10 novembro 2011

Não vai lá com um golpe de Estado

Os golpes de Estado servem, entre outras coisas, por exemplo, para abrir portas a um novo modelo de governação, a uma nova elite dirigente, a um novo quadro institucional, a novas leis. Servem, pois, para reformar, limpar, sanear e restituir dignidade ao Estado. Infelizmente, um simples golpe de Estado não resolve os problemas que estiveram na sua eclosão. O principal problema das comunidades não é de natureza político-partidária, de ideologia ou de facção, mas de natureza psicológica, daquilo a que vulgarmente chamamos de "cultura de um povo".

Limitado como sou, só há pouco tempo me dei conta que todas as teorias e saberes académicos pouco ou nada interferem no processo de decisão, na prática de quem detém responsabilidades e muito menos na arte de manter o poder. Com ou sem socialismo, com ou sem liberalismo, com ou sem nacionalismo, os portugueses continuariam a ser irresponsáveis, corrompíveis, timoratos, gananciosos, nepotistas, fisiologistas, sem respeito pela lei, agarrados a pandilhas e lóbis para todos os gostos e oportunidades, avessos ao bem-comum, críticos cáusticos de toda e qualquer forma de autoridade, maledicentes, invejosos, ingratos, servis ou respondões. São traços de carácter colectivo, pelo que um golpe de Estado seria seguido de um novo regime salpicado de Varas, Loureiros, Sucateiros, Godinhos, Joaquins Pessoa, Pedros Soares, Duartes Limas, Felgueiras, Isaltinos.

Tenho para mim que o melhor regime é aquele que envolve o menor número possível de pessoas e que a melhor forma de governar é a de suspeitar por princípio de toda a gente, não dar quartel nem folga à vigilância e partir do princípio que a honestidade de qualquer um tem um preço, um local e uma oportunidade para se precipitar no gatunismo. Isto não vai com um golpe de Estado, mas com uma reforma profunda do ethos colectivo.

Ensinem aos miúdos a santidade do trabalho, a abnegação, o cumprimento de horários, o temor da lei, o respeito pelas autoridades, o amor pela pátria e todos os miasmas que nos condenam a esta existência pelintra e indigna desaparecerão.