03 setembro 2011

Tempos de luta

Uma foto com muitos anos. Eu - ainda no curso Geral de Milicianos - e o meu irmão Nuno na Galeria Camilo-Eça. Pelas minhas contas, há mais de mil anos. Por essa altura, ainda acreditávamos que valia a pena fazer política limpa, com imenso sacrifício, trabalho e honestidade. Eram os tempos da Nova Monarquia, tão atacada por todos por ser demasiado militante, "excessivamente patriótica" e não vendável aos fulanos que estão em todas à espera de um lugar. Sem um Escudo, reunimos centos de jovens e fizemos mais pelo ideal monárquico que gerações de peralvilhos de salão. Entre 1983 e 1989, as ruas da capital foram nossas. Até o CDS nos veio bater à porta para lhes fazermos uma campanha em grande. Depois, veio o tempo dos "outros", aqueles que nunca fizeram, os sem passado. Dizem que foi a nossa perdição. Em Portugal, não se deve ser dizer o que se pensa. Tudo águas mornas, tudo meios-termos, de preferência tudo o que leve a parte alguma. Triste sina, a nossa.

A morte com um poema nos lábios

Eram na sua grande maioria estudantes de letras. Não podiam servir na indústria, não dominavam as matemáticas nem fazer cálculos de tiro, nada sabiam de Física e Química para fabricar aviões, bombas e artilharia. Ofereceram-se para morrer com a poesia no Mar do Japão. Os últimos heróis do Antigo Japão foram os estudantes de Filosofia, de História e de Literatura. Um belo livro.

Umi Yukaba

If I go away to the sea,
I shall be a corpse washed up.
If I go away to the mountain,
I shall be a corpse in the grass
But if I die for the Emperor,
It will not be a regret.

02 setembro 2011

Uma espécie de 25 de Abril

Diz Passos Coelho a propósito da invasão da Líbia. Esperemos que não porque, se assim for, daqui a três décadas a Líbia terá 3000 juntas de freguesia, 300 concelhos, 700.000 funcionários públicos, 800 fundações e 50.000 pessoas vivendo exclusivamente da "vida política"; em suma, estará absolutamente endividada e falida. Eles que se acautelem com o "modelo português".

30 agosto 2011

Proteger as famílias dos ditadores



A horda de bandidos armados e ladrões [assalariados das petroleiras] que tomou a Líbia de assalto, anda a dar caça indiscriminada a pessoas tidas como afectas à velha situação, que era horrível, certo, mas que colocou a Líbia à cabeça de todas as estatísticas africanas. Depois dos negros, dos milicianos kadafistas e de qualquer pessoa que tenha a desdita de haver sido fotografada num desses comícios verdes que o Coronel organizou, coube a vez aos familiares, amigos dos familiares, servidores dos familiares e amigos dos servidores dos familiares de Kadafi. Dizem as fontes isentas que nada daquilo que se vê na CNN, na BBC, na France24 e outros canais poluídos corresponde à realidade em Trípoli. Estão a ser cometidos crimes terríveis de vingança, as pessoas que desaparecem levadas numa rusga, os corpos com braços atados atrás das costas que apoderecem em baldios, os bairros da classe média invadidos, saqueados, a população que partiu para parte incerta; em suma, maravilhas da libertação. No Ocidente, nem uma palavra. No fundo, é a democracia, a democracia com o dedo no gatilho a matar tudo o que se move.


As novas "autoridades" pedem o regresso da família do ditador. Para quê? A pergunta é ociosa. Se entrassem na Líbia seria condenação à morte certa; aliás, execução, pois não há na Líbia outros tribunais que os sumários. O que dizem os arautos dos "direitos humanos", o que diz o New York Times, as ONG's, as igrejas e igrejinhas, os observatórios e essa brilhante inutilidade chamada União Europeia? Nada. Naão interessa. O importante é fixar o alvo e não o largar, ou seja, o petróleo. O resto não interessa. E assim regressa a Líbia às tâmaras e aos camelos antes dos Talibãs tomarem o poder e o Ocidente voltar a sentir a humilhação húmida, morna, viscosa e escorrente de um escarro na cara !

29 agosto 2011

Há elites em Portugal ?


Se por elite entendermos um grupo que pela inteligência, capacidade de realização e liderança se impõe naturalmente aos demais; então, olhando para a sociedade portuguesa, chegamos à conclusão que tal elite jamais existiu. O clero foi sempre fraco, a aristocracia muito pouco nobre, a alta burocracia/ nobreza togada avessa à selecção pelo mérito, a universidade provinciana e triste, os militares uns fulanos sem pingo de testa. Depois, abaixo, o povo, o povinho e o povão. Não, em Portugal nunca houve elite, mas houve líderanças fortes: líderes militares, líderes religiosos, líderes artísticos, líderes políticos. O grande vazio da sociedade portuguesa é esse: não há autoridade e, assim, as não-elites (povo, povinho, povão) ocupam os lugares, brincam às elites mas não sabem mandar, confundem tudo e inventam abstrações que desculpam a incompetência e, sobretudo, a incapacidade de se fazerem obedecer.

Portugal precisa, urgentemente, de gente que saiba ordenar e o povo português precisa de um banho Maria de autoridade. Sem isso, a coisa continuará como está, ingovernável.