27 agosto 2011

As causas, as bandeiras, os afectos e os saberes

Tenho um amigo que se ri como um Bijagós ou um Manjaco do torvelinho de paixões postiças, "causas justas" e "povos em marcha" que se fazem e desfazem com a brevidade das borboletas. Vistosas, coloridas e esvoaçantes, as "causas" promovem abaixo-assinados, levam as suas indignações aos parlamentos, fazem as parangonas dos jornais, alimentam debates e se estão suficientemente escoradas por um dos dois milhões de lóbis que esgotam as entradas de uma enciclopédia, sobem às Nações Unidas e até conseguem transformar as minúsculas causas que as abrasam em cruzadas.
Ontem assisti ao debate televisivo sobre a Líbia. Estavam lá Ângelo Correia, Ana Gomes, uma novinha sem nome e uma outra senhora que participa em tudo, mas cujo nome ainda não tive a paciência de decorar. Falavam com uma autoridade catedrática sobre um país onde, talvez, nunca puseram os pés. Repetem e trepetem o que leram nos jornais: tempestades de palavras num deserto de ideias. Se um dizia mata, o outro acrescentava esfola. Uma das senhoras - a tal que participa em tudo, mas cujo nome ainda não tive a paciência de decorar - ficou eriçada de paixão quando se falou no petróleo que a liberdade e a democracia exigem a troco do derrube do tirano. Falar no petróleo é meter o dedo na ferida. Quando é que começam estes debates sobre a Líbia - a Tailândia, o Burkina Faso ou o Tibete - com uma simples pergunta: "o senhor(a) fala árabe/tailandês/julakan, tem algo publicado sobre o assunto, que título académico possuiu para vir falar como especialista" ?

24 agosto 2011

Glória antiga não morre

Afonso de Albuquerque manda solenemente cunhar moeda em Malaca. Gravura de Maurício José Sendim, c. 1840.

Faz hoje 500 anos que Albuquerque, após um mês de renhida batalha, terminou a conquista de Malaca. Um grande feito militar contra mais de vinte mil defensores solidamente entrincheirados e dotados de armas de fogo e artilharia. Nada se consegue sem arrojo e as melhores vitórias são obtidas a corpo limpo. Albuquerque veio, viu e venceu. É isto patrioteirismo ? Não, é património sem o qual não vale a pena continuar Portugal.

22 agosto 2011

Strauss-Kahn & Kadafi

Houve quem exultasse com a detenção de Strauss-Kahn e nela revisse um auto medieval sobre a inapelável justiça divina exercida sobre os poderosos lavando a honra dos pobres de Deus. Outros, mais afeitos aos tempos, uma vitória do "género" e a demonstração da bondade de um sistema judicial centrado no senso-comum. A América foi incensada e deu-se largas ao mais chão entusiasmo pela visão "uomo qualunque" que por todo o lado triunfa. Sempre achei que a historieta era dúbia, na qual os senhores da sordidez eram mais os predicadores da moral que o banqueiro priapista. Afinal, a mentira, a manipulação emocional, o fazer dos outros parvos e cúmplices corria do lado dos exaltados defensores da vítima deliberada. As coisas são sempre mais complexas e subtis do que as mentes reactivas e os afectivos espontâneos pensam. Aquilo foi, desde o primeiro minuto, uma luta que ultrapassava largamente o quarto do hotel, o banqueiro insaciável e a prestadora de serviços sexuais transformada em "mãe", "mulher", "vítima" e "imigrante". Foi uma luta entre banqueiros - uma luta de bastidores entre filhos de Abraão- para tirar Khan da ribalta francesa já ocupada por um certo Sarkozy, muito amigo dos banqueiros da Street. Foi, tudo o indica, uma tentativa concertada mas frustrada para retirar a Europa e o Euro de cena. Hoje, a "vítima" retirou a queixa. Amanhã será presa por perjúrio.

Outro caso de paixão e "pistis" para as massas telemobilizadas é a derrocada de Kadafi. O homem que foi conqueluche das lutas libertadoras, do terrorismo necessário e da propaganda pelo facto, passou a tirano insaciável, perdição dos oprimidos e dos famintos. A sua derrota sabe, no fundo, a vitória, pois foi necessário que as "fábricas da liberdade" se encavalitassem para ver quem deitava mais bombas sobre o povo líbio que não sabia como se libertar. Os revolucionários -agora revolucionário é todo o tolo que faz a agenda das petroleiras - chegaram a Tripoli. Não foi vitória militar coisa alguma. Depois de 7500 raides aéreos da coligação sem procuração da ONU, entraram por ali adentro e, pasme-se, não encontraram os V's libertadores. Tripoli está vazia. Os dois milhões de escravos do tirano fugiram. As ruas estão entregues aos libertadores e tenho a certeza absoluta de que amanhã começarão a saquear o que restou da era Kadafi. No dia seguinte à pilhagem, com as carrinhas atafulhadas do espólio, vão-se começar a matar uns aos outros em nome de miríficos direitos e democracias.