02 junho 2011

Os nossos Childericos

Quadro de Evariste Vital Luminais, Chiderico tonsurado



Childerico III era um rapaz enfermiço, tímido e prisioneiro do Prefeito do Palácio, Pepino, o Breve. Descendia de uma grande linhagem de reis batalhadores, mas acabou tonsurado e entregue à guarda de uns piedosos monges dele compadecidos. Pepino limitou-se a pedir ao Papa que anulasse a sagração do Rei merovíngio, usurpou o lugar de Childerico e até lhe poupou a vida.

O destino de Childerico assemelha-se ao nosso. Grandes, ousados e temidos num passado ainda não distante, insultados, escarnecidos, ridículos hoje. Falta-nos o Pepino português - mas sem E.coli - para abrir as portas a uma nova dinastia, a nova raça, como se dizia na Idade Média. Que venha, depressa.

01 junho 2011

Vale a pena votar ?

Os números são arrasadores: 40% das crianças portuguesas vivem imersas na pobreza, não têm acesso a alimentação e assistência médica adequadas, pelo que não terminarão o percurso escolar mínimo e entrarão na idade produtiva sem especialização profissional; ou seja, os filhos dos pobres, pobres ficarão. Trinta e sete anos após a dita coisa, já não há desculpas. Um regime quarentão não se pode desculpar com o anterior. A legitimidade moral de um regime faz-se pela obra e não pelas intenções solenemente proclamadas. A constituição de 76 nasceu marcada pela utopia, que no tempo era já há muito uma distopia cansada de socialismo indicando o caminho da miséria. Depois de muitas alterações e revisões, a constituição transformou-se num amontoado de pias mentiras em que todos fingiam acreditar, conquanto se pudesse dar livre curso ao instinto predatório das capelinhas, dos grupos e parentelas. Chegou-se ao fim. Haverá por aí alguém com veia de Demóstenes que me consiga convencer a ir votar num regime que mente e não se emenda ?


Há indiferentismo e apoliticismo. No meu caso, trata-se dos dois.

30 maio 2011

Civismo mercenário






Oito milhões de Euro - 76 por cabeça - para pagar aos esforçados e digníssimos voluntários que no próximo dia 5 sofridamente consagrarão um domingo às aras da democracia. É sabido que tudo tem um preço - até a liberdade - e que os sacristães do ritual das urnas e dos papeluchos ali estão como sentinelas vigilantes da limpidez de um jogo, como o estariam se o regime fosse de partido-único e anti-partidos. Tremo só de pensar que tudo se limita, para a maioria das pessoas, a questões de contabilidade egoísta e que até a contagem de votos e o resultado final do veredicto parece interessar mais aos candidatos - sobretudo àqueles que têm assento e o não querem perder - que à população. Já ninguém faz nada graciosamente; ou seja, acabou a ilusão do povo adulto, consciente e responsável. Não querendo arriscar o pior, diria que a generalidade dos eleitores trocaria de bom grado o seu voto por 50 Euro. Discorda ? Pois, pergunte na rua a meia dúzia de pessoas se não aceitariam o negócio !