26 março 2011

É teu o mar profundo


Quando parece fecharem-se todas as portas do futuro, as pessoas voltam-se para o passado. Hoje, o taxista que me levava a casa ouvia uma cançoneta do Calvário. Um silêncio compenetrado, pesado e pesaroso. O homem teria uns sessenta e tal anos e parecia tenso ao ouvir a música que a rádio debitava. Por fim, encheu-se de coragem, voltou-se para trás e disse: "olhe, faz hoje quarenta anos que embarquei para a guerra. Estive lá durante três anos. Serviu para alguma coisa ? Foi para isto que me fizeram nascer, para assistir ao fim do meu Portugal ?"


Para Cantar Portugal

23 março 2011

Desnorte nacional

Andam alvoroçados uns e outros com a queda do governo. A queda de qualquer governo no início de legislatura é um desastre. Andamos a destruir o país alegremente desde 1976, pois que 74 e 75 foram, declaradamente, de fogo-posto. Nos últimos 35 anos tiveram os espanhóis cinco chefes de governo, a Alemanha teve cinco chanceleres e a Dinamarca cinco. Portugal teve 12 (doze), ou seja, um primeiro-ministro cada dois anos e meio. A contabilidade assusta: se para cada governo há em média 14 ministros e 30 secretários de Estado, teremos, em 35 anos, 168 ministros e 324 secretários de Estado.
Se a sucessão fosse ditada por fracturas ideológicas profundas, a alternância política teria como fundamento a diversidade de futuríveis. Mas não, em 35 anos fomos governados pela mesma receita: PS, PS+CDS, PSD+CDS, PS, PSD, PS, PSD+CDS, PS, PS. O regime fechou-se, loteou, dividiu para repartir, apropriou-se da coisa pública, inibiu a sociedade civil, tomou decisões históricas sem ouvir o país. A 3ª República já leva quase tantos anos quantos o Estado Novo e qual é o resultado ? Tornou-se o país mais rico, mais influente na cena internacional, resolveu os problemas, procedeu às tão reclamadas "mudanças estruturais" ?
Ora, o que surge de manifesto é que perdemos a agricultura e as minas, perdemos a marinha mercante a frota pesqueira, destruímos a construção e reparação navais, matámos a metalomecânica, afugentámos as multinacionais e o investimento estrangeiro. Para ludibriar o desastre, fizemos crer aos portugueses que eram ricos, europeus, que o trabalho manual sujava, que era o tempo dos estrategas empresariais, dos gestores de negócios, dos brokers, dos sociólogos, dos economistas e dos informáticos. Casa sim, casa não, uma dependência bancária, pessoa-sim, pessoa-sim, um "doutor" ou uma "doutoreca".
Em 1974 havia 170.000 funcionários públicos. O país tinha 25 milhões de habitantes e 2 milhões de quilómetros quadrados; hoje temos 800.000 funcionários encurralados em 89.000 km2. Está tudo dito.

22 março 2011

Respeito sem temores reverenciais


De um investigador canadiano residente no Sudeste-Asiático, recebi hoje uma simpática manifestação a propósito do livrinho que há um mês apresentei na Siam Society. Diz-me o historiador que se lhe revelou uma perspectiva que desconhecia e documentação à qual aqueles que não dominam a nossa língua não têm acesso, acrescentando que a invisibilidade editorial portuguesa no circuito livreiro é uma das causas para a não-existência de Portugal; ou seja, quem não aparece não é, não existe, está de fora. Tudo o que se fizer para divulgar os imensos recursos bibliográficos e arquivísticos portugueses merece aplauso e se à divulgação se adicionar a perspectiva portuguesa - conquanto séria, fundamentada e rigorosa - pode-se fazer serviço sem atropelo da deontologia académica e amor pelo conhecimento.

No que às coisas portuguesas da Ásia respeita, confesso que já só leio duas ou três autoridades e as restantes, tão estafadas na repetição de coisas sempre glosadas e tão apegadas à miséria das cronologias, ponho-as de parte. Como suspeitava, parece que tudo está por fazer no que ao Oriente português respeita. As pessoas não gostam de trabalhar, pelo que se encavalitam em meia dúzia de topos, não se dão ao trabalho de ler exaustivamente fontes secundárias e primárias, portuguesas como estrangeiras, falta-lhes capacidade hermenêutica, não se conseguem libertar de etiquetas e lugares-comuns; enfim, estão cegas ou deixaram-se enredar na teia de medos e temores reverenciais. Depois, há a atitude. A universidade portuguesa ensina o medo, inibe a liberdade, erige altares e mitos e não se dá ao trabalho de se aventurar no desconhecido.

Estava ontem a dar os últimos retoques num capítulo referente à Missão de Frei Francisco das Chagas Ribeiro ao Sião, entre 1783-85 e pasmei com algumas passagens, plenas de disparates que encontrei em escritos de dois investigadores portugueses que verteram opinião sobre essa embaixada. Parece que tendo a evidência em frente dos olhos, se mostraram incapazes de compreender e interpretar o mais escorreito português dos documentos. Depois, glosando uma obra francesa de finais do século XIX, encontrei, pela voz de um francês, aquilo que os nossos preclaros "historiadores" não haviam conseguido ler... em português !
Afinal - e isso não compreenderam as nossas sumidades - houve uma Entente luso-francesa na Ásia entre 1777 e 1789. Portugal, que saíra vitorioso da Guerra dos Sete Anos, não queria uma Inglaterra demasiado forte - aliada, mas perigosa - fez as pazes com Roma a respeito das jurisdições apostólicas, aceitou engrenar na "Liga dos Neutrais" congeminada pelo conde Vergennes, o homem que dominou a política externa de Luís XVI e juntou-se à França na intervenção no Vietname. Está lá tudo nos documentos, mas a culpa não é dos documentos, mas de quem os não consegue ler.

20 março 2011

O que diz o Gurkha sobre a Líbia


Tenho um empregado Gurkha, sim, daquela "raça marcial" que serviu o Raj britânico e ainda possui uma brigada de elite no exército de Sua Majestade. Hoje, tinha a tv acesa e o noticiário debitava as imagens dos bombardeamentos que ontem a USAF, a RAF e a FAF lançaram sobre o exército líbio em nome de um qualquer direito supostamente outorgado pelas Nações Unidas. O direito, concerteza, é o da força e não o de qualquer princípio outro.

O homem olhou demoradamente, baixou os olhos e enquanto trabalhava disse sem a mínima alteração do habitual tom de voz calmo: "boss, eles querem dar a liberdade aos líbios e em troca pedem o petróleo. A partir de hoje o boss podia cortar-me o salário e dar-me democracia. Se eu não aceitasse a democracia em troca do trabalho sem ordenado, o boss batia-me até eu aceitar ser livre". E há quem diga que as almas simples como a do Guran não encerram mais conhecimento que todos os cartapácios de ciência política e relações internacionais !

Resumindo os últimos episódios.

1. Dá-se um levantamento espontâneo do "povo líbio" contra o tirano. O povo que se dizia armado apenas de convicções democráticas leva tudo de vencida e chega às portas de Tripolí. Desarmados, combatem o exército líbio durante três semanas. As tv's afluem à Líbia e os pacíficos protestantes estão armados até aos dentes e nos últimos episódios até já pilotam aviões.

2. O tirano, porém, não abandona o seu posto e reconquista o terreno. As tv's começam, então, a apresentar o governo líbio alternativo existente em Londres e afirmam a pés juntos que é uma distinta plêiade de estadistas de craveira que vai levar à Líbia a liberdade. Lembro-me dos notáveis líderes da oposição a Saddam que vieram nos contentores da "força internacional" que invadiu o Iraque e tem dado àquele país anos de abundância, paz e felicidade.

3. Agora, como os líbios não se sabem libertar, fala-se num corpo expedicionário que os libertará das agruras do despotismo.

Olha, o Gurkha tem razão. Por que razão não há bombardeamentos libertadores sobre a Costa do Marfim ? E as Nações Unidas, tão distraídas estavam quando permitiram o genocídio no Ruanda ...