28 outubro 2011

Mentiras: a respeito das cheias em Bangkok

A situação que se vive em Bangkok serve perfeitamente de montra para quantos, interessados numa análise mais cuidada e atenta do comportamento dos poderes estabelecidos – aqueles que condicionam e procuram sobreviver - vem confirmar a inclinação para a ocultação da verdade e para a manipulação inerente aos detentores do poder. De regresso à Tailândia, tenho acompanhado ao longo dos últimos dias as flutuações da verdade oficial – aquela que se propala – e as conclusões que retiro são, no mínimo, decepcionantes. Os governos mentem compulsivamente. Mentem para exorcizar o peso das responsabilidades; mentem para aquietar mas, sobretudo, para não perderem a magia de eficácia e controlo que os homens comuns lhes atribuem.
Há dias, o governo afirmava peremptoriamente que a capital tailandesa estava imune ao desastre das cheias do Chao-Phraya. Era matéria indiscutível: o governo controlava, providenciava, protegia e tinha a batalha antecipadamente ganha. Subitamente, há dois dias, o governo cedia e proclamava com solene arrogância que as águas avançavam sobre o coração da capital, mas que uma muralha instransponível estava a ser erigida e cedo as águas recuariam perante a vontade dos homens. A velha arma da propaganda do poder enfraquecido que só quer partilhar em momentos de sacrifício.Passeando pelas ruas, dei-me conta da angústia das pessoas. As lojas de conveniência esvaziavam-se, a água potável esgotou-se, os mais insignificantes artigos correntes passaram a ser disputados. No hotel em que me encontro,o pequeno-almoço sofreu notória redução. O pão de fabrico próprio foi substituído pelo Bimbo da globalização – esse não-pão – as panquecas passaram a lembrança, os seis ou sete pratos do buffet sofreram severa contracção. Quarta-feira, más notícias. O governo decretava três dias de “feriado”, uma falácia semântica que quer dizer “não se pode sair, os serviços públicos não conseguem responder, salve-se quem puder”.
Hoje, por volta das sete da manhã, acordei com a tv a debitar mantras de esperança. Num país do tamanho da França com uma capital do tamanho de Pequim, só o Rei parece manter a proverbial inclinação para o bom-senso. O Rei recusou tratamento especial para a família real e para o palácio e afirmou com sabedoria que a natureza devia ser respeitada e cumprir o seu curso. Em vez de andarem a construir risíveis barricadas de sacos de areia, deviam deixar as águas fluir livremente para o oceano. A tragédia da Tailândia é a tragédia do culto do desenvolvimento a todo o custo, do fazer dinheiro e negócios e dessa intragável tirania da mediocridade que dá pelo nome de populismo.
Hoje, os governos são na sua generalidade máquinas de prestigitação, edifícios complexos abrigando uma floresta de instituições servidas por gente desclassificada, sem outra preparação específica que as artes práticas das logomaquias parlamentares; os governos converteram-se em inimigos do bom-senso e até da natureza. As crenças desenvolvimentistas estatelam-se e o progresso – esse monstro – vai mostrando o erro trágico de décadas de sedução perante o abismo que ninguém queria ver.