04 maio 2011

Mata o branco ou o conceito de povo indefeso


Encontrei por mero acaso um texteco intitulado "O Nepal e as epopeias tradicionais de um povo", editado em separata do Boletin de la Associación Española de Orientalistas e da autoria de um "académico" português. Merece ser lido; aliás, merecia ser queimado para bem do autor. Se um dia eu tivesse assinado tal coisa, pedia encarecidamente a qualquer amigo que deitasse a mão a tamanha nódoa e a fizesse desaparecer. De coisas destas diria o meu velho amigo Augusto Mascarenhas Barreto tratar-se de lixo quimicamente puro, não merecendo que lhe ponhamos os dedos, nem tão pouco as narinas. Porém, tratando-se eloquente instantâneo da queda da universidade, da demissão da inteligência e do iletrismo cavernícola que conquistou editoras, prémios, bolsas e faculdades, dá-nos que pensar como foi fácil fabricar a geração rasca e, logo, empurrar-nos para a débâcle em que nos encontramos.


O texteco foi "produzido" - importa usar o palavrão, a cheirar a sovaco de fato-macaco - em 1988, pelo que se espera que o escriba tenha feito alguns progressos. Ali está tudo o que em "letras" se ensinava: ridicularizar, encontrar "ideologia", decantar "processos de exploração" pela "desconstrução do discurso do colonizador".... Quanto à proficiência do autor para o domínio do nosso idioma escrito, dar-lhe-ia, no máximo, 5 valores. Ora, quem não domina a língua, não pode pensar. Chumbo garantido.



Fiquem lá, então, com umas cascas fedorentas da prosa:



"Desde praticamente o século XVI que a Europa procurou subjugar, pela sua pretensa superioridade, o homem asiático. (...) Dotado de uma amição desmetida, o europeu em breve passava a pretender dominar, também, o interior da Ásia. No que respeita ao caso português, o Nepal e o Tibete (para além do interior da própria Índia) foram alguns dos alvos preferenciais no Oriente. (...) Todo o tipo de evangelização europeia assentava no pressuposto da dominação nesses tempos primeiros da colonização portuguesa no continente asiático. (...) Pressupostos da actuação europeia: a pólvora, o padrão, a Bíblia, a escrita".


"A pretensa superioridade técnica dos europeus (em relação aos asiáticos) assenta num aspecto cultural e sócio-linguístico. Onde chegam, sobretudo em regiões costeiras - o autor quererá dizer ao Nepal e ao Tibete ? - os nossos colocam o padrão das quinas, como significante de terreno conquistado à descrença dos infiéis. A Bíblia é a alegoria da conquista, a tradução superior(izada) de uma tradição escrita, de um código linguístico (semiótico) de sinais".


"Tal conquista, porém, só é possível, na maioria dos casos, graças a um uso concentrado da força. É então que tem lugar a utilização da pólvora. E aí o jogo desleal, o jogo da iniquidade, ganha expressão".


Todo o texto é ilustrado com diagramas/fluxogramas daqueles das macacadas das semiologias. Num destes desenhos, a legenda "povos indefesos". Ri-me até às lágrimas a pensar nos chineses (e nos indianos) na sua terra, a 10.000 km de distância da Europa, no século XVI... indefesos perante 500 ou 600 portugueses. Há problemas irresolúveis. Um deles é o da estupidez humana, o mais difundido mal que afecta a espécie.

02 maio 2011

UFA, o passado de uma ilusão





Jan Kiepura: Heute Nacht oder Nie (1932)

01 maio 2011

O terrível esplendor da verdade



1º de Maio, trabalhadores sempre, sempre ao lado do Rei


Há precisamente um ano, Bangkok estava a ferro e fogo. Para a generalidade dos observadores - aqueles que não observam, mas mentem e manipulam - tratava-se do episódio final do combate entre o "feudalismo" e a "democracia". Estranhei então que os mais acrisolados amigos dos Vermelhos (uma coligação entre o grande capital predatório e o comunismo) fossem, precisamente, os ocidentais prenhes de desdém neo-colonial. Foram semanas de tensão e insuportável campanha de desinformação e intoxicação mediática. As grandes centrais da manipulação global estiveram à altura da sua costumeira falta de escrúpulos, torcendo e espalhando boatos, fazendo crer que havia um "Conselho Privado" (um orgão de Estado) que representava a "aristocracia" (num país onde não há aristocracia titular), que o exército era uma melancia (verde por fora e vermelho por dentro), que as massas trabalhadoras e o campesinato marchariam sobre a capital. Confesso que, então, pensei que tudo estava terminado; que a vaga vermelha venceria. Foi por isso que percorri Bangkok ao longo de dias, de câmara em riste, para colher imagens dos fogos, dos tiros e barricadas.



Desde o início do conflito apercebi-me da grande contradição. Os manifestantes Vermelhos eram pagos, trazidos como servos em colunas, alimentados pelos capitalistas e, por fim, transformados em escudos-humanos de uma clique de aventureiros, ricos e com formação universitária - onde aprenderam a geringonça das "contradições", da "luta de classes" e da "mudança da sociedade - impacientes por chegarem ao poder e transformarem a Tailândia num novo laboratório socialista. Os defensores do Rei, gente diferente, de todas as condições sociais, não era paga, deslocava-se à capital por imperativo de consciência e não pedia, não reclamava, não protestava outra coisa que não o amor à pátria e ao Rei. No dia 23 de Abril, fui a uma manifestação pró-monarquia no extremo oposto da cidade. Foram horas para lá chegar, pis já não havia taxis, autocarros ou mesmo motorizadas. No caminho, ao passar por uma fábriqueta, assisti a algo que me marcou profundamente: um grupo de operários saia, com os seus fatos de trabalho. Pensei: "lá vão os vermelhos para as barricadas".


Pelo fim da tarde, já na manifestação, encontrei o grupo de operários. Eram os mais ruidosos e entusiastas. Não havia ali o patrão, o cacique, o manipulador ou o comissário controleiro. Estavam entre eles, trabalhadores, e a sua fidelidade ao Rei. Os povos, os trabalhadores, têm infusa a percepção de quem os explora e engana. Sabem que os reis são garante da dignidade para quem, nada tendo, precisa de um aliado que os defenda da usura, da propaganda e da manipulação. Os trabalhadores - ou seja, aqueles de trabalham, que criam riqueza, que não pertencem a lóbis e grupos, não têm amigos que lhes arranjem sinecuras - conhecem as durezas da vida. Neste primeiro de Maio, dia de S. José, o carpinteiro, um só desejo: que os meus concidadãos que trabalham como eu desde os 16 anos se libertem dos profiteurs e ganhem o direito pleno à cidadania.


เพลงแม่แห่งแผ่นดิน