22 dezembro 2011

Portugal kim-il-sunguista ou "foi aqui que o dótór Pouco se sentou"

Rimo-nos como bijagós da ausência do sentido do ridículo nos outros, mas nesta terra povoada por descendentes de celtiberos, berberes e marranos - sempre governada a knut, sempre pronta a abocanhar a imprevidente mão do tratador - passam-se coisas espantosas - diria democrática e abrilinamente fascinantes - que deixariam de boca à banda Wells, Orwell, Virgil Gheorghiu ou Kafka. Muitos de nós têm o privilégio de, ao longo da vida de trabalho terem passado por situações horripilantes, pagando gota-a-gota o preço dessa estúpida liberdade que tão grandes amargos traz.

Lembro-me de um amigo que há anos, após dez anos de serviço numa universidadezeca - daquelas poligrupo que fizeram a fortuna de ex-sacristães e cavadores de batatas - ter sido convidado para uma reunião de urgência convocada pelo auto-proclamado reitor da mercearia de diplomas. A vítima ingénua acabara de oferecer à dita drogaria uma biblioteca que cumpria todos os requisitos exigidos pelos inspectores do ministério; formara pessoal, estabelecera política de aquisições e o cardex de assinaturas, construíra o catálogo em-linha, fizera um pouco de tudo - catalogação, indexação - sem qualquer respeito por horários, sábados, feriados, serões e noitadas caseiras. Ora, biblioteca terminada, os donos do negócio de diplomas arranjaram uma marmanja, nomearam-na bibliotecária sem lhe darem conhecimento, concederam-lhe o louvor público e puseram-no a andar.

Dias depois, a drogaria fez parecida ao desditoso amigo. Anos antes, andava por aí uma revoada de bibliotequice - todos queriam arranjar cabidela na rede de leitura pública - e pediram-lhe que ali montasse uma banca que vendesse a pataco cursos de pós-graduação em "ciências documentais". Como bibliotecário encartado, fê-lo. No terceiro ano de existência, o curso era o mais procurado pela clientela. Rendia bons cabedais, estava em franca expansão. Feito o trabalho do mouro, o lugar de direcção foi transaccionado a um tolo - homem que mal sabia assinar o nome - e o meu conhecido defenestrado.

Também conheço alguém (Mister X) que um dia se atreveu concorrer a um desses concursos ditos públicos destinados, creio, à provisão de lugar de chefia de divisão ou de direcção de serviços. Teve o infortúnio de ganhar, pois o lugar estava há muito prometido a um amigo - corrijo, um ex-camarada de partido - do presidente da instituição. A criatura passara semanas em visitas inopinadas aos seus futuros subordinados, dando-lhes lições, fazendo reparos, apresentando o grandioso plano dos amanhãs ridentes que os esperavam. Quando o resultado do concurso foi conhecido, um terremoto. O fulano que já era dirigente antes do concurso fora preterido por Mister X. Ora, aí começou um calvário que se arrastou por anos: mobbing, reuniões marcadas pela direcção sem que fosse convidado, subordinados instruídos para não frequentarem o gabinete da vítima, desprezo, silêncio, intriga e difamação. Um dia, resolveu mudar de ares, trocando a atmosfera viciada em que vivera por uma longa deslocação ao estrangeiro, de onde voltou com formação de topo no percurso académico. Ao apresentar-se, mandaram-no para um local gélido e fora-de-portas, onde vegetou submetido a uma capataz desmiolada que recebera instruções para o tratar como Mengele não tratava as suas cobaias. Assim, um fulano com obra publicada, falando fluentemente cinco línguas e longa experiência profissional, recebeu como tarefas quotidianas as de receber as malas das visitas, limpar o pó e carregar cadeiras. Ali encontrou uma antiga colega, que julgava morta, pois desaparecera sem rasto anos anos. A colega disse-lhe, como o Abade Faria a Edmont Dantès, que caíra na masmorra dos esquecidos por se haver atrevido levantar uma ténue objecção ao seu director-geral, um desses dótores Poucos que ao longo das últimas décadas se apossaram, uma a uma, das instituições deste que outrora foi um país. Soube, há pouco, que se abriram as portas dos calabouços da Junqueira após a última viradeira eleitoral e que os mortos regressaram à vida. Nós também temos, aqui dentro de portas, mil e um casos de kim-il-sunguismo. 

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