08 julho 2011

Dois milhões nas ruas em defesa da Síria



Imagens que as televisões ocidentais se recusam emitir. O povo sírio está a responder à invenção de uma "revolução democrática" que não existe. Ontem, em tudo o país, dois milhões de pessoas e, sobretudo, a minoria cristã, respaldaram o programa de reformas do Chefe de Estado e repudiaram a ingerência da plutocracia internacional; em suma, travar o passo às várias MOODY'S que se movimentam pelo mundo em busca de lucro.
A questão é a seguinte: o regime tem feito um esforço enorme em planear e aplicar reformas políticas profundas e os resultados são auspiciosos. A lei de imprensa, de associação e até a possibilidade de contestar decisões dos tribunais deu passos significativos. O número de presos de consciência foi reduzido a um décimo do que era há três anos. Foram libertadas centenas de pessoas e o governo pediu desculpas públicas por abusos cometidos durante a governação do pai Hassad. Alguma oposição democrática jamais foi perseguida e foram criadas leis tendentes a aceitar associações políticas independentes e, até, uma tímida aceitação de democracia representativa. Quando tudo estava encaminhado e quando a Síria iniciava realinhamento internacional, explodem as manifestações. Ora, alguns dos grupos que se têm manifestado são claramente fundamentalistas e pedem uma "revolução islâmica", a instauração da sharia e a proibição da liberdade religiosa. A vaga de crimes contra cristãos tornou-se, como no Egipto, uma realidade e contam-se por milhares os crimes de sangue contra a elite cultural e administrativa. Há, entre os manifestantes pró-democracia, gente muito válida e decente, com as quais o regime está em permanente contacto, mas a maioria da oposição quer precipitar o país no caos. Ali há, notoriamente, mão estrangeira.

O Rei e o fotógrafo



Os retratos fotográficos que a nós chegaram de Mongkut (1804-1868), quarto Rei da dinastia Chakri, destoam da personagem caprichosa e mundana que o cinema popularizou no The King and I, o musical de Rodgers & Hammerstein, de 1955, baseado nas dúbias memórias de Anna Leonowens. Mongkut não era, decididamente, Yul Brynner, como não era igualmente nem Rex Harrison, nem Yun-Fat Chow. As fotos de Francis Jitr tiradas na década de 1860 apresentam um homem seco de carnes, de pose hierática, rosto precocemente envelhecido com as comissuras descaídas e olhar baço e desconfiado procurando vencer o desconforto do assédio da objectiva da câmara. O verdadeiro Mongkut passara vinte e sete longos e esforçados anos entregue aos rigores da vida monástica e só chegou ao trono abeirando-se dos cinquenta anos de vida. No templo fez a escola que o palácio não podia facultar. No palácio, o Rei vivia em exclusão. No templo, Mongkut tinha por companheiros camponeses, artesãos, nobres e comerciantes, homens que haviam morrido para o mundo e renascido para uma vida de oração e estudo numa comunidade de iguais. Com eles andava pelas ruas de Bangkok mendigando a comida matinal, viajando pelo interior, ensinando, meditando, discutindo e lendo de templo em templo.

Francisco Artista, foto dos últimos anos de vida

Quando ascendeu ao trono, Mongkut chamou para junto de si um jovem luso-descendente a quem davam a alcunha de Jitr (Jitr= arte), que vivia no bandel de Santa Cruz de Thonburi. O rapaz, filho de um militar católico, parecia dotado para essa misteriosa técnica de captação de imagens que um padre francês trouxera para terras do Sião. Fez-se fotógrafo da corte, montou estúdio numa casa flutuante e passou a receber meio-Sião. Francis Jitr, assim se passou a chamar - dando um toque cosmopolita ao portuguesíssimo nome de baptismo - fez fortuna e nome. Fotografou o Rei e a corte, os hierarcas budistas, os capitalistas chineses, os aventureiros europeus e até o primeiro eclipse solar total de 1868. Morreu em 1891 e passou testemunho ao seu filho mais velho, o primeiro siamês a cursar artes técnicas na Europa, bem como à sua filha Soi, a primeira fotógrafa do Sião. A fascinante história dos portugueses na Tailândia está a vir à luz do dia .

Hora a hora, o conhecimento da história dos portugueses no Sião melhora !

06 julho 2011

O genocídio de que não se fala



Fez ontem 49 anos. Em Oran, no dia em que a França abria mão da Argélia, 3.500 colonos franceses foram abatidos a golpes de machado, empalados, queimados vivos ou simplesmente estrangulados. O comandante da guarnição da cidade recebeu ordens expressas de Paris - ou seja, do falso herói histórico de Gaulle - para não intervir e deixar que a populaça fizesse o trabalho. Cinicamente, o homem que fora o emblema da França YES (França aliadófila) frente à França JA (França colaboracionista), esquecendo-se que devera a esses pieds-noirs a preparação e execução da única campanha francesa digna de nota de reconquista do solo francês durante a Segunda Guerra Mundial (desembarque da Provença), lavava as mãos e afirmou: "Vous imaginez ça ! Les pieds-noirs veulent que notre armée les défende, mais ils n'ont jamais éprouvé le besoin de se défendre eux-mêmes ! "

Começava o êxodo dos pieds noirs. Sairam da Argélia 1.200.000 franceses (ou seja, 10,4 % da população) e entravam os radialistas portugueses da Rádio Argel. Anos depois, os portugueses de Angola e Moçambique teriam a mesma sorte. As histórias que a História não estuda.

05 julho 2011

Vá de retro ó genderização



Há tempos, de espada ardente e justiceira, tal como enviados do velho deus de Israel, iam-me lapidando por ousar afrontar a inocência da pobre criada de quarto atacada, humilhada e brutalizada por um predador incapaz de refrear os apetites genésicos. Confesso que ao tomar conhecimento de tal nefando e imprescritível atentado (brinco), levantei duas objecções, uma de forma - o estilo americano, que não é de confiança pelo menos desde os processos de Salem, em 1692 - e outra de conteúdo. Esta, a mais importante sem dúvida, pois permite-nos diagnóstico claro da estupidez trepadora das novas modas da periférica cultura dita "norte-americana", assim como da sobrevivência de velhas crenças que, de tão odiosas, foram banidas na Europa e enviados os seus bacilos pestilentos através dos Pilgrims.


Consabido é que aquela sociedade, dominada pelo ressentimento sexual e pelo terror das letras escarlates, é uma das mais atrasadas e insignificantes e continua a ser, sem tirar, uma aldeia que cresceu sobre o mundo e se converteu na referência do chamado Ocidente. O moralismo jeovático, um sistema judiciário arcaico que confia a cidadãos rifados ao acaso a parte de leão nos processos, a existência de procuradores incapazes de se libertarem da agenda política e de juízes aterrorizados pela ideia de contrariarem as modas dominantes gera processos como o de Strauss Kahn. Depois das algemas, das fotos, do retirar da gravata, cinto e atacadores, da barba por fazer durante cinco dias, só nos resta perguntar que diferença haverá entre o sistema judicial americano e o iraniano. Ou não são os EUA, logo a seguir à China, o país onde legalmente mais se mata ? Neste particular, os EUA são um pouco o Irão da democracia: guerras santas, fatwas, etc, etc. Bem, não é isso que importa. O atavismo vistas-curtas, o mais chão sectarismo baptista casou-se recentemente com o politicamenye correcto.


Um dos pilares do politicamente correcto é o "género". Transformou-se em ciência e dá pano para mangas; mais, dá para guarda-fatos a perder de vista. Se um trabalho universitário não abordar o "gender", a "visão feminina", os gendered landscapes, as psicoanálises do texto feminino e mais disparates, corre o risco de ser banido. Dizia-me um amigo que os gender studies são a forma agradável de levar para a universidade "le bordel" (francês) e levar a universidade para "le bordel". Tem papisas, "pensadoras", "autoridades", "profetizas" e pregadoras, habitualmente uns sacos de carne com óculos de massa, cabelo curto cortado a máquina Zero com franjinha à frente, tudo metido numas gangas a rebentar pelos costuras. É a admirável américa, que para além dos Donuts com 700 calorias, conseguiu a proeza de transformar em ciência oficial o natural interesse pela fornicação !


Afinal, a vestal ultrajada, violada e agredida pelo predador era, nem mais, uma prostituta, uma traficante de drogas, uma lavadora de dinheiros suspeitos. Ao politicamente correcto de mãe solteira, africana, muçulmana, seropositiva e mulher (caramba, que comboio de causas justas) juntou-se aquilo que era a figura real. O boneco da vítima - a generalização motivadora de uma "causa" - desabou sobre a figura real e agora não sabem o que fazer. Não faz mal, enterrem a mãe solteira, africana, muçulmana e seropositiva e vão à procura de outra "causa" que permita explosões e bandeiras da genderização. A visão fotonovela da vida continua a imperar, por vezes com luxuosas encadernações em pele de carneira carmesim com ferros a ouro e lombadas com nervuras. Ora, vão-se despir !

03 julho 2011

Democracia a 10€: Tailândia

Há dois mil anos, alguém perguntou democraticamente à turba que se manifestasse e escolhesse um dos condenados. Dessa escolha dependeria a vida de um e a morte de outro. A multidão escolheu um e entregou o Outro aos juízes da Lei. Por vezes, o simples facto de dar voz às pessoas não é, por si, indício de democracia, mas de concessão à visão dos homens da massa. Aliás, a história está cheia de votações democráticas liberticidas, tolas umas, perversas outras; todas erradas. Lembram-se de Sócrates e da sua condenação à morte ? Lembram-se do cerrado e expressivo voto popular em Hitler e Salvador Allende ? Lembram-se da Frente Popular em Espanha ? E de Chávez na Venezuela ? E Berlusconi em Itália ? É assim. Sem prejuízo da aceitação da regra democrática, mas com pesar pelo facto da cultura democrática e daquilo que esta encerra se confundir com votos comprados, suborno, manipulação, demagogia, há que aceitar o veredicto das urnas, mesmo quando um povo resolve votar em criminosos e gente absolutamente amoral; ou seja, quando um povo perde o respeito por si e se suicida.

As eleições que hoje se realizaram na Tailândia deram expressiva vitória ao Pheua Thai, ou seja, aos Vermelhos. O povo tailandês tem memória curta. Há um ano, esses Vermelhos pegaram fogo a Bangkok, calcaram todos os princípios elementares da cultura do diálogo e da tolerância - atributos da democracia - e prepararam um golpe de Estado com o apoio da criadagem da plutocracia. Falhada a arremetida violenta contra a ordem, escolheram o caminho longo, despolitizaram o discurso. Na frente vermelha há de tudo: ex-guerrilheiros comunistas, thaksinistas, anti-monárquicos, liberais que sonham com uma Tailândia de negócios e querem ali reproduzir uma nova Singapura, uma nova Coreia do Sul ou uma Dallas com prédios de vidro até às nuvens. Campeia, sobretudo, a confusão de planos e a absoluta ausência de educação política, de leitura e referências. Ouvir aquela gente discorrer é tão incómodo como assistir a um frente-a-frente entre Carmelinda Pereira e Eduardo Lourenço, um debate entre Bento XVI e uma testemunha de Jeová. Trata-se de gente impreparada e falha de formação teórica e técnica.

A Tailândia tinha que escolher entre Abhisit - um homem de Oxford, culto, ponderado, claro e sem mácula de corrupção - e uma fulana absolutamente insignificante que não consegue reunir duas ideias. Escolheu, naturalmente, o caminho fácil. Abhsit deu o que tinha e não tinha para retirar a Tailândia do exótico político e do terceiro-mundo. Combateu a crise financeira global, garantindo ao país 8% de crescimento económico anual, lançou mão a mil e uma iniciativas visando estimular a economia, fomentar o nascimento da sociedade civil, apoiar os mais desfavorecidos sem demagogia. Combateu, até, esse flagelo da corrupção que mina a governação desde há décadas, entregando à justiça ministros corruptos. Foi, sobretudo, um defensor leal e radical da instituição monárquica. Fiou-se, contudo, na sua tradição inglesa, ignorando que a Tailândia não é o Reino Unido. Tinha a combatê-lo as flores do mal da democracia: o caciquismo, o "discurso de taxista", o milenarismo, a impaciência das massas que querem queimar etapas e querem ser "ricas"; isto é, querem motos, cartões de crédito, comida de graça, transportes de graça, educação de graça, tudo de graça. Um combate de Abhisit, sem dúvida votado ao fracasso, pois o "homem da rua" julga que pode ser rico se vender o ouro dos museus e dos palácios, se se deitar para o lixo todas essas ninharias que não compreende e julga antiqualhas - para que serve o Budismo ? para que serve a cultura ? para que servem as Forças Armadas e as elites que transportam a memória do "nós" intemporal que são as sociedade ? - e quer dinheiro.

Conhecendo razoavelmente a história contemporânea tailandesa, julgamos que nada de novo trouxe esta eleição. Um governo Vermelho argamassado com as negociatas sujas do clã de Thaksin e os sonhos infantis dos descamisados - que continuarão descamisados - vai resultar em nova vaga de violência política e, claro, num golpe de Estado. O golpe não será amanhã ou no próximo mês. Será, talvez, dentro de um ou dois anos, quando esses governantes ad-hoc se atolarem uma vez mais, como no passado, numa espiral de roubo de propriedade pública e confundirem os seus negócios com o Bem-Comum. Abhisit e todas as pessoas minimamente esclarecidas sabiam desde há muito que a democracia é um caminho longo e sacrificado de aprimoramento, elevação das consciências e construção de uma cidadania feita de eleitores inacessíveis ao primeiro cacique que lhes entra porta-adentro oferecendo uma bicicleta, um aparelho de televisão ou crédito para consumir na loja da esquina. Os tailandeses quiseram o caminho fácil. Essa escolha condenou à morte a democracia tailandesa e o futuro do país será, não o da democracia, mas dos governos militares. Pelo amor que tenho pela Tailândia, só posso desejar que o futuro não seja tão sombrio como prevejo.

Há coisas que não gosto de aflorar, por respeito elementar e para evitar interpretações movidas pela má-fé. Hoje, não as vou esconder nem escamotear. Para minha grande desilusão, há democracias a duas-velocidades e a Tailândia é uma delas, tal como a África do Sul, o Brasil e até a Índia. A quadratura do círculo de fingir que é democrático um país onde 2/3 da população não tem a mínima informação, se deixa comprar e enganar e não está preparada para escolher, é responsável por estas coisas. Quem votou no Partido Democrático de Abhisit, fê-lo com absoluta consciência, informação e liberdade. A força do número, por si, não define a verdade. A generalidade dos thais que votaram vermelho não lê, não sabe nem se informa e limita-se a agir por impulsos sentimentais. Dizia-me uma tailandesa que votara nos vermelhos pelo facto da candidata ter uma boa pele, um sorriso branco e um cabelo excepcional. Não fazendo caricatura, assim é a visão do mundo que a maioria da população "vermelha" tem da vida política. É tudo acessório, é tudo lúdico.

Por vezes dou comigo a falar com altos quadros do Estado e até diplomatas thais e fico com a incómoda sensação que não compreendem o que lhes estou a dizer; isto é, quando os tento alertar para o problema da democracia a duas velocidades fazem um sorriso que não quer dizer nada e mudam abruptamente de conversa para abordar relevantes questões como o tempo, a última jantarada e o filme que está a dar brado. Por muitos séculos, os thais habituaram-se ser governados por uma selecta, educada e fina ordem palatina de príncipes e nobres. A alta sociedade thai ainda tem esses adereços de sofisticação. A monarquia mantém essa cultura de corte, a etiqueta grandiosa, a elaboração dos procedimentos e a beleza dos rituais que são o contrário da vaga de estupidez que varre a orbe. É um dique contra esta "modernidade" roncante que vai carcomendo tudo em benefício do ventre. A Tailândia, ao longo dos últimos 60 anos tentou o equilíbrio possível entre o passado e o presente da era americana. Se a monarquia for posta em causa, a Tailândia transforma-se, apenas, num lupanar (é para isso que lá está a maioria dos estrangeiros) e numa coutada para negociatas à Filipinas e à Vietname. As "novas elites" são um mal global, e são tão tailandesas como qualquer broker do Liechtenstein, da city nova-iorquina ou um corrector. Os tailandeses não são isso sob pena de perderem aquilo que os fez que não fossem uma colónia. São livres !
O povo tailandês é um povo excepcional, com um sentido profundo da sua especificidade e de uma bondade que ultrapassa largamente aquilo que encontramos no Ocidente. Que se salve do naufrágio da chamado globalização !