07 Junho 2011

Não arranquem a cabeça da boneca




Como diz um amigo meu, "espero que agora não sintam a tentação de arrancar a cabeça da boneca", referindo-se, claro, à coligação PSD-CDS. O líder do PP é, sem sombra de dúvida, um homem intelectualmente superior - um quase gigante no formigueiro indígena - mas pede-se por todos os tronos, altares, querubins e potestades que se domine, não se deixe tragar pela hybris, não se deixe incomodar pelas atoardas reles da mulher barbuda e afins, conheça o limite razoável, compreenda o seu lugar de número dois e saiba que esta é a última oportunidade do regime e, quiçá, do país. Não arranque a cabeça da boneca, isto é, não queira ver como é a boneca por dentro, desengonçando-a irreparavelmente. PP sabe que o novo Primeiro-Ministro parece ser um homem sério, impoluto e bem intencionado, pelo que o deve ajudar. Não arranque a cabeça da boneca !


Quanto ao PSD, deve começar hoje a aprender a respeitar o CDS como aliado e não como satélite. O CDS tem gente válida e possivelmente mais coerente doutrinariamente que o PSD. Aprendam a viver com um parceiro menos rico em votos, mas mais coerente. Não se pede nem uma relação de amor, nem um casamento. Exige-se-lhes um compromisso de lealdade em defesa da casa comum que é Portugal. Não arranquem a cabeça da boneca !

06 Junho 2011

6 de Junho, dia D+1: o ódio, a ingratidão e a adesivagem



"Ils déménagent", ou, mais prosaicamente, eles fazem as trouxas. Hoje, um pouco por todo o Estado, os telefones não param. Pedidos, súplicas, silêncios, conversas em surdina. O emprego que está por um fio, a direcção geral que "cai com o governo", o tempo que se esgotou, as inimizades e invejas que se fizeram. Quem ainda na sexta-feira não se dignava dar os bons-dias; quem não recebia e mandava dizer "lá está esse chato, diga-lhe que estou em reunião"; quem se sentava no carro de hierarca e esperava que o motorista - um pobre diabo com o dobro da idade do micro-sátrapa - lhe fosse abrir a porta, quem tinha as ajudas-de-custo, as cadeiras D. Maria I, os candelabros requisitados aos museus e palácios que foram dos nossos reis e por dois ou três aninhos pertenceram a essa gente da geringonça; quem nunca trabalhou, começou por colar cartazes lá da secção e acabou com um curso poligrupo e alcandorado a senhor presidente disto ou daquilo; em suma, essa peonagem pirosa de parvenus deve estar assarapantada.


É sempre assim quando cai um governo, a fatídica mortandade das notabilidades que mal saem da barrica de ilusões deixam de ser reconhecidos na paragem do autocarro que os leva de volta para Loures, para Santo António dos Cavaleiros ou para o Fogueteiro. Os outros, os que querem entrar, estão também agarrados ao telefone. Esperam a luz, comem os dedos e roem o estômago. Insistem, não largam a porta da potestade da secção do partido. Há poucos lugares, a vaca emagreceu e a fila de peticionários já dobra a esquina; aliás, uma das esquinas, a da Buenos Aires e a do Caldas.


Depois, há ódios, como todos os ódios irracionais. Agora querem todos escorchar. Nunca houve socratistas, nem mesmo no PS. Como sempre em Portugal, há que procurar o culpado. Pior que o ódio, há a traição e a ingratidão. Muitos dos que serviram e juraram lealdade a Sócrates, prestarão juramento de fidelidade a outro, conquanto os mantenham no lugarzinho. Insistem e batem-lhes com a porta na cara, fazem uns telefonemas e voltam no dia seguinte. Podem cuspir-lhes em cima e até cobri-los de impropérios, mas amanhã lá estarão de novo. E conseguem. Os collabos de ontem são hoje os resistentes de sempre. Vão-se despir !



Liebe kommt einmal

02 Junho 2011

Os nossos Childericos

Quadro de Evariste Vital Luminais, Chiderico tonsurado



Childerico III era um rapaz enfermiço, tímido e prisioneiro do Prefeito do Palácio, Pepino, o Breve. Descendia de uma grande linhagem de reis batalhadores, mas acabou tonsurado e entregue à guarda de uns piedosos monges dele compadecidos. Pepino limitou-se a pedir ao Papa que anulasse a sagração do Rei merovíngio, usurpou o lugar de Childerico e até lhe poupou a vida.

O destino de Childerico assemelha-se ao nosso. Grandes, ousados e temidos num passado ainda não distante, insultados, escarnecidos, ridículos hoje. Falta-nos o Pepino português - mas sem E.coli - para abrir as portas a uma nova dinastia, a nova raça, como se dizia na Idade Média. Que venha, depressa.

01 Junho 2011

Vale a pena votar ?

Os números são arrasadores: 40% das crianças portuguesas vivem imersas na pobreza, não têm acesso a alimentação e assistência médica adequadas, pelo que não terminarão o percurso escolar mínimo e entrarão na idade produtiva sem especialização profissional; ou seja, os filhos dos pobres, pobres ficarão. Trinta e sete anos após a dita coisa, já não há desculpas. Um regime quarentão não se pode desculpar com o anterior. A legitimidade moral de um regime faz-se pela obra e não pelas intenções solenemente proclamadas. A constituição de 76 nasceu marcada pela utopia, que no tempo era já há muito uma distopia cansada de socialismo indicando o caminho da miséria. Depois de muitas alterações e revisões, a constituição transformou-se num amontoado de pias mentiras em que todos fingiam acreditar, conquanto se pudesse dar livre curso ao instinto predatório das capelinhas, dos grupos e parentelas. Chegou-se ao fim. Haverá por aí alguém com veia de Demóstenes que me consiga convencer a ir votar num regime que mente e não se emenda ?


Há indiferentismo e apoliticismo. No meu caso, trata-se dos dois.