05 fevereiro 2011

Coisas de jornais e matéria académica: a "guerra" entre a Tailândia e o Camboja


Há quem deteste ler e quem pense que o opiniarismo se pode substituir ao conhecimento. Ontem, num jornal de "referência", escrevia-se que há uma guerra de fronteira entre a Tailândia e o Camboja sobre uma zona "mal demarcada", não deixando de informar que tal conflito foi há muito resolvido por uma deliberação da ONU em favor das posições do Camboja. Ora, há que saber um pouco de história para desmontar tais argumentos. Em primeiro lugar, tal demarcação foi imposta por uma potência colonial (a França) que recorreu à força para a obter. E segundo lugar - e isso não passa pela cabeça de quem escreve tais alarvidades, pois "os livros não servem para mais nada que decorar a estante lá de casa - a noção de fronteira nunca existiu no Sudeste-Asiático.

Expliquemos. os Estados do Sudeste-Asiático não tinham fronteiras, mas esferas de influência. Duas soberanias jamais se tocavam. Não existindo o conceito de fronteira nem limes, a cartografia antiga remetia para mapas cosmográficos dos Três Mundos, para mapas de peregrinações, com localização de templos e santuários tidos por locais detentores de energia sagrada. As politéias budistas, não sendo demarcadas, tinham a separá-las uma terra de ninguém de profundidade variável onde se localizavam pequenos vassalos tributários ou, tão-somente, grupos humanos imersos nas florestas das cadeias montanhosas. A separar o Mandala siamês do Mandala birmanês havia a Sul a cadeia montanhosa granítica de Tenasserim, com as suas fundas gargantas e alcantilados, apenas transitável pela Passagem dos Três Pagodes (Dan Chedi Sam Ong), local obrigatório de passagem para exércitos invasores. Para Norte, estendiam-se as terras altas de Karens e Shan e, no extremo-norte, as grandes montanhas de La Na, a Oeste da actual Chiang Mai, tendo a dominá-las o Doi Intanon, imponente de 2500 metros de altura. Para além de cadeias montanhosas, havia os grandes rios provenientes de Norte, que serviam de estradas fluviais e era por esses rios que se batiam os estados. O Sião bateu-se sempre a Nordeste e Leste pelo domínio dos rios, quer o Chao Phraya e seus afluentes, quer sobre o Mékong. No Nordeste e Leste, a cadeia anamita separava o mundo vietnamita “chinês” do mundo “indiano” das monarquias budistas. O Camboja, tal como hoje existe, era, a terra disputada entre as esferas do Sião e o actual Vietname (Anam, Tonquim e Cochinchina).

Em 1863, os franceses, servindo-se da força, impuseram ao Rei do Camboja um ultimato, obrigando-o a aceitar o protectorado. Em nome desse protectorado foram reclamando fatias de território administrado por Banguecoque. Então, a esfera siamesa ia do actual Laos, penetrando fundo em território vietnamita, ao actual Camboja. Na década de 1840, o Sião venceu militarmente o Vietname e passou a deter poder indirecto sobre o Camboja, que mantinha um Rei mas era, para todos os efeitos, um Mandala-satélite.
A desarrumação foi, assim, feita em nome de uma noção estranha à região. A "soberania" sobre territórios não existia. O que existia, sim, era uma organização regional - em cascata, hierarquizada - de poderes interdependentes.

No actual conflito fronteiriço assomam vestígios desse passado, pelo que só cambojanos e tailandeses sabem, de facto,o que estão a discutir. Esta mania ocidental de se meterem em matérias que de todo desconhecem, ao invés de permitir uma solução em que nenhuma das partes perca a face, agudiza o conflito. Que raio, nunca mais aprendem !


03 fevereiro 2011

Revoluções, rebeliões e arruaças


O mito das primaveras dos povos está em baixa. As revoluções, agora, não passam de arruaças bem pagas, bem orquestradas, cronometradas de acordo com as horas de maior consumo de notícias. Quem as faz ? Os muito ricos, os que querem entrar na esfera do poder, mais os patrocinadores de causas justas; aqueles que não querendo revoluções nos seus países as exportam para queimar a excitação do frémito destruidor noutras paragens. É claro, notório, indiscutível, que a "revolução egípcia" já era. Só não vê quem não quer. Mubarak ficou, os EUA cometeram um erro de avaliação, a Europa portou-se, mais uma vez, como a grande iludida a querer dar lições de moral às quais já ninguém dá a mínima relevância. Quem ganhou? Mubarak. Não teve medo, não viu a CNN, não se deixou impressionar pelas marcha do "milhão" que afinal foram 100.000 (num país de 80 milhões). Desta revolução que não o foi ficou a grande carga de camelos e cavalos dos guias das pirâmides - a verdadeira classe trabalhadora - que farta de ver os meninos das universidades e da burguesia a brincar às bravatas, mais os acicatadores dos milionários caprichos, quis exercitar a chibata.
É notório que se realizou a união táctica das três maiores forças do tempo presente: a plutoctacia (venha mais dinheiro), o novi-comunismo que tem vergonha do seu nome e essa vaga de fundo de pobreza de espírito que dá pelo nome de causas justas, onde cabe tudo o que rime com balbúrdia.

31 janeiro 2011

Coisas que não consigo compreender


Não compreendo, sinceramente:

Que os EUA exijam reformas sociais no Egipto e se preocupem com o tal dólar por dia de 40% dos egípcios, quando na América há 1.000.000 de pessoas vivendo na rua, 10.000.000 vivendo em caravanas e tendas, 39.000.000 de pobres, 50.000.000 sem poderem ir a um médico por falta de seguro de saúde, para não referir que 32.000.000 dos cidadãos da "mais antiga democracia do mundo" não sabem interpretar um texto de complexidade elementar. Talvez por falta de tempo, os americanos não se preocupem com esta e outras coisas, pois o mais poderoso Estado do planeta ocupa uma miserável 36ª posição na expectativa de vida, o 33º na mortalidade infantil, seja o país com maior número de armas de fogo por habitante, o 6º na lista dos Estados que mais recorrem à pena capital...

Não compreendo, sinceramente, como pode essa gelatinosa alforreca que dá pelo nome de União Europeia pedir "eleições justas" ao governo de Mubarak se essa imperialista envergonhada obrigou dinamarqueses e irlandeses votarem uma, duas e três vezes sob chantagem até que o resultado de "adesão" fosse favorável à agenda desses grandes e probos estadistas que a todos nos impõem uma tributação fiscal pouco menor que criminosa para alimentar a Torre de Babel de decretos e a legião infinda de funcionários medíocres que devoram anualmente 10 mil milhões de Euros.

Não compreendo, sinceramente, que relação haverá entre o encontro anual da fina flor do analfabetismo plutocrático em Davos e as "revoluções espontâneas" que acontecem durante ou imediatamente após essas cimeiras. Não acreditando em conspirações, penso ser incómoda coincidência.

30 janeiro 2011

Não são de confiança


Pronto, os americanos querem-se desembaraçar de Mubarak, o homem que ao longo de trinta anos foi um "close ally" e um "best friend" em todas as campanhas militares - feitas em nome da democracia, claro - que os states desencadearam contra as "forças do mal". Não se pode, decididamente, confiar num aliado que trai as mais elementares expectativas, que entrega os amigos protegidos à maré vindicativa e limpa as mãos sem uma molécula de remorso. As relações entre Estados não são como as relações entre pessoas, mas pede-se um mínimo de coerência e até elementar espírito humanitário em relação à sorte das pessoas. Se os americanos fizeram o mesmo connosco, com Somoza, com o Xá da Pérsia, com Lon Nol no Camboja, com Van Thieu no Vietname do Sul, por que razão não o farão com Mubarak ? Da minha experiência com tal gente ficou-me sempre a ingrata sensação de estar a falar com pessoas absolutamente estúpidas e amorais. Quando não há sonante em perspectiva, no business !