19 março 2011

O prémio Nobel da Paz...



... dirigiu-se ao governo líbio e ameaçou com desbragos de violência intimidatória que fariam enrubescer Herr Hitler. Nada de estranhar do porta voz do "arsenal da democracia", que em 1945 lançou duas bombas atómicas com o estulto argumento de "impedir carnificina desnecessária" e mandou destruir Dresden para "abreviar o conflito". O Prémio Nobel da Paz fez em cinco minutos tábua-rasa de quinhentos anos de Direito Internacional Público. Façanhas do espírito moderno. O Ocidente está reduzido à mais nua política de canhoneira e entregou-se sem condições aos bárbaros Odoricos que se julgam depositários de uma civilização que nunca compreenderam.

16 março 2011

Nostalgia reaccionária

A natureza deixou de ser um mal nos séculos XVII e XVIII para passar a ser o local onde se localizava a perfeição divina. Julgaram os filósofos que os homens se aperfeiçoariam através da natureza e apresentaram-na como imagem da perfeição divina, a imagem da divindade. Daí que a ciência, a nova relação do homem com Deus, destronasse a "superstição". A ciência traria a felicidade. Onde antes havia o temor reverencial, passou a haver cientistas em busca de leis inscritas por Deus; depois, os engenheiros simplificaram a ciência, aplicando-a às máquinas e destronaram os cientistas chamando-lhes "especuladores" vãos.

A ideia de felicidade em articulação com a de natureza pródiga só podia ser interpretada como possibilidade de intervenção técnica (económica, industrial) em favor do homem. Passou-se da interpretação teológica da natureza para a teleologia da felicidade e do Paraíso ao alcance da mão armada com a tecnologia. Era o progresso. O progresso trouxe mais vidas, multiplicou-as, trouxe mais comunicação, máquinas, informação, cidades, consumo. Trouxe tudo, até dinamite, metralhadoras, campos de concentração, combóios de morte, cidades crescendo como metástases de cancro.

Para controlar as forças do progresso, o Estado tornou-se mais forte, cresceu sobre os homens e as sociedades. Cresceu em polícias secretas, em vigilância, bilhetes de identidade e passaportes. A violência passou a ser impessoal, coisa de massas e em nome destas nasceram as ideologias da felicidade colectiva contra a felicidade dos indivíduos. Foi necessário inventar as guerras totais para pôr fim às ideologias totais. A bomba atómica p arecia ser a última ratio da irracionalidade lúcida. Esperavam que, depois de Hiroshima, se voltasse à felicidade. Ora, a natureza, voltou a ser mal, destrói a presunção da potência humana e a tecnologia vai matando o planeta. Onde antes havia o bárbaro especializado no ferro das espadas, temos hoje os novos bárbaros manipulando as gónadas e os átomos. Conseguiram ? Pois, olhem para o Japão. Estamos a assistir em directo ao fim da tradição racional ocidental.
Assisti há minutos a uma intervenção de Patrick Monteiro de Barros cantando hossanas à tecnologia. Registo velho do optimismo do homem-deus, tão velho como Comte ou Júlio Verne. O discurso soa a exultação fingida. O homem fala em "crescimento", "desenvolvimento" e mercado como se tais coisas fossem um bem em si. Sim, no fundo, na perspectiva dele, tem razão: dinheiro, negócios e mais nada. Que venham uns Virgilios e se calem, de vez, os bárbaros da baixa feitiçaria.

15 março 2011

Prosas fantásticas (III): fomentava desprezo

"[Frei Tomás de Florença] fazia gemer a seu corpo debaixo do açoite das penalidades, tratando-o como a escravo rebelde, sem dar-lhe tréguas nem esperança delas. Seus cilícios faziam espanto à vista pela espereza; suas disciplinas atemorizavam o ouvido pelo rigoroso dos golpes; cobria sua nudez uma só túnica, fabricada de remendos sem arte que fomentava mais o desprezo que o calor. (...) Seu jejum se continuava sem interrupção por todo o ano, não sendo sua ordinária refeição senão pão e água em escassa quantidade. (...) Passavam-se muitos dias sem tomar refeição alguma, sustentando-se só, ou das doçuras da contemplação divina, ou do pão das suas lágrimas. O sono - que tomava sempre na terra nua - era tão breve que quase não o era".


Frei Apolinário da Conceião, Pequenos na terra, grandes no Céu (...), Lisboa, Officina da Musixa, MDCCXXXII, p.165

E o Gungunhana, pá ?

14 março 2011

É tão bom matar mitos


A nossa equipa de investigadores vai de vento em popa. Ainda o cadáver do mito da prioridade britânica na integração do Sião na comunidade internacional estava a aguardar sepultura, deitado na laje branca do Tribunal da História e hoje, pela tarde, descobrimos um novo e surpreendente documento que dá conta de algo ainda mais arrasador. O livrinho de nossa autoria que há dias foi apresentado na Tailândia ofendera os brios britânicos. Em 1820, Portugal negociara com o Sião um tratado escrito. Para alguns, terá ficado a incerteza da efectividade de tal tratado. Agora, surgiu algo bem mais surpreendente.

Em 1851, o Rei Mongkut ascendeu ao trono e, receoso da expansão britânica, procurou de novo Portugal para actualizar os termos da abertura do seu país ao euro-mundo. Enviou a Macau uma mensagem confidencial pedindo aos portugueses um novo tratado. Infelizmente, os costumeiros atrasos da nossa maquinaria burocrática impediram que Lisboa pudesse responder a tempo.

Afinal, antes do tal Sir John Bowring - governador de Hong Kong e ministro plenipotenciário da rainha de Inglaterra - chegar a Bangkok com o texto do tratado anglo-siamês de 1855, já em Lisboa havia uma carta assinada pelo Rei do Sião requerendo urgente assinatura de um tratado com Portugal. Os ingleses vão ficar furibundos por lhes andarmos a revolver os mitos. É um prazer matar mitos !
Poderão alguns dizer que nada disto é importante. Não passa de história. Sim, é história, mas é a parte de leão da memória da Tailândia moderna, aquela que é ensinada nas escolas e produz imagens poderosas nos cidadãos. Mostrar-lhes que Portugal estava lá e era o aliado prioritário do Sião na construção do tempo novo é reduzir a dependência psicológica em relação a britânicos e americanos. Fazer história é, também, fazer o presente.