Salazar: no conflito entre a Alemanha e a Grã-Bretanha eram neutrais; no conflito entre soviéticos e alemães preferiam a vitória alemã e no Extremo Oriente eram claramente favoráveis aos Aliados.

O processo de Pétain e os enxovalhos a que o submeteram parece não terem tido grande efeito junto dos franceses. Quando, alquebrado e surdo, entrava na sala do tribunal onde decorria a abjecta farsa legal, as pessoas levantavam-se, os policias prestavam-lhe continência e na rua pessoas choravam de indignação e revolta. Pétain foi o bode expiatório, mas foi, sobretudo, a moeda de troca de de Gaulle no conflituoso entendimento que este teve de selar com os comunistas; o herói trocado pelo falso herói nos arranjos conducentes à França do pós-guerra. O velho senhor transpirava respeitabilidade por todos os poros; o novo dono da vida francesa, esse, traiu tudo e todos e foi, de facto, o coveiro da grandeza francesa.

14 dezembro 2011

Luso-thais evocam passado

Foi na passada quarta-feira, na paróquia da Imaculada Conceição de Bangkok. A comunidade luso-descendente de Bangkok prestou tributo aos seus mortos, depondo no cemitério de Sam Sen uma coroa de flores ostentando as bandeiras portuguesa e tailandesa. As cerimónias foram cuidadosamente preparadas e animadas pelo chefe da comunidade, o Comandante Saravut Wongngernyuang Dias, Director-Geral dos estaleiros e doca da Marinha Real Tailandesa, em cujas veias corre o sangue de doze gerações de Protukét luso-thais.

Seguiu-se procissão pelas ruas de um dos últimos bandéis portugueses existentes na Ásia. Uma missa solene de graças encheu por completo o recinto fronteiro à igreja e foi rezada missa presidida pelo Bispo de Bangkok. É tempo de, nas Necessidades, alguém se interessar pela defesa de Portugal no Sião e garantir a esta população fidelíssima o apoio logístico mínimo para se preserve no Sudeste-Asiático a ideia de um Portugal para além dos mares e das fronteiras. Faz falta um professor primário de língua portuguesa que ensine às crianças o nosso idioma; faz falta uma aula semanal de história e cultura portuguesa; faz falta, quiçá, um jovem missionário ou uma religiosa que trabalhe nas duas escolas primárias da paróquia. Faz falta, isso sim, um pingo de respeito por aqueles que, longe, se sentem portugueses.

13 dezembro 2011

Amanhã, 4º feira, Das Partes do Sião na Antena 2 da RDP

Amanhã, entre as 9 e as 10 da manhã na Antena 2 da RDP, programa dedicado à exposição Das Partes do Sião, agora patente na Biblioteca Nacional. Para os interessados informa-se que todas as sextas-feiras, entre as 16 e as 17 horas, terão lugar visitas guiadas, sujeitas a marcação prévia através do email rel_publicas@bnportugal.pt ou telefonema para Relações Públicas da BNP.

11 dezembro 2011

Descoberta a maior colecção portuguesa de fotografias sobre o Sião

Foi há uma semana. Dávamos os últimos retoques na exposição Das Partes do Sião, quando recebi um telefonema da minha irmã Ângela Camila: "Miguel, estás sentado ? Acho que descobrimos o El Dorado da fotografia portuguesa no Sião". Lá fomos em correria ver o achado, discutir o negócio e arranjar os cabedais para adquirir o tesouro. E que tesouro ! Cinquenta albuminas, de 1860 a 1905, assinadas por Francisco Chit e Joaquim António, dois "artistas de luz" que marcaram profundamente a história da fotografia no Sudeste-Asiático e integram hoje qualquer trabalho sobre a história contemporânea daquela região do planeta.
De cortar a respiração: fotos de estúdio, com os reis, os príncipes, os governadores de Macau de visita a Bangkok, os cônsules de Portugal, os membros da comunidade portuguesa na capital do Sião, os protegidos chineses registados na legação, vistas de Bangkok, dos seus templos e palácios; um eloquente desfilar de grandes mortos, pequenos protagonistas e ilustres desconhecidos. Fotos anotadas a lápis no verso, com preciosa informação sobre o local, data e figurantes.
Falei com o Professor António Vasconcelos Saldanha e este pediu de imediato que incluíssemos duas ou três peças na exposição. Lá estão: o retrato do Rei Chulalongkorn no dia da coroação, por Francisco Chit; a Orquestra Filarmónica de Bangkok, constituída por portugueses, que fez brado por aquelas paragens no virar do século; um friso de Protegidos Chinas em frente do Consulado-Geral de Portugal, por Joaquim António.
Os fotógrafos - Francisco e Joaquim - também revelam traços de carácter. Francisco Chit era um homem cheio de talento, mas foi toda a vida um funcionário do Rei. Discreto, quase invisível por detrás da câmara, servindo com modéstia o seu senhor; um ausente-presente na grande obra que deixou.
Joaquim António, esse, era um homem cheio de expediente e atrevimento. Não havia foto de grupo onde não quisesse pousar, sempre de charuto semi-fumado numa mão, panamá de palha na cabeça, oculinhos redondos fundo-de-garrafa, fato janota. Sabia fazer carreira e convidava-se.
A colecção merece um álbum e estudo detalhado. Talvez para 2012, quando defender e publicar a tese desinquietarei alguma editora para revelar o filão agora desenterrado.
Como disse Teresa de Saldanha, "há sempre um milagre". A quem o diz.

Náusea ou "livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido, absolutamente indisponível para entrar em camarilhas, carregar malas e fazer de mainato"


O país, ontem como hoje, aguardando a comoção profunda do imprevisível. Sente-se no ar que algo acabou, mas não se sabe ainda o que está para vir. Já ninguém dá a cara por algo que dentro em pouco poderá comprometer. Lisboa continua, tristonha mas orgulhosa, a mostrar a estrangeiros as grandezas de um passado morto. Ontem passeei pela baixa e de um estrangeiro, deslumbrado com a vista de Santa Justa, a certeira punhalada: "vocês já foram tão grandes. Como puderam descer tão baixo ?"

Apetecia-me ter-lhe respondido com um comboio de nomes: Vasco Gonçalves, Otelo, Rosa Coutinho, Cunhal, Manuel Alegre, Mário Soares, Freitas, Sá Carneiro, Pintassilgo, Cavaco, Guterres, Sampaio, Barroso, Sócrates, CGTP, UGT, SUV's, RGA's, PREC, bancos e seitas, camarilhas e lóbis. Ele não compreenderia. Calei-me e senti que se não se fizer agora, amanhã não teremos mais que passado. No fundo, sinto-me feliz por não dever favor algum, de me ter transformado num estrangeiro no meu próprio país, ter assistido a todos os ultrajes e me manter fora de capelinhas. Como disse há dias a algumas amigas minhas, "mon pays me fait mal", após pagar 2000 Euros do meu bolso para garantir o sucesso de uma actividade que o Estado não pode pagar - tão falido anda - e receber de um dirigente do Estado a seguinte cuspidela: "encheram isto e agora temos de deitar todo este lixo fora". O "lixo" era, tão só, comida !

Como 98% dos meus concidadãos, só peço uma coisa, tão pequena que se escreve com meia dúzia de letras: justiça. Faz falta uma revolução - de Maio, de Junho ou de Janeiro - que varra o pântano e premeie o trabalho, o sacrifício e o patriotismo. Tudo o mais são teorias, modelos, retóricas.


Lisboa; Domingos Marques, Revolução de Maio (1937)