12 março 2011

A barricada de panados no pão

Duzentos mil desceram a Avenida para pedir o que não se pode pedir. Revolta de uma geração, levantamento contra o regime, reivindicação de uma nova política e de um novo rumo ? Não, infelizmente, os portugueses querem do mesmo mais e parece não terem dado as costas aos estafados mitos de 40 anos de regime. Tudo o que ouvi limitou-se a pedir, exigir mais dinheiro, mais crédito, mais "bem-estar", mais "modelo social europeu", numa profissão de fé nas calamidades ideológicas que nos trouxeram a este atoleiro. Foi o albergue espanhol. Os mesmos de sempre, que nunca abandonaram a ribalta, que são cativos e se julgam, dentro ou fora dos arranjos, os donos do futuro.

A revolução e a sub-cultura dos anos 60, as antiqualhas que trouxeram a anomia, desconjuntaram hierarquias, profanaram a educação, a justiça, a ordem e o orgulho português, mais a crendice nas soluções miraculosas, com cravos e grândolas vilas à mistura, uma longa procissão de equívocos onde tudo ressuma a velho, experimentado e falhado.

Os portugueses desabafam, acusam, listam os inimigos reais ou imaginários. Estão cansados, desiludidos, mas não avançam. Hoje à noite, sem revolução, nem mesmo uma janeirinha, gastarão horas a contar as façanhas de um longo dia em que a extrema-direita, o bloco de esquerda, o SOS, mais as amas, os precários, os recibos verdes, a JSD e o inefável Coelho da Madeira deram largas ao desabafo sem consequências. Não houve vibração, uma ideia, um princípio proclamado. Cada um estava ali para esconjurar fantasmas e se lhes dessem oportunidade para percorrer o cavaquismo, o guterrismo, o barrosismo e os bons e velhos tempos de cada-família dois carros, duas casas a crédito barato e uma viagem anual à república Dominicana, voltariam aos entusiasmos dos "novos desafios", dos "cursos da formação profissional", do banco em cada esquina.

A democracia parece estar em queda e a crítica realista à partidocracia está a conquistar gente à esquerda e à direita. O grave de tudo isto é que nada há que se possa apresentar como alternativa a um regime que não se discute e se foi transformando lentamente num aquário. Parece, infelizmente, que o problema não é conjuntural, mas algo ainda não completamente assumido por quem vira as costas mas não ousa pensar além do protesto.

O radicalismo é, em Portugal, coisa que não ultrapassa a piada. O extremismo foi sempre, entre nós, coisa para pequenas seitas e grupúsculos e há sempre um profiteur de jeunes a oferecer a miúdos semi-letrados soluções de há oitenta anos. Vi fulanos entrados nos 50's, que andam na margem da margem do clubismo político, gritando estribilhos, delidos de décadas, que falharam sempre e nunca tiveram a elementar coragem para pensar, por um minuto que fosse, na pequena responsabilidade que, eles também, tiveram no curso descendente da vida portuguesa.

Depois, o tom, o tom de uma geração que é a imagem acabada da educação que o regime proporcionou a duas gerações: a geração rasca e os seus educandos da geração à rasca. Venham mais rendimento mínimo garantido, mais sociólogos, mais funcionários públicos, estatais e camarários, mais subsídios de inserção, mais "ponha-se daqui para fora senhor guarda", mais "direito à indignação e ao protesto", mais grafittis e objecção de consciência e muitos, centenas de milhares de doutorzinhos e doutorecas produzidos pelas "privadas". Só não vale o trabalho manual. Operários ? Camponeses ? Padeiros ? Torneiros e electricistas ? Qual quê, para isso que venham os tailandeses e os romenos para a recolha da azeitona, os ucranianos e os nigerianos para a construçãso de auto-estradas e brasileiros para servir nos restaurantes.

A pior coisa do mundo é uma multidão sem cérebro. Ali tudo rolou avenida a baixo sem uma ideia. Gente e mais gente sem nada que pudesse remanescer. A grande mole esvaíu-se. Não houve um orador, não surgiu um líder de palavra mágica e arrastadora que garantisse nova enchente. Foram ali e não levaram nada para casa.


As pequenas invejas, as denúncias, tudo, claro, motivado pelas melhores razões. Até soube que há um engenheiro qualquer-coisa que teve a casa que o portador do cartaz cobiçou. As pessoas estão zangadas, mas não vão mais além. Hoje, Sócrates, Cavaco, os senhores deputados, os directores-gerais, os presidentes das EP's, mais os senhores autarcas e a infindável legião de boys podem dormir à vontade.





Le Chant du Pirate (Edith Piaf)

10 março 2011

Desonestidades


Tão falho que sou de inteligência e argúcia, só há muito pouco tempo me apercebi de meia dúzia de evidências, por si suficientes para impugnar qualquer cândido sonho de intervenção política ou, tão só, de interesse pela coisa pública.

1. A esquerda portuguesa é, absoluta e inapelavelmente, desonesta: vive derrancada na cupidez de dinheiro e poder imerecidos, é predadora, intolerante e implacável ante tudo o que desconhece, condescendente e até paternalista para quantos não ousam incomodá-la, para além de ser insuportavelmente oligárquica e confiscatória. Gerou a maldita geração que tem hoje sessenta e picos anos, não deu um escritor ou um estadista, abjurou de todas as crenças juvenis e engordou alegremente. Diluiu-nos o passado, envenenou-nos o presente ao limite da pelintrice e emparedou-nos o futuro. Não saem, não sairão e teremos de os suportar por mais vinte anos, até que a biologia se esgote.

2. A direita portuguesa, essa, não existe. O que dela dá sinais resume-se a costumes, mais costumes, moral, moralzinha, predicações apocalípticas, teorias da conspiração, jeremíadas e sebastianismos. Tornou-se azeda, má, frustrada e como não tem qualquer formação - nem artística, nem literária, nem histórica nem coisa-alguma - todos os "valores" que proclama, o patriotismo que invoca e as bastas florestas de ideologia que glosa ad nauseam sem jamais lhe ter lido os textos transformaram-na numa caricatura. É o a-poder, um estado de espírito, um constante desabafo. Não vai a sítio algum e foi, com a sua ausência de inteligência, responsável pelos maiores desastres semeados pelas tontas bem-aventuranças da esquerda.

Convoca-se para sábado uma manifestação de "1 milhão". Tristes de nós, falhados na cópia das Europas, das URSS's e das Américas, agora reduzidos a macaquear o "modelo tunisino", o "modelo egípcio" o e "modelo yemenita". É evidente que tal manifestação não leva a nada. Começa no Marquês, acaba no Rossio e aí acaba a "revolução". Carrega esta manifestação dois mitos de sinal contrário, mas perfeitamente coincidentes com a direita e a esquerda que temos: o mito direitista da Maioria Silenciosa e o mito esquerdista da Revolução. A Maioria Silenciosa em Portugal quer duas coisas: ver televisão, com muito futebol e Goucha e ter um copo na mão e um cigarro nos queixos. Revolução ? Que canseira ou que tremendo disparate, pois aqueles que estão no poder há quase meio século são, acabadinhos, os arautos da revolução.

08 março 2011

Prosas fantásticas (II): o caso das criancinhas desaparecidas


"Caldas da Rainha é a terra onde desaparecem mais criancinhas. Eu que o diga! Gostava ainda muito mais de Caldas da Rainha se por ali não me tivessem desaparecido bastante umas quantas. Faz pena e mete dó. A mim, que eu sei. Desapareceu primeiro a Dona Eugénia Soeiro de Brito, Belzebu-pêra-e-bigode, que, como solteirona e crente e apaixonadíssima, era uma autêntica garota em matéria de comportamento social e, também, lógico, sexual. Desapareceu-me depois o meu Pai, um metro e quarenta se tanto. (...) Lembro-me dele: se andasse de calção e fato à maruja passava bem por treze ou catorze anos."


Luíz Pacheco, Exercícios de Estilo, Estampa, 1973, p.211

07 março 2011

Prosas fantásticas (I): a Rebelião da Carne


"A natureza deu ao Padre António [Ventimiglia] uma constituição robusta; porém, ele para dominar e abater a tão perigosa rebelião da carne, enfraquecia-a com ásperas e contínuas penitências. (...) Desejoso sempre de padecer mais e mais, em cada noite tomava uma sangria e descansava sobre a terra nua".

Dom Tomás Caetano de Bem, Memórias históricas cronológicas da sagrada religião dos clérigos regulares em Portugal e suas conquistas nas Índias Orientais, 1794, p.364

O cosmopolitismo de Benghazi


Os especialistas reúnem mil argumentos para abrir portas à secessão da Cirenaica. Afirmam a pés juntos que Benghazi é ... um centro cosmopolita. Ora, pelo que me é dado ver pelas imagens das tv's, aquilo - a Líbia toda, da Cirenaica à Tripolitânia - parece-se com uma imensa costa da Caparica, dos abarracamentos aos restaurantes de cadeira de plástico, povoada por gente que pouco difere daquela que podemos encontrar na Feira do Relógio. O único momento cosmopolita na história de Benghazi parece coincidir com passagem de Montgomery e Rommel por tão arenosas, poeirentas e lunares paragens. As pessoas pelam-se por mentiras e quanto mais atrevidas, melhor. A Líbia, como a Argélia e a Tunísia, pararam no tempo no dia em que se procamaram "livres" e "independentes". O resto é paternalismo, preconceito, mito e tabú. Só a estupidez, o medo de se dizer a verdade ou a pulsãozinha neo-colonial -aquela que rouba mas não se sacrifica - podem encarar tais "Estados" como entidades dignas do respeito e consideração !