29 julho 2011

Estado de graça para sair do "lamaçal"




Contente ficaria se os nossos (in)distintos políticos recolhessem ao mosteiro por três meses e fizessem um bom Vipassanā. Os thais fazem-no com frequência. Na passada semana (foto), os quadros mais altos da hierarquia militar deram entrada na vida monástica após cerimónia de tonsura no Templo de Mármore, em Banguecoque. Ao longo dos próximos meses não comerão carne, alimentar-se-ão duas vezes por dia e farão exercícios espirituais de meditação, oração e penitência. Se a nossa tropa, mais deputados e gestores recorressem a tal terapia de desintoxicação, estou certo que dali sairia gente mais lavada. A sociedade portuguesa está saturada de repentes, palavrões, impaciência, frustrações, invejas e futilidades. Ouvir o silêncio da respiração, não pensar e, sobretudo, não falar são regras de ouro para a retoma do equilíbrio perdido. Façam Vipassaná !

28 julho 2011

Desculpe-me Alfredo Barroso pela direita que temos




Não me interessa saber se são de esquerda ou de direita, matéria irrelevante, mas custa-me que gente desta ande à solta e impunemente vá partindo peça a peça as últimas chávenas de chá do serviço de uma casa que foi, em tempos não muito recuados, modelo de uma digna e discreta elegância. Sei que o estilo da licenciada Caeiro pegou e que todos somos responsáveis pelo triunfo do desbragamento, do reles e do atrevimento, com mais ou menos madeixas de louro-falso, com mais ou menos botoezinhos à almirante e uns tiques de parvenue à mistura. Aliás - lá está o Miguel a dizer inconveniências - eu já tinha dito que a Direita tem o grande inconveniente de não ler, ser quase analfabeta. Agora, caiu nisto. Perdeu a educação, a última coisa que ainda tinha. A licenciada Caeiro deitou ontem por terra o estado de graça em que vivia o governo. Vá-se despir !
Paulo Portas que tome medidas, mande a licenciada Teresa para retiro no convento de Viseu - como a Teresa Albuquerque do Amor de Perdição, que essa, pelo menos foi homiziada por amor - e deixe o governo trabalhar.

Eu sei que estou a pregar no deserto. O tempo dos cavalheiros (e das "cavalheiras", para fazer a graça ao género) é coisa bíblica. As pessoas ainda não compreenderam que a massa entrou porta adentro e no futuro vai ser tudo assim, até ao fim da democracia. Acabou a era do debate e entramos na era do tabefe, da agressão gratuita e do rasca, madeixas de louro-falso incluindo. Não é pelo facto de um homenzinho aparecer em pleno verão de fato pistacho ou uma fulana se mascarar de boneca que se faz uma vida política a brincar à inglesa. É preciso mais, muito mais.

Profiteurs de jeunes


Ao longo do verão, como tortulhos que vicejam com o orvalho das suaves manhãs, há por toda a Europa umas coisas a que dão o nome de "universidades de verão" e servem, entre outras coisas - tentações da carne à parte - para uns barbudos soixante-huitard intoxicarem de marxismo e antigas boas-novas os teen's acnosos. São, sem tirar, profiteurs de jeunes e como tal podiam ser sentenciados. Oferecem tenda, comida e oportunidade para palpitações de verão aos meninos e meninas, recebendo em troca a magra atenção para umas prelecções cripto-terroristas. Que tal, com 40 graus abafados, entrar na Tenda Rosa Luxemburgo e ouvir um pregador discorrendo sobre "contradições", "utensilagem metodológica", "ferramentas conceptuais", "modelos de produção", "alienações" e demais maravilhas dessa novidade que dá pelo nome de marxismo, coisa actualíssima sem dúvida para meninos nascidos quando a URSS era já coisa da história ?

27 julho 2011

Os homens das bombas



Passou há dias o aniversário do atentado de 20 de Julho. A generalidade da imprensa alemã rememorou com pormenor os acidentes desse dia trágico, ouviu testemunhas, familiares e amigos de von Stauffenberg mas não cedeu à tentação da mentirinha, esse milho de catequese cívica que se atira às galinhas e patos. Von Stauffenberg foi exaltado como resistente, mas sobretudo como "democrata". Uma mentira; aliás, várias mentiras num pacote de grande mentira. Von Stauffenberg não era democrata coisa alguma e a sua resistência ao nazismo - um governo da plebe, pela plebe para a plebe - argamassava-se no catolicismo, patriotismo, monarquismo e elitismo social. De facto - minta quem quiser mentir - a verdadeira oposição ao comunismo negro (nazismo) foi reaccionária, anti-moderna, anti-democrática, anti-igualitária, anti-liberal e anti-socialista.


Dois dias após a evocação de Stauffenberg, um fulano norueguês fez o que se sabe. De imediato, a inculpação do nazismo -não que os nazistas não fossem capazes e tais coisas - para, juntamente com o rótulo, colar mais duas ou três vulgaridades tiradas das rações pronto-a-comer da "cultura média". O perigo reside, precisamente, na "cultura média", a que não pensa, não argumenta, não lê e não interroga. A cultura média é a cultura totalitária; ali, tudo se reduz ao claro-escuro, ao esquemático, aos afectos e instintos.


O homem da bomba de Oslo pode ser tudo, mas não é um tolo. É isso que incomoda, e como incomoda, há que defini-lo como "louco". Como os loucos são inimputáveis, a loucura é tratada em asilos e não há tribunal que a possa acolher. Estranho, mas talvez não, pois com o julgamento da criatura, com tanta filiação em boas causas e boas associações discretas, corre-se o risco de perder o controlo sobre a dita opinião pública (a opinião que se publica). Repararam, sem dúvida, que do coro inicial de indignações dos cátaros da "democracia" deu lugar ao coro de psiquiatras, psicanalistas, sexólogos e demais sacerdotes das religiões em prática. Estranho, depois de se saber que, afinal, o homenzinho se afirma "sionista", "democrata, anti-nazista, anti-católico e anti-muçulmano.


Von Stauffenberg foi caracterizado pela propaganda oficial como um louco e um traidor. Tecnicamente von Stauffenberg foi um traidor, como tecnicamente foi, também, um terrorista. É assim: se nós gostamos de um terrorista ou de um traidor, passa a resistente e herói. A criatura de Oslo é terrorista e desse labéu só se livrará - trocando-o pelo de louco - se alguém decidir que levar as suas ideias a tribunal poderá concorrer para perturbar as mansas ideias-feitas da plebe. O mundo é confuso !

25 julho 2011

Juristas portugueses no Sião

No terceiro quartel do século XIX, o Rei Chulalongkorn lançou uma série de reformas profundas tendentes a redesenhar o Estado siamês e contratou, para o assessorar nessa tarefa, cerca de trezentos conselheiros estrangeiros - americanos, franceses, ingleses, dinamarqueses, alemães, russos e até um japonês - mas os muitos estudos publicados sobre o lugar e papel desses agentes de mudança omitem a existência de portugueses.

Os estrangeiros contratados pelo Sião ocupavam postos em patamares distintos. Havia-os assessorando o Rei e os ministros, mas a grande maioria ocupava funções de direcção intermédia, coadjuvando directores gerais ou pequenos dirigentes dos serviços públicos. A ideia do conselheiro rico e poderoso dando ordens aos então já influentes burocratas siameses não passa, cremos, de fantasia colonial. Entre os portugueses que prestavam serviço no Estado siamês, encontramos homens de gabinete trabalhando directamente com os ministros, outros ocupando postos diplomáticos no estrangeiro, outros dando aulas nas escolas especializadas ou ocupando modestas funções de comando na marinha siamesa.

Uma categoria profissional exigindo particular atenção é a dos juristas. Sabe-se que advogados e juízes nascidos em Macau e Goa foram contratados pelo governo siamês para exercer funções nos Tribunais Internacionais. Detinham, como é fácil compreender, um considerável poder, pois concluído o período de vigência dos tribunais consulares e absoluta imiscibilidade de regimes jurídicos diferentes, geriram com perícia o regime misto e compromissório que permitiu ao Estado Siamês a retoma parcial da acção da justiça. Sendo servidores do governo siamês, procuravam defender os interesses siameses em disputas que envolviam poderosas forças, nomeadamente companhias estrangeiras, pelo que foram alvo de persistentes ataques por parte dos interesses que se julgavam ameaçados. Dizia um francês que “umas calças brancas, um chapéu alto, eis tudo o que é necessário para representar a Europa inteira na pessoa de um macaense, tipo de português meio-civilizado, meio-selvagem, debitando um pouco de inglês, de francês, de alemão, etc”. Que selvagem ou semi-bárbaro francês falaria o inglês, o alemão e o francês?

Ora, no estudo que temos vindo a fazer destacam-se muitos portugueses, já listados e de cujo percurso ao serviço do Sião oportunamente daremos conhecimento em livro. Eram cerca de 30, ou seja, 10% da totalidade dos conselheiros estrangeiros, apenas ultrapassados em número por britânicos e alemães. O seu voluntário esquecimento pela historiografia é imperdoável e deve ser reparado, pois coube-lhes importante parte da transformação do Sião. Infelizmente, quando se trata do Oriente tocado pelos portugueses, os estudos repetem-se ad nauseam. Dir-se-ia não existir história portuguesa no Oriente após o século XVII. É tempo de mudar e fazer uma Nova História dos Portugueses no Oriente.


Desnortes


Maçon, admirador de Winston Churchill, "cristão anti-católico", "europeísta" e "nacionalista". Há ou não há uma geração rasca, por sina tão desestruturada como perigosa ?