18 novembro 2011

Os "visitadores"






Dizia-me há tempos um amigo existir flagrante similitude entre os "visitadores" papais de Seiscentos e Setecentos e alguns quadros dirigentes da função pública. Os visitadores, que trabalhavam para a Propaganda Fide - logo, para os franceses que se queriam apossar uma a uma das missões portuguesas no Oriente - vinham de Roma com as blandícias e honras inerentes às púrpuras cardinalícias. Eram acolhidos pelo clero português com as maiores provas de estima. Mostravam-lhes o progresso das missões, o povo educado, as igrejas e colégios, a obra regada com o suor do trabalho árduo e o sangue das perseguições e martírios. Mostravam-se surpreendidos por assistirem às grandes expressões da fé, aos cânticos em latim, às crianças tocando música sacra, aos hospitais, enfermarias e leprosarias, às irmandades e ao respeito que os locais tributavam aos bons e ingénuos padres do Padroado. Depois, partiam. Ao chegarem a Roma, redigiam a memória e contavam enormidades, soezes mentiras, difamavam e pediam que tais missões fossem retiradas aos portugueses. Foi assim na China, no Tonquim, no Camboja, na Birmânia, no Sião e em Malaca.


Tudo isto continua a passar-se, mas os "visitadores" não são estrangeiros, mas portugueses. São dirigentes, subidos pelas artes de um sistema corrupto, pelo nepotismo, pelos falsos concursos públicos, pelas curibecas, lóbis e camarilhas de impostores e atrasados mentais que tomaram de assalto o serviço público. Têm como única missão diminuir, impedir, matar, imobilizar, não deixar fazer. Enquanto tal gente estiver nos lugares que ocupa, para mal do Estado, do povo e das instituições, Portugal continuará como um Montenegro do extremo-ocidente. É essa gente que nos mata, que convida a sair e fugir do pântano fétido em que se transformou Portugal nestes tempos de chumbo. Há, notoriamente, uma ditadura de imbecilidade que a todos nos esmaga. Não é uma crise económica. É uma crise de atitude, de gabarito, de ética e cultura política.


16 novembro 2011

Louras e segregadas: agora, o racismo é anti-louro


A impostura dos direitos cívicos nos EUA. São louras, não pertencem a nenhuma minoria, não foram envolvidas em qualquer despistagem de "substâncias perigosas" nem em qualquer escândalo sexual. Cometeram um crime imperdoável: venceram 15 dos 17 jogos e os responsáveis pelo desporto de Nova Iorque tinham de encontrar um alibi para as excluir. Inventaram a desculpa: as regras proibem que se joguem mais de 16 partidas. A equipa foi eliminada por despacho. O racismo impiedoso tem destas coisas.

Paulo Portas na AR: lucidez e moderação

A intervenção de Paulo Portas no parlamento foi um alívio para quantos, amargurados com boatos alarmistas sobre o encerramento de embaixadas, vaticinavam o pior. Afinal, Paulo Portas agiu em conformidade com o bom-senso e decidiu aquém das expectativas; isto é, não aplicou o critério cego do encerramento estribado numa certa mentalidade de merceeiro que desde os anos 90 invadiu lentamente e maculou as prioridades da política externa portuguesa em benefício da chamada "diplomacia económica". As relações externas não são um negócio. Nós, que nunca fomos cartagineses, gente de bazar e negociatas, entendemos a política externa como exercício da presença de Portugal nos negócios do mundo. Os nossos "negócios" são, à cabeça, a memória, a história, a cultura e a língua. Os vinhos, os azeites, as resinas, as amêndoas e os trapos e couros estão lá, mas não são prioridade.

Foi uma grande lição. Falava-se, entre outras, no encerramento da Embaixada de Portugal na Tailândia. Claro, a Tailândia pouco importa de Portugal, nós pouco importamos da Tailândia, empresas portuguesas na Tailândia não as há. É possível inverter, é possível melhorar e abrir negócios com os tailandeses. Contudo, as relações com a Tailândia são alimentadas pela história e pela cultura, as mais antigas entre um Estado europeu e uma nação asiática. Paulo Portas sabe-o e não ofendeu essa velha e jamais alterada relação no ano em que se celebram 500 anos. Parabéns, Ministro !

14 novembro 2011

Ardente democracia




Como se previa, após o festim criminoso, os assaltantes lutam pelo produto do saque. Uma brilhante democracia desponta nas areias líbias, entre as rajadas e as explosões que já não são de celebração, mas ajustes de contas e rixas entre os bandos armados pelas petroleiras. Para os cândidos, os supersticiosos das bem-aventuranças liberais, os espalhadores de mercado e demais seguidores da barbaridade unidimensional da vida para o estômago, as dores Líbia (e no futuro da Síria) nada dizem. As pessoas, se não são estúpidas, são parvas e vice-versa. O grande problema é que alguns dirigentes do decadente Ocidente são parvos e são estúpidos.

13 novembro 2011

Embaixada salva


A embaixada de Portugal na Tailândia, uma das jóias arquitectónicas da capital do velho Sião, talvez a mais bela representação diplomática portuguesa no mundo, encontra-se a salvo do desastre bíblico que se abateu sobre o país. Ontem passei pela rua fronteira ao edifício e tudo parecia calmo e seguro: sacos de areia lembrando a blitz, portas fechadas e até um policia refastelado na muralha de sacos dando protecção.

Do alto do Sheraton, o rio extravasando, mas incapaz de galgar os muros que confinam com o rio. A embaixada não se perdeu, alívio dos alívios num ano que tem sido de celebração dos 500 anos de relações entre os dois países. Até a natureza parece ter respeitado a velha aliança entre nós e os siameses. Daria um belo sermão no púlpito da igreja de S. Paulo dos Portugueses de Ayutthaya.