18 junho 2011

Do fundo do coração

Já não há palavras. Só resta a esperança. Boa sorte, para nosso bem, é quanto desejo a esta que pode ser a última tentativa para travar o abismo. Que os portugueses não usem a democracia para se ferirem. Que o partidismo cego ceda perante o alarme. Do fundo do coração, boa sorte Passos Coelho.

17 junho 2011

Liberdade de fugir



Por cada ano que passa, setenta a setenta e cinco mil portugueses saem do país. Voltam as costas. Batem com a porta. Dizem: "estou farto". Não, privações e ausência de horizontes económicos não são razões exclusivas para o exílio. Eu não tenho apertos financeiros e também sonhei com a fuga. A atmosfera do país tornou-se irrespirável. Um fulano tem um, dois ou três problemas e culpabiliza-se. Depois, começa a pensar e ao internar-se pela casa dos 40 tem dúvidas - dúvidas que se vão adensando - e chega à terrível conclusão que nada fez de errado, que é bom trabalhador, estudou, aplicou-se, superou-se. Erro trágico: não faz parte de pandilhas, lóbis e curibecas, não é um idiota, tem opinião. Olha à volta e verifica que tudo está nas mãos de nulidades, que gente insignificante montou uma verdadeira conspiração de imbecis e soldou as portas de ferro, que o Estado são "eles", que um concurso público é uma farsa e que ninguém entra ou sai. A saída, meus senhores, é a única resposta. Não morram emparedados vivos. "Eles" não deixam que V. existam; "eles" só o aceitarão se alguém vos passar o certificadozinho de imbecil; "eles" estão "lá" há quarenta anos, ou antes, estão "lá" os avôzinhos, os paizinhos e os filhinhos e não vão largar o osso tão cedo. No fundo, temos sorte, pois subsiste a liberdade, a liberdade de fugir.

Sim, a liberdade é coisa bonita, mas olhando para as últimas décadas, a democrcia parece só ter servido para os portugueses se ferirem mutuamente. Depois, transformou-se em oclocracia, antes de se coroar como cleptocracia. Só falta o estádio pornocrático, já instalado em Itália.

15 junho 2011

A miséria da plutocracia



Os vermelhos voltam à carga, agora com a irmã de Thaksin. O tempo da infiltração comunista, dos arroubos revolucionários e incendiários parece ter passado para dar lugar à caricatura falante. O não discurso e o vazio absoluto podem esconder perigos, para além da ingénita estupidez galinácea da não-candidata. O exército - a mais democrática das instituições do Reino - já veio advertir que a mais leve beliscadura na monarquia terá consequências. Ouça o leitor com atenção - ria-se da vaporosa estupidez, da inconsistência, do tom de quem vende o remédio para a dieta ou os cravos nas costas - e diga para si mesmo que, afinal, os politiqueiros de S. Bento são verdadeiros Aristóteles quando comparados com esta Apsara saída de uma família que se considera profissonalizada na política. No fundo, doa a quem doer, a ideia de democracia parece consituir uma nobre crença, mas quando nos aproximamos da realidade sacode-se-nos a alma. A plutocracia é isto: a menina Shinawatra, de uma ignorância espantosa, rica como Cressus, prometendo aos pobres a religião dos telemóveis, dos cartões de crédito e dos grandes supermercados para todos. Alienados deste mundo, uni-vos !

Prosas fantásticas: Otelo e a odalisca




"Os africanos que levam para os italianos exporem em Turim eram notabilidades da Abissínia. Um rapaz espadaúdo e forte, com fisionomia aberta e rasgada, era filho de um régulo amigo da Itália. O outro era um guerreiro que mostrava com desvanecimento os braceletes de prata, indicando cada um as mortes que havia feito em combate (...). Guardava, desconfiado, uma preta, sua mulher (...). Enquanto ela se desvanecia, sabendo-se observada e apreciada, ele remexia-se, abrasado em ciúmes e com ares ameaçadores de algum feroz Otelo".


Adolfo Loureiro, No Oriente de Nápoles à China, Lisboa, Imp. Nacional, 1897.

14 junho 2011

Prosas fantásticas: a mulher-criança inglesa


"O resto dos passageiros eram ingleses: sete homens e uma dama, tão feia quanto uma inglesa sabe ser, mas que trajava sempre um vestido branco, com saia curta, como usara uma criança de pouco mais de dez anos".


Adolfo Loureiro, No Oriente de Nápoles à China, Lisboa, Imp. Nacional, 1897.

13 junho 2011

O mistério dos primeiros-ministros desaparecidos

É estranho que os três últimos titulares da chefia do governo - Guterres, Barroso e Sócrates - se tenham decidido pela emigração. Talvez seja esta a prova mais categórica do estrondoso fracasso do regime.