25 junho 2011

Difícil, Miss Pearls

A Isabel exige-me o impossível, mas faço-o por exercício de descontracção entre uma noite em branco de escrita do meu Relações entre Portugal e o Sião (1782-1939) e outra directa que se avizinha.

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Talvez o สี่แผ่นดิน (Si Phaendin = Quatro Reinados) de Kukrit Pramoj, lamentavelmente desconhecido pela totalidade dos portugueses amantes das belas-letras.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, o Ulysses de Joyce.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Vigia do Mundo, de Giovanni Papini. Soberbo, grandioso, enciclopédico e um monumento à espiritualidade ocidental.

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Les Euvres Philosophiques, de Frederico o Grande, o último grande homem de acção e reflexão antes da decadência europeia.

5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Les Déracinés, de Maurice Barrès.

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
A primeira leitura séria foi o Verne. Lembro-me ter passado meses a ler as aventuras geniais, sobretudo aquelas com toque exótico (A Casa a Vapor, Atribulações de um Chinês na China).

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Toda a pastelada da marxalhada que fui obrigado a ler em Sociologia na Universidade Nova. Aquele esquematismo e não-pensamento, aquele ódio latente às alturas e a recusa de passar para cima do estômago; em suma, um nojo.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
La Cultura del Barroco, de Maravall; La Révolution Française, de Pierre Gaxotte; Micromégas, de Voltaire; Sertões, de Euclides da Cunha; A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa; Coisas Espantosas e Vulcões de Lama, de Camilo, etc.

9. Que livro estás a ler neste momento?
ระยะทางเสด็จ พระราชดำเนิน ประพาศประเทศยุโรป รัตนโกสินทร, ou seja, o diário da viagem de Rama V à Europa em 1897.

10. Indica dez amigos para responderem a isto.
Por favor...... só dou dois,pois parece que os outros já responderam. Ao André Azevedo Alves, do Insurgente e à Senhora Sócrates.

24 junho 2011

Bem-vindos ao cortiço



Os antropólogos andam inebriados com a descoberta nos confins da selva amazónica de uma comunidade índia da qual havia apenas vagas referências. Não compreendo a excitação nem a alegria. A selva amazónica tem sido tão maltratada pelos entusiastas do "crescimento económico", do "business", do "desenvolvimento" e do "progresso" que dentro de décadas, quando a última árvore for sacrificada nos altares do capitalismo desmiolado, aquele imenso país do tamanho de um continente estará cheio, do Atlântico aos contrafortes dos Andes, de gente ranhosa, maltrapilha, violenta e ébria habitando favelas de zinco a perder de vista. É o progresso. Estes desgraçados índios que até hoje falavam com os deuses e tinham por interlocutores as estrelas, os planetas, os rios os bosques, devem andar excitadíssimos com a expectativa de passarem a usar calças e camisa, de ascenderem a cidadãos da república brasileira e prestar culto à religião democrática. Podem ter a certeza que, passada a vaga dos antropólogos - que os estudarão como a uma comunidade de orangotangos - virão os pastores evangélicos, os homens do recenseamento, os cobradores de impostos, os recrutadores, as caravanas dos demagogos políticos e até os turistas sexuais. O mundo moderno é uma má-rá-vi-lha.

A ditadura do hórrido



Louis-Alexander Désiré, um miúdo cheio de talento que se revelou há dois anos, viu as suas esperanças espezinhadas por um desses júris semi-letrados que impõem a ditadura do hórrido. Argumentando ser "barroco" e "reaccionário", puseram-no fora, não sem antes o rapaz lhes dizer o que pensava da França de hoje. Ver em Le Chardon Ardent.

22 junho 2011

Faz hoje 70 anos: o mais importante acontecimento do século XX



Passam hoje 70 anos sobre um acontecimento que marcou decisivamente a história mundial, sem dúvida o acontecimento axial do século XX. A decisão de invadir a URSS é um daqueles raros momentos em que o passado sucumbe de morte súbita e o futuro depende, apenas, do resultado das acções dos homens. Muitas centenas de obras foram desde então escritas sobre a mais mortífera das campanhas militares, mas aquela cujo título melhor revela a tragicidade e absoluta imprevisibilidade do resultado são as memórias do Generalfeldmarschall Erich von Manstein, que lhes chamou de Vitórias Perdidas.


Hitler repetiu o erro de Napoleão. A invasão da URSS era deseconselhada pelos homens de bom senso. Era um erro económico, pois a URSS só ofereceria vantagem se fosse tomada incólume. Se capturada já destruída, seria um fardo e não uma vantagem. Foi tudo estudado até ao pormenor, mas como muitas vezes acontece, as premissas eram erradas e tudo correu mal; ou antes, foi uma sucessão de grandes vitórias tácticas sem vitória final. Foi, sobretudo, uma enorme derrota estratégica. A URSS era já tão forte industrialmente quanto a Alemanha. Derrotá-la era, pois, no mínimo, uma incerteza. Era uma campanha que não podia reproduzir as vitórias alemãs de 1940. Os nazis teimavam que sim, tão cegos andavam. A URSS, no momento da invasão, era militarmente mais forte que a Alemanha. Aconselha a doutrina que a proporção entre aquele que ataca e aquele que defende deve ser de 3 para 1. Em Junho de 1941, a URSS tinha mais soldados, mais taques, mais canhões e mais aviões que a Alemanha. Mesmo obsoletos, estavam na defensiva, ou seja, em vantagem táctica.


Foi, também, uma derrota política. Hitler dizia que bastava dar um pontapé na porta, para que todo o edifício caísse. Foi uma derrota da inépcia dos decisores políticos, pois desde cedo a ideologia conduziu as operações, substituindo-se à visão dos militares. Ora, o que fizeram os alemães ? Deram ao governo soviético a legitimidade que lhe faltava desde 1917. Mais, Hitler permitiu o nascimento da cidadania soviética, pois desde os primeiros momentos da campanha desvaneceu-se a esperança de uma libertação do jugo comunista. Os alemães vinham como conquistadores e não como salvadores da Rússia, a Ucrânia e dos povos do Caúcaso. A derrota alemã podia ter sido apenas o fim do nazismo, essa variante negra do bolchevismo, como notou Alain de Benoist, mas foi mais. Hitler levou a Europa à destruição, trouxe americanos e russos para o continente, provocou o colapso dos impérios coloniais e o fim do Euromundo.


21 junho 2011

Fofoca da tomada de posse: Miguel Relvas e o café entornado



Combustões esteve na tomada de posse. Ninguém viu, mas foi um transtorno que fez correr meio protocolo, um condutor em busca de uma camisa e de uma gravata, mais secretárias de secador em riste procurando salvar a imagem de Miguel Relvas. Explico. O ministro deixou cair inteirinha uma chávena de café sobre o peito. Não podia tomar posse naqueles preparos e foi necessário sangue frio para resolver a situação. A nódoa era enorme, a camisa enegrecida, a gravata a pingar, forro do casaco, calças, tudo. O ministro saiu-se bem, com muito fair play, auto-domínio e até um sorriso cheio, entre o envergonhado e o resignado. Foi para um gabinete do palácio, esperou pacientemente a muda de roupa e lá apareceu, meia hora depois, vestido para assumir as responsabilidades. Começa bem e não se perdeu em lamúrias nem despejou a ira sobre o secretariado. Deixou-se vestir, secar e pentear, o que é bom para um governante.


Guardia Vieja

20 junho 2011

Bons augúrios, governo "retornado"



Contas feitas, 30% dos titulares sobraçando pastas ministeriais e secretarias de Estado são africanos portugueses. Excelente notícia, depois de décadas de gente vinda das berças beirãs e algarvias. É uma questão de escala, Angola e Fornos de Algodros, Moçambique e Aljezur, estão a ver ? É, também, um aferidor de patriotismo. Onde há um africano português, as possibilidades de mau hálito anti-português e poluição ideológica são mínimas. Que os novos ministros e secretários de Estado venham com espírito de Roçadas e Mouzinho e vejam grande, pensem grande, fujam às filigranas e ao pequenino. É tempo de lançar duas pazadas de cal viva sobre o cadáver da geração de 60, decerto a pior, a mais cúpida, improdutiva e deletéria de que há memória na história de Portugal. Que venham os retornados !