16 dezembro 2011

Pétain: 60 anos depois


Pétain em Paris, em Abril de 1944



A amnésia voluntária, o cinismo, o mascaramento e a manipulação da verdade histórica são instrumentos do exercício do poder e da luta política. Contudo, se impostos como limite ao conhecimento e dogmaticamente se substituem às fontes da verdade, transformam a historiografia numa pseudo-ciência ou, pior, em mera propaganda. A França comemorou este ano, de forma discreta mas não isenta de debate, 60 anos sobre o passamento do Marechal de França Filipe Pétain.

A figura do velho cabo de guerra, o único grande militar gaulês do século XX, vencedor de Verdun e salvador da França, surge envolta em mistério. A França reivindicou quinhão relevante da vitória de 1918 graças a Pétain. Contudo, em 1945, condenou-o à indignidade civil, retirou-lhe todos os direitos de cidadania, confinando-o a uma cela, onde morreria nonagenário e marcado com o ferrete de traidor. Terá sido ?

Não, Pétain ascendeu à chefia do Estado através dos mecanismos extraordinários inscritos na Constituição da III República. Em Julho de 1940, recebeu da Assembleia Nacional e do Senado - em votação absolutamente democrática na qual participaram quase todos os representantes do povo francês - 87% dos votos que decidiram a sua elevação à chefia do Estado, conferindo-lhe plenos poderes para negociar com os alemães um tratado de paz, que Hitler nunca quis discutir. Apoiaram-no deputados do SFIO (socialistas), da Gauche Démocratique (radicais socialistas), da Federação Republicana, do Partido Comunista, da União Democrática, do Partido de Unidade Proletária, dos Republicanos Independentes.

O Apelo de 18 de Julho, feito por de Gaulle a partir de Londres, não foi, decididamente ouvido nem pelos representantes do povo francês, nem pela maioria da população. Há um grande mito em torno do apelo do quase desconhecido de Gaulle, texto mítico que foi sucessivamente alterado, como também mítica foi a liderança daquele a que os americanos chamavam de "candidato dos ingleses a ditador da França".

A atestar a legitimidade reconhecida do regime dito de Vichy, o facto deste haver mantido relações diplomáticas normais com a URSS até 1941, dos EUA terem mantido embaixador junto do governo de Pétain até Outubro de 1942, assim como o Canadá (Novembro de 1942) e a Austrália (1944). A luta dos "Franceses Livres"(de Gaulle) com a "França Livre" (Pétain) surgia claramente aos olhos da diplomacia internacional como uma guerra civil e não como um capítulo da guerra global.

Depois, a popularidade. Para a maioria dos franceses, Pétain era por antonomásia o nome do orgulho francês. Até aos últimos dias da sua presença na chefia do Estado, recebeu os maiores banhos de multidão de que há memória na história francesa contemporânea. Foi uma força teimosa que se opôs aos ultras fascistas da colaboração rastejante, foi um dique aos abusos dos alemães, deu alento e esperança quando não havia vislumbre de futuro numa Europa que Hitler queria sem voz e sujeita à bota alemã. Pétain foi ainda mais: percebeu que a vitória de qualquer dos beligerantes (dos Aliados como do Eixo) ofereceria condições para o colapso da Europa, com vantagem para o comunismo (URSS) e para os EUA, dois poderes exteriores à Europa. A sua atitude surgia, de manifesto, muito próxima da de Salazar: no conflito entre a Alemanha e a Grã-Bretanha eram neutrais; no conflito entre soviéticos e alemães preferiam a vitória alemã e no Extremo Oriente eram claramente favoráveis aos Aliados.

O processo de Pétain e os enxovalhos a que o submeteram parece não terem tido grande efeito junto dos franceses. Quando, alquebrado e surdo, entrava na sala do tribunal onde decorria a abjecta farsa legal, as pessoas levantavam-se, os policias prestavam-lhe continência e na rua pessoas choravam de indignação e revolta. Pétain foi o bode expiatório, mas foi, sobretudo, a moeda de troca de de Gaulle no conflituoso entendimento que este teve de selar com os comunistas; o herói trocado pelo falso herói nos arranjos conducentes à França do pós-guerra. O velho senhor transpirava respeitabilidade por todos os poros; o novo dono da vida francesa, esse, traiu tudo e todos e foi, de facto, o coveiro da grandeza francesa.

4 comentários:

Paul disse...

Bravo pour ce bel article… Aussi loin que remontent mes souvenirs d’enfance, c’est d’abord à la maison, celui du portrait de Philippe Pétain… puis tous ces éclairages enveloppés de papiers ou tissus violets pour atténuer les lumières lors des attaques aériennes, et aussi ces descentes aux abris… Longtemps après la guerre ont survécu ces inscriptions devant chaque maison : abri 50 personnes…

Est arrivée la fin de la guerre. Les Français les plus raisonnables auraient très bien admis une complémentarité entre les deux combats : la survie et la résistance à l’intérieur, la reconquête du territoire national organisée depuis l’étranger… Malheureusement, il n’en a pas été ainsi… De Gaulle, les communistes, les Juifs l’ont criminellement refusé. Depuis la France vit une profonde déchirure, un climat de guerre civile larvée s’y perpétue… (prolongeant celui instauré par la Révolution française puis par toutes ces luttes anticléricales.) De Gaulle ne s’est imposé qu’en aggravant les divisions entre Français, en promulguant des institutions reposant sur ces divisions, les approfondissant, les pérennisant. Très certainement, par ses mensonges, ses crimes ultérieurs (à partir de 1958) de haute trahison préméditée, son mépris criminel affiché du peuple, des Français, de la France, des amis de la France en Afrique et en Asie, De Gaulle s’est affirmé comme un des personnages les plus néfastes de l’Histoire de France. De la période contemporaine, sans aucun doute.

Maintenant Miguel, permets-moi une remarque… Je suppose qu’en portugais prévalent les mêmes règles orthotypographiques qu’en français, a fortiori s’il s’agit de noms propres. Je ne serais pas du tout d’accord avec ta graphie du nom de l’Infâme…

"De Gaulle" est affublé d'un patronyme étranger trafiqué, dénonçant l'empreinte d'une immigration flamande. Là a priori rien de gênant, si ce n'était le "in the closet" manipulateur aggravé du patronymé ! … Un allogène usurpateur ! Allogène usurpateur dont le nom serait une altération d'un "Der Wall". Un nom aussi puant que le "mur" éclipsé sur lequel les poivrots du coin s'arrêteraient soulager leur vessie, un nom qui n'intègre manifestement aucune particule nobiliaire. Il inclut un article, comme celui de nombreux braves patronymés roturiers flamands, belges, et également bretons. Dans ce cas, le bon usage  français veut que l’article s’écrive systématiquement avec une majuscule. On doit donc écrire "De Gaulle" et non "de Gaulle". Les Américains écriraient "DeGaulle", sans espace [ex. Greg LeMond]. En modifiant l’orthotypographie de son nom, l'infâme De Gaulle nous gratifie d’une falsification maligne. De toutes pas la plus anodine, par ce qu’elle veut suggérer. À sa décharge, soulignons que l'Infâme n’a pas osé aller jusqu'à supprimer l’un des deux "l" de son patronyme. Que l’Histoire écrive "de Gaule", n’en a-t-il pas dans sa paranoïa  fantasmé? Il n’en reste pas moins que cette bascule dans une minuscule falsificatrice résume dans son éclat la nature profonde d'un personnage en réalité dérisoire : minuscule

Pour ma part, Bourricot oblige,et cela ne concerne que moi, j’ai décidé d’écrire une fois pour toutes ; DeGaulle, degaullistes… Comprenne qui voudra…

Alexandre Gerbi, dans un style beaucoup plus raisonnable que le mien, revient sur le personnage de DeGaulle et la chute orchestrée de la IVe République : Tandis que la présidentielle approche... Chute de la IVe République : Ni «archaïque », ni «débilitante», juste blanciste ou Explication d’un contresens historique d'Eric Zemmour et consorts. Un article majeur pour comprendre la décadence de la France. Une confrontation qui s'impose avec ce qu'a été dans le même temps la politique du Portugal à l'égard de ses colonies.

Nuno Castelo-Branco disse...

Por alguma razão o camarada Mitterrand enchia-lhe o túmulo com coroas de flores.

Nuno Castelo-Branco disse...

Quando vemos a cara de miston de Sarkozy, o ar de vigarista combalido de Chirac e revemos a memória do perigoso escroque sem escrúpulos que foi Mitterrand - para ficarmos por aqui -, vermos este filme, remete-nos para outro planeta. Que bom aspecto tinha Pétain! Sei da existência de fotos e filmes acerca desta visita, onde o marechal passa a revista a uma guarda de honra, acompanhado pela Rainha Dª Amélia. Essa, uma outra grande.

Maria disse...

Grandiosa descrição daquele que foi um militar ilustre que serviu o seu povo com honestidade e devoção. Os franceses que se prezam de o ser, devem para sempre respeitar o seu nome e aquilo que representou para a França e homenageá-lo pelos séculos vindouros tal como ele foi efectivamente: alguém que serviu a sua Pátria com integridade, nobreza e valentia. E amor, amor incondicional à sua Pátria querida. E são os actos heróicos de Homens com esta estatura moral e cívica, generosos e altruístas mas igualmente patriotas e destemidos, que os distingue do resto dos mortais. Estes são os verdadeiros Heróis Nacionais. Mesmo que desgraçadamente isso só se verifique na maioria das vezes depois deles partirem deste mundo. Mas, de um modo ou de outro, mais cedo ou mais tarde a Justiça acaba sempre por ser reposta. Como vai sendo o caso em presença.

Parabéns pelo brilhante vídeo.
Maria