07 janeiro 2011

Sentinas sazonais

Sempre que se declaram as hostilidades caça-votos, como se de doença sazonal se tratasse, abrem-se sentinas, fossas sanitárias, esgotos em céu aberto transbordam e as pútridas vespasianas extravasam águas da fulanagem que vive da política baixa e da baixa política. Durante semanas, enviam-se milhões de desabafos, queixas, denúncias à mistura com revelações abracadabrantes, remoques e venenos alvejando os candidatos. A doença não é nova. Encontramo-la nas paredes de Pompeia e é acessório obrigatório do "instinto" da massa, para a qual - sobretudo nas democracias corrompidas - a campanha eleitoral é um festim de mentiras e uma bacanal de permissividade. Reina, naturalmente, o anonimato, a doença por excelência dos cobardes e dos difamadores, a estirpe mais baixa da espécie humana.

04 janeiro 2011

Não vejo, não leio, não ouço: não votar é o remédio


Dieta rigorosa, desintoxicação radical, absoluta privação de contacto visual e auditivo com os candidatos ao sólio presidencial, o tal que foi usurpado pelas bombas e revólveres, jamais teve a elementar atenção de interpelar os portugueses e assim ficou, absoluto, impune, ilegal e ilegítimo por décadas e décadas. Não ceder à tentação de participar, não conceder a dúvida do mal menor, não comparar nem tomar partido por nenhum dos artistas em palco. O melhor voto é o não voto. O melhor presidente da República é o Rei, a melhor votação para a chefia do Estado aquela que prescinde de eleições, de máquinas partidárias, de confetis e out-door's, mas aquela que se realiza geração a geração, com o concurso das gerações que passaram e das gerações que virão e reafirma o pacto da vontade popular e da identidade nacional que fizeram o Estado Português.

Os candidatos que se candidatem, os presidentes que presidam, mas que o façam sabendo que há portugueses, muitos portugueses, que neles não vêem o árbitro equidistante, o servidor da causa pública, o orgão de soberania independente. Votar é caucionar, colaborar, transigir com um sofisma, com uma impostura e com um insulto aos portugueses. Eu, não voto e como não voto, não sei quantas caras, caretas, carantonhas e gárgulas se apresentam a sufrágio. Ficar em casa, abrir um bom livro, ouvir música, estar com a família vale mil chapeladas da lotaria dita republicana. Como acreditamos na República - ou seja, na Política - e como só há Política quando a totalidade da Cidade se revê nas instituições, recusamos participar numa fraude.

Passei há dias pela sede de candidatura do Professor Cavaco. A foto que acima reproduzo é sintomática da intensa vida republicana. Não vive, existe e nem pede desculpa aos portugueses. Um jazigo; eis onde temos vivido nestes cem anos de república sem República.

03 janeiro 2011

A democracia acabou na África do Sul: o racismo que ninguém condena



Não tenhamos ilusões. Quando Mandela morrer, a África do Sul vai-se transformar num novo Zimbabwe. Julius Malema, a estrela ascendente do mais desbragado racismo é a figura de cartaz do racismo que já não se esconde nem tergiversa. Talvez seja a hora dos nossos 500.000 compatriotas voltarem.

02 janeiro 2011

Os heróis e os outros


O país cobriu-se nos últimos cem anos de Praças e avenidas da República, do 25 de Abril, do 1º de Maio e dos Capitãess de Abril, mais os resistentes, os poetas e literatos que desprezaram Portugal, sargentos republicanos, heróis sem conta de batalhas e guerras internas, de portugueses contra portugueses. Que eu saiba - oxalá me engane - não há uma só viela que se possa ufanar de ter o nome de um dos mais extraordinários homens de acção que o país produziu, cujos quatrocentos anos da morte correm este ano.

André Furtado de Mendonça adiou, talvez por quase vinte anos, a hegemonia da VOC holandesa no Oriente, exterminou a pirataria - sobretudo o temível Cunhale, sim, Cunhale - que assolava as águas do Índico, para além de ter sido modelo de governante inacessível ao suborno, ao lóbismo e ao fisilogismo, marcas infelizmente tão arreigadas nas elites portuguesas. Não por aí um autarca lisboeta que queira tributar ao herói de Malaca o elementar gesto de lhe conceder - e conceder-nos - uma viela, das mais pequenas, no mais humilde e ignoto barro social da periferia ? Sei que é pedir de mais, sobretudo quando poucos conhecem quem foi e o que por todos nós fez esse homem. Esse, sim, foi um verdadeiro capitão, mas os heróis, hoje, são outros, os anti-heróis !