02 Abril 2011

Os livros deixam de ser nossos

Bangkok, feira do livro, stand da universidade de Chulalongkorn.

Ao finalizar um livro, o autor deixa de brincar aos pequenos deuses da criação efémera e passa a réu de tudo o que não conseguiu exprimir: das falhas e erros que cometeu, das omissões e, até, de uma ou outra gralha incómoda e traiçoeira que pousou no papel pintado com tinta. É bom ver um livro nosso à venda em livrarias distantes, comprado e lido por pessoas que nunca vimos. Há quem odeie os livros, há quem os queime e rasgue, quem os atire para um canto. Porém, basta que uma só pessoa que não o autor os folheie, critique ou aplauda para valer a pena o esforço. Hoje, em Bangkok, um, dois ou dez tailandeses levaram para casa um livrinho que tenta provar a prioridade portuguesa na abertura do Sião ao mundo contemporâneo. Só isso me enche de energia para fazer o próximo, o tal que prometi terminar e editar este ano. Depois, posso dizer adeus à escrita e voltar ao tempo em que não tinha deveres imperiosos. No fundo, tudo na vida se resume a "perder ou não perder a face". O homem deve ser o único animal que procura voluntariamente a servidão.

31 Março 2011

Vá lá, um ditador que faz jus aos galões



Quando os dedinhos em V e os Allah U Akbar se espalharam por todo o mundo árabe, nessa pseudo-revolução acéfala que ainda ninguém conseguiu definir, cantaram os crentes nos amanhãs ridentes mil cornucópias louvaminheiras a esta primavera dos povos. Naquelas moles não mais vejo que o dedo daquilo que não oferece cartão de visita, mas está sempre como presente-ausente das tramas da intriga internacional. Fez-me lembrar a tal "revolução" tailandesa de 2010, a tal que não foi e que era, afinal, enorme mise-en-scène congeminada pelas agências de imagem acopladas aos parasitas da riqueza alheia. Eles dão democracia e em troca pedem petróleo. No caso da Tailândia, "eles" - refasteladíssimos em sinecuras milionárias e olhando os thais como criadagem - quiseram fazer crer ao mundo que o povo tailandês estava tomado de frenesim libertador e iria destruir o "feudalismo". Não passaram e isso fez-me rebolar de riso. Ao ver tanto farang milionário falhar em todas as previsões, só me lembrei do Jeremy Irons no Madame Butterfly, que enviava para Paris torrentes de relatórios anunciando a iminência da abertura da China ao Ocidente ...em vésperas da revolução Cultural !


Quanto a Kadafi, esperava que desaparecesse e cumprisse a caricatura do ditador no exílio, vivendo como um Cresus. Mas não, deu luta. Um ditador assim, sim. Já estava cansado de ditadores que não dão luta, mas Kadafi fez jus ao estatuto e baralhou tudo. As suas forças recuaram. Depois, tomaram a contra-ofensiva e quando estavam a milímetros de desbaratar os V's dos Allah U Akbar, inventou-se uma intervenção dos paladinos da democracia pelo petróleo. De novo, Kadadi recuou, mas debitam as agências que o efeito ar deixou de ter préstimo. Os aviões sabem lançar bombas, mas sem a infantaria, repetem o Afeganistão e o Iraque. O Ocidente quer guerras limpas, sem o fedor dos campos de batalha. Quer bombardeamentos cirúrgicos, como se tudo fosse uma consola de jogos para miúdos de 12 anos. Kadafi foi ao terreno, ao fumo e fedor da batalha. E agora ? Acho-lhe piada. Evoca-me cada vez mais a figura de Jugurtha, que deu luta a Roma e se transformou em símbolo de orgulho para os povos que não queriam nem a Pax nem a liberdade que a Roma republicana levava na ponta das lanças.

29 Março 2011

Sopeirismo universitário no velório da Sr.ª Campos Ferreira



Postas de pescada, tiques de seriedade "científica", muita universitarite queixo-pousado-sobre-a mão, em suma, um conselho de sábios arrogantes a falar no éter para um país que já não ouve (e se os ouvisse nada compreenderia), lembrando a sem-vergonha sincera e corajosa do velho Leonardo Coimbra que dizia: "às vezes, quando falo, ninguém percebe o que digo; noutras, nem eu percebo o que digo".

A falsa universidade, a ilusão da comunicação, a ciência do nada, desprezíveis tiques de importância daquilo que não resolve, não sabe resolver e impede a libertação. Positivamente, valem menos que um varredor de ruas.

27 Março 2011

Futebóis é kinducam



É-me absolutamente indiferente quem ganha ou quem perde um jogo de futebol, pois só há pouco, entrado nos anos, me dei conta da total ignorância a respeito desse mundo e da sua difícil ciência. É uma fé, uma "mística" como dizem os aficionados do culto do esférico, pelo que não se discute. Não quero cometer a impertinência de zurzir nas ficções dirigentes de quem passa uma semana afogado no vazio existencial para, ao domingo, ir comungar ao estádio, mas parece-me que se levou longe demais a ditadura da bola, tão sem-respeito por quantos dele não partilham que quase se transformou num despotismo. Ontem, já não bastava o lodaçal da roncante e provinciana courela política em que o regime se precipitou, houve tareia da grossa lá por Alvalade. Todos aqueles insultos, ameaças de morte, murros e garrafas parecem-me tão estranhos como os impetos que fazem xiítas e sunitas martelarem-se até à morte, tão estranhos como as lutas entre adeptos de carros que ensanguentaram Constantinopla no tempo de Justiniano e Teodora. Sou um ignorante e essas "fezes" (plural de fé para o Dr. Soares) deixam-me surpreso. Enfim, os futebóis é kinducam !