22 dezembro 2011

Um Kim Jong Il quase pacato


O esquematismo e a paixão toldam as pessoas mais razoáveis. A visão norte-americana empobreceu de forma dramática a análise das relações internacionais, forçando o alinhamento contra-natura entre o discurso de ficção gore e a decisão estratégica. Ao longo das últimas duas décadas perdeu-se, decididamente, essa elementar faculdade de análise ponderada que torna possível a abordagem compreensiva às realidades do mundo. Quem perdeu foi o Ocidente, que reduziu a caricatura grotesca tudo o que se lhe opusesse. Nunca como hoje, para nosso mal, o Ocidente esteve tão mal informado e tão incapacitado para compreender a complexidade do mundo. Incapacitado de compreender, rodeou-se de fantasmas - o "eixo do mal", "as armas de destruição massiva", "os hediondos ditadores", "o terrorismo" - que requerem cruzadas cósmicas cujo resultado é por todos conhecido.
A Coreia do Norte - assim como a Síria e o Irão - fazem as delícias do esquematismo e sobre tenebrosos recitativos de quase science fiction se vão acrescentando histórias a estórias, ao ponto de se exigir que a abordagem académica séria só seja aceite conquanto incluir adjectivação condenatória.
Ao seguir a reportagem de Kim Jong Il - fora do cenário da grande praça de Pyongyang - assalta-nos em doses iguais o ridículo de um pequeno homem rodeado de atenções que distribuiu casas (com papel higiénico e fósforos e tudo) aos aparatchik e aquilo que supomos estar por detrás do regime. É esta elementar dose de subtileza que se exige. Aquele regime deve ser pavoroso, é grotesco, o culto da personalidade que instituiu ultrapassa as mais delirantes distopias, mas não pode viver contra a vontade de toda a gente. Não haverá espaços de felicidade genuína ? É tudo propaganda ? É tudo encenado ? Se assim é, como pode um país a morrer à fome suportar o intolerável jugo de facínoras ao longo de quase setenta anos ? Que mistério é esse ?
A Coreia do Norte vive no nosso tempo uma utopia totalitária à 1930, um modelo congelado que subsiste, mas que não é - não as há - uma máquina do tempo. O medo que nos inspira advém simplesmente do facto de se apresentar como uma possibilidade alternativa ao nosso mundo, à nossa maneira de viver, às nossas aspirações e valores. Imagine-se o Camboja de Pol Pot se este não tivesse caído em 1979 e o seu jugo se tivesse prolongado por décadas até aos dias de hoje. A visão de cidades desertas de gente, na acepção de pessoas, tal como as entendemos, enche-nos de medo. Tudo o que rodeia a Coreia do Norte acciona medos e automatiza o estupor. Porém, o totalitarismo, ao invés de ter os dias contados, pode ter um futuro promissor. Há quem diga que o mundo, ao invés de marchar para aquilo a que chamamos de liberdade, poder aproximar-se lentamente de formas mais ou menos explícitas de totalitarismo. Aliás, nunca como hoje, foi tão grande o arsenal de meios de condicionamento e manipulação. Há quem se atreva perguntar se, também nós, não estaremos já a viver uma forma benigna de totalitarismo mascarado.

3 comentários:

NanBanJin disse...

Para as questões que aqui deixa, as respostas serão desconcertantemente simples, porém são mesmo as únicas possíveis.

Não haverá espaços de felicidade genuína ? Não.

É tudo propaganda ? É.

É tudo encenado ? Sim.

Se assim é, como pode um país a morrer à fome suportando o intolerável jugo de facínoras ao longo de quase setenta anos?
Mediante recurso a uma mão cheia de expedientes já bem conhecidos de todos nós — o terror em larga escala e a denúncia generalizada como meios preferenciais, mas há outros, como é evidente (o vídeo que aqui propõe é uma excelente amostra...) — tudo típico de quem de tão viciado no poder absoluto já nem sabe sequer o que a palavra 'escrúpulo' significa, o resto é uma máquina repressiva bem oleada, só isso.

Que mistério é esse ? Não é mistério nenhum, é a realidade a exceder a ficção. Nada de novo.

E se às perguntas acima , ainda acrescentássemos, em tom cândido :
"Eles são mesmo, mesmo tão maus assim?"
Quem? o clã que ocupa as melhores residências de Pyongyang? Sim, são. São mesmo má rés. Acredite. D.A.F. de Sade já explicava o fenómeno melhor do que ninguém há uns 250 anos atrás.

"Não seremos antes nós, incautas vítimas da propaganda do nosso lado?" Não.

"Porquê'?" 1º Porque tal como aqui o faz, Caro Miguel, estamos todos em posição de questionar o que se nos apresenta diante dos olhos, duvidar e acusar o toque — chama-se a isso liberdade, coisa que naquela parte do mundo não há —; 2º Porque já recebemos (pelo menos quem está particularmente próximo do cenário em causa) informação carregada de evidências somadas e repetidas 'ad nauseam', que revelam, sem mais margem para dúvidas, que a República Democrática Popular da Coreia é pouco mais que o inferno para quem lá viva e não ocupe cargos de alguma importância na respectiva estrutura de poder.

Respostas simplórias, é verdade.
Mas são as correctas e não há outras. Lamento.

Boas Festas,

Luís F. Afonso, Japão

Nuno Castelo-Branco disse...

Pensar que andam por aí umas algálias vermelhas que se refocilam de raiva pelo espectáculo do protocolo de Corte na Tailândia... Como se fosse comparável. Francamente!

Pedro Botelho disse...

Nem uma palavra para comemorar a boa educação, paz espiritual e identidade comunitária das transições mono-árquicas?

Refiro-me, é claro, às abencerragens a sério, e não às caricaturas, próprias da modernidade pós-etimológica, para entretenimento das repúblicas coroadas, através das revistas róseas e dos tablóides escandalosos.

Just curious.

;^)