21 outubro 2011

A grandeza que se conquista pelo sangue

Afinal, Kadhafi não abandonou o seu lugar, foi consequente com a sua promessa de ir até ao fim e morreu ao lado dos seus - daqueles que se dizia não passarem de mercenários, mas por ele morreram - e não viu um só dos seus fraquejar. Uma família inteira massacrada, sem que um só se entregasse, pedisse misericórdia, abandonasse a arma e se pusesse em fuga. É evidente que nasceu uma lenda, que os combatentes que protegeram e se sacrificaram pelo seu líder - tão poucos perante o mar de energúmenos e dos aviões e bombas por nós pagas - entraram já pelo portal da história.
Kadhafi não foi o primeiro nem será o último desses homens enérgicos que se recusaram acompanhar os "ventos da história". Às vezes, ou quase sempre, a coerência paga-se com a vida. Neste particular, Kadhafi foi um exemplo e a sua sombra agiganta-se na comparação com os pobres diabos de fato e gravata que simulam vida nos altares da religião do dinheiro. Como o leão, foi abatido, pois não cabia numa jaula de jardim zoológico e tinha muito que dizer a respeito daqueles que hoje, em nome da democracia - em Washington e Bruxelas - seriam incapazes de arriscar um botão de punho.
A Líbia não se rendeu. Lutou até ao extremo pela sua dignidade e perdeu. Chegou o tempo dos homens práticos, dos negócios e dos pragmáticos, esse outro nome da plutocracia. As sugadoras podem começar a drenar o petróleo !
Na outra dimensão, a dos mitos e das lendas, alguém ter-lhe-á dito: "bem-vindo, Muhamar al-Kadhafi ao mundo dos heróis". Só não compreende estas coisas quem vive derrancado na azáfama dos bazares.


Sorriso da morte




Se há pior atitude que a indiferença perante a morte de outrem, esse é certamente o gracejar perante um cadáver. Como dizia Luís Pacheco, o maldito, "ninguém tem razão perante um cadáver". Só a América se vangloria perante tais espectáculos. Uma vergonha. Diz-se que Truman. ao tomar conhecimento do lançamento da primeira bomba atómica, terá exclamado: "vamos tomar o pequeno almoço e depois tratamos disso". Expressões que são por inteiro uma weltanshauung.
Entre a matança de Kadaffi e os seus filhos e o massacre de uma inteira reserva de leões, tigres e ursos, a única diferença parece residir na quase indiferença com que foi seguida a tragédia do Ohio. Para gente que matou em trinta anos (1840-1870) cerca de 100 milhões de bisontes e quase 2 milhões de índios, a contabilidade da morte faz parte do negócio da vida.

20 outubro 2011

A liberdade com o dedo no gatilho

Dizia António José de Almeida que ao ouvir o grito viva a liberdade, corria à janela para ver quem estava a ser preso. Quem diz ser preso, pode dizer ser morto. Triunfou, finalmente, a lei da rua, para gáudio da estranha aliança entre as petroleiras e a Al Quaeda, o mais elementar da religião do dinheiro com o mais elementar da superstição selvagem regressiva. A democracia chegou à Libia, dizem os cândidos. Diria que democracias assim, armadas pelo estrangeiro, feitas de bombardeamentos sem interrupção sobre um país soberano - sem um queixume, sem uma objecção da comunidade internacional - adensa os mais negros vaticínios. Um dia destes, a Troika manda bombardear S. Bento e leva a Haia os nossos governantes por se recusarem a cumprir novas metas. Estou certo que as líbias devem andar excitadíssimas com a perspectiva das burkas e que os tribunais em breve substituirão os códigos pelos versículos. Progressos do mundo.
Perguntava-me há dias um amigo, muito afeitadinho "às boas formas" - aquelas que se repetem à exaustão, mas nunca mostram o conteúdo (por não o terem) por que razão estava tão pessimista a respeito das "novas democracias" no Norte de África. Para escândalo de tão bom crente nessa religião das democracias a todo o custo, disse-lhe que a diferença não é entre ditadores e não-ditadores, mas entre bons governantes e maus governantes e que até há bons ditadores e péssimos democratas. Acontece, doa a quem doer, é que o presidente líbio foi um bom governante e ofereceu ao seu povo os melhores índices de todo o continente: na educação, na saúde, na esperança de vida, na distribuição da riqueza.
Aconteceu agora ao ditador líbio o que fizeram a Mussolini. Diz-se com quase certeza que Mussolini foi abatido por ordem dos ingleses. Quem diz Mussolini, pode dizer Savimbi, o Presidente Diem e tantos outros que vão sendo trocados na andança dos grandes negócios do mundo. Estou certo que o mesmo poderemos dizer a respeito de Kadhafi. Hoje, Tony Blair, Sarkozy, Berlusconi e o Prémio Nobel Obama poderão dormir descansados. Calou-e a voz. Um salto em frente no progresso da humanidade. Como dizia uma dessas primatas telegénicas que a CNN exibe 24 sobre 24 horas no nunca-acaba de tagarelice jornaleira, "today, a terrific day".

18 outubro 2011

Pré-História da miséria



Uma viagem alucinante ao começo da bagunça que nos trouxe à desgraça. Para não esquecer, nunca.

Se eu pago, eles que paguem

Paguei nos últimos três meses 18.000 Euros em impostos e trabalho como um galeriano, 15 horas por dia. Pago tudo o que o estado me tributa. Não refilo, não fujo ao fisco, tenho a contabilidade impoluta, não tenho contas em off shores, não devo um cêntimo aos meus empregados. Fiquei ontem siderado ao tomar conhecimento que os senhores ex-presidentes e demais infatigáveis servidores do bem-comum não vão ser beliscados com as medidas draconianas contempladas pelo orçamento de 2012.

Na Suécia, há um limite para as reformas. Por cá, essa gente que nos touxe à miséria, nos matou o passado e fechou o futuro continua a exigir que lhes batamos palmas, lhes paguemos reformas de Cressus e toleremos a ousadia de nos darem lições de moral. Vão-se despir !

Ouvi de um amigo, homem moderadíssimo, médico de profissão com largo palmarés em acções de filantropia - dessas pessoas que dão o que podem e não podem e não cobram uma consulta aos pobres - o seguinte e terrível desabafo: "que venha o Homem, o tal Homem com um só par de sapatos, sem contas, sem lóbis, para limpar as cavalariças".

É evidente que a oligarquia não vai abrir mão das imensas fortunas que acumulou ao longo de décadas. O regime, para exigir o pão, o leite e o frio do inverno que se aproxima, precisa de dar o exemplo. Caso contrário, que se dane.

16 outubro 2011

As democracias familiares

François Hollande foi escolhido para encabeçar a candidatura socialista às presidenciais de 2012. O facto mais relevante - pois Hollande é um campeão do cinzentismo, homem nascido, crescido e mantido no aparelho - é o facto de na sua vida tudo ter a ver com aparelhos. Foi no aparelho que conheceu, namorou e casou com madame S. Royal. As democracias transformam-se amiúde em coisas familiares. Quem está de fora, que se trame. Agora compreendo por que razão nunca recebi convite algum. Não estou em rede alguma !