30 dezembro 2011

Marimbo-me para o "perigo amarelo"


Andam danados com o negócio com os chineses. Quem ? Quem esperava poder lucrar com o "negócio alemão" ? Quem não sabe que a Alemanha, dona do negócio, está a 2000 km de distância e nos trata como os "pretos da Europa", quando os chineses estão a 15000 km e têm por hábito não alimentar camarilhas coloniais ? O furor vem precisamente daí. Os alemães precisam de mainatos e colaboracionistas para fazer o que realmente interessa à estratégia de Berlim. Anda por aí tanto mufana a fazer trabalhos de cozinha para os alemães, tanto Quisling e tanto vassalo dos novos Reich Protektors. Nós sabemos como chegámos a este nadir de respeitabilidade, a este grau zero da soberania, mas para eles tanto importa.

Para além da manifesta má-fé das nossas elites ditas bem-pensantes, há um quase-estupor por se haver resolvido para sempre esse escandaloso monumento ao  empreguismo de amigos, familiares e protegidos que foi a EDP. Quem me dera - para mal do interminável cortejo de patetas que nem para arrumadores de cinema serviriam - que a receita se aplicasse à PT, à Caixa Geral, ao Metropolitano de Lisboa, à TAP, à Carris, à Estradas de Portugal, à EPUL, à Docapesca, à ANA, à CP.

Não há perigo amarelo coisa alguma.Há, sim, um claro perigo alemão e um perigo europeu que foi crescendo na proporção da inépcia de quase quarenta anos de governos irresponsáveis que alienaram e nos deixaram na miserável situação em que nos encontramos. O perigo amarelo é um mito, um mito distante, um topos de literatice oitocentesca. O verdadeiro perigo está cá dentro, come-nos por dentro, vende-nos hora-a-hora, enriqueceu e transformou a sociedade portuguesa numa caricatura de futebóis, negociatas ordinárias, favores, socialites de gente vinda do nada - quem nem à mesa sabe comer - que nos empobreceu e agora, incapaz de resolver os problemas que adubou, se quer converter à viva força na elite provincial e marginal de um império sem cérebro entregue ao arbítrio de merceeiros.

Por que raio me meto em questões destas ? Eu nunca vivi de expedientes, a política não me interessa. Vejo que andam por aí os habituais sabichões das psicologias colectivas e das antropologias a escrever pérolas sobre a venalidade dos chineses, a ganância dos amarelos, o cinismo dos mongólicos, a dissimulação dos amarelos. Estranho, pois, ao longo da vida, as pessoas mais correctas, afáveis, amigas, leais e trabalhadoras que conheci eram amarelas. Aprende-se todos os dias !

11 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Contudo, não podemos ser ingratos em relação aos alemães. Recebi alguns mail - apenas 3, confesso -, chamando-me nomes por ser acintoso em relação á presença alemã em Portugal. De facto, foram dos poucos que nos ajudaram durante a guerra de 1961-74. Foram os alemães quem ajudou o PS, o PPD e o CDS durante os turvos anos de 74-76 e quiçá, quem mais contribuiu para a derrota de Cunhal e dos seus apaniguados. Foram os alemães quem nos ajudou a entrar para a então CEE, etc, etc. Foram os alemães quem mais fundos verteram em Portugal, fundos estes que o regime da III República desperdiçou, roubou e mal investiu.

Criticamos então a Alemanha porquê? Porque o seu projecto Festung Europa é incompatível com a nossa independência formal. Porque o seu plano tende a ver a Península como um todo. Porque Berlim "julga" que Portugal é uma espécie de Áustria ou de Boémia da Espanha, não percebendo o facto consumado no século XII, confirmado em 1385 e reconfirmado em 1640. Porque o projecto continental liquidará um património histórico de 900 anos, o resultado da Expansão e a promessa sempre latente, de um reviver do mundo lusófono - talvez uma gloriosa ilusão - nas próximas décadas. Porque Berlim não percebeu que neste momento Portugal está no centro do mundo e não é periférico. Porque Berlim pretende a "europeização" da nossa chamada ZEE, passando a soberania de facto para os grandes conglomerados financeiros e empresarias do centro europeu.

Não., não detestamos a Alemanha, antes pelo contrário. Queremos uma Europa Unida, mas onde Portugal seja também livre de prosseguir o seu destino histórico tão arduamente mantido ao longo de séculos. Para cúmulo, embora tão diferentes da nossa maneira de ser e da nossa concepção de organização social - em estilhaços, diga-se! -, os chineses pagaram mais, apresentaram um horizonte mais soalheiro e trataram-nos sem "espírito de mandato" ou suserania. Paciência, talvez fosse preferível outra situação, mas doa a quem doer, a realidade é esta.

Somos amigos da Alemanha, amais a hostilizámos, corremos sérios riscos em 1939-45, desagradámos aos nossos tradicionais aliados, alimentámos a sua faminta população, recebemos milhares das suas crianças mais necessitadas. E daí?

AMCD disse...

O verdadeiro perigo está cá dentro, sem dúvida: as nossas "elites" vende-pátrias. Os chineses zelam pelos seus interesses e fazem muito bem.

Este negócio prestigia a China e não Portugal, ao contrário do que afirmou hoje o Ministro das Finanças. Seria um prestígio para Portugal se a EDP comprasse a empresa pública chinesa Three Gorges. Isso é que seria prestígio.

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Também não partilho dos preconceitos racialistas que alguns nutrem em relação aos chineses, mas existe um "perigo chinês", que nada tem a ver com aquele povo, mas com o regime que oprime o próprio povo e exterminou 76 milhões dos seus. O regime chinês não é um regime de idiotas economicistas formatados nos MBAs da vida, mas um regime militarizado com objectivos de longo prazo e liderado por gente competente.
Tendo a pensar, neste momento, que o perigo oferecido pela China, no caso específico português, é menor que o oferecido pela Alemanha, onde ainda por cima existe de facto esse preconceito contra os "pretos da Europa". Antes o perigo oferecido por quem está distante e não está interessado em tomar territorialmente a Europa, ainda que seja aliado da Rússia, do que aquele que a Alemanha representa.
Entretanto, penso que estamos de acordo que o melhor, considerando que o cenário da venda neste momento era inevitável, seria a opção brasileira.
Tenho pena que as elites económicas e políticas brasileiras sejam tão estúpidas e vivam hoje inebriadas num triunfalismo tolo, de quem já se considera campeão após o primeiro jogo, e que Portugal esteja nas mãos de piratas. Bem coordenados, os dois países conseguiriam criar uma über-zollverein que cercaria o Atlântico Sul e se transformaria numa super-potência mundial dentro de uma geração.
Mas quanto a mim, o ideal teria sido dividir a EDP em empresas concorrentes e vender estas "mini-EDPs" numa conjuntura económica favorável, limitando a participação estrangeira e usando os recursos obtidos para aumentar as reservas de ouro.
Mas agora o facto está consumado e só resta esperar que se faça uma limonada desse limão. Porém, dentro deste regime isso não vai acontecer.

Um abraço.

António Bettencourt disse...

Adorei. Acabámos de esfregar 500 anos de História nas ventas dos tudescos. Talvez agora dêem conta de que Portugal não é o que eles pensam.

Pedro Botelho disse...

Se as casas reais de Bragança e Piongianguia se unissem já poderíamos fugir mais facilmente ao perigo branco.

GAVIÃO DOS MARES disse...

Este foi dos textos que mais gostei de lêr sobre o tema.

Bismark dizia que a Europa era a África da Alemanha.
A Merkel pensa (e faz) o mesmo.
Para os boches Portugal deve ser uma espécie de busquimanilândia.

Pedro Botelho disse...

@Gavião dos Mares:

-- É provável que a sua citaçao de Bismark seja imaginária. Se fosse verdadeira seria provavelmente fácil de encontrar através do Google, o que não sucede. De qualquer modo, gostaria de conhecer as suas fontes para a atribuição, bem como o contexto em que teria ocorrido. Os meus agradecimentos antecipados.

-- A propósito de citações de Bismark tendentes a equacionar a situação de uma grande potência europeia com a das colónias africanas que as potências europeias dividiam entre si, existe uma outra citação de sentido praticamente oposto ao da sua. Aparece no artigo "Otto von Bismarck" da Wikipedia em inglês como: "Your map of Africa is really quite nice. But my map of Africa lies in Europe. Here is Russia, and here... is France, and we're in the middle — that's my map of Africa. -- Conversation with a colonial enthusiast revealing his disapproval of Colonialism. (1888)".

Pedro Botelho disse...

Por outras palavras, longe de dizer que a Europa era a África da Alemanha, o que Bismark estava a dizer ao comparar mapas (e não raças) é que a Alemanha se encontrava na posição de África das outras potências europeias. O século XX deu-lhe razão, e convém aqui lembrar que um império de 1000 anos [*] tinha sido extinto por Napoleão, escassos 82 anos antes da data da citação (a Eugen Wolf, ao que parece). E Napoleão... pelos russos (entre outros), com passagem pela mesma Europa média.

[*] De 800 a 1806: é essa a origem da famosa referência milenar do outro chanceler que sucedeu à aniquilação do curto Segundo Império bismarkiano e à curtíssima República de Weimar. De história se trata e não exactamente de delírios geopolíticos entre duas dentadas na alcatifa, como os que agora emprestam -- valha-nos deus -- à pobre chancelerina...

Nuno Castelo-Branco disse...

Caro pedro Botelho, continuo a acreditar que aquela frase proferida por A. François-Poncet diante do Conde Ciano, é bem actual: "os alemães são patrões duros e os senhores aprenderão à vossa custa".

É mesmo verdade. O governo fez bem, até porque a proposta alemã era a pior de todas e em todos os sentidos. Menos dinheiro, menos responsabilidades, mais submissão e dependência face à "Europa", ou seja, "eles".

Pedro Botelho disse...

@Nuno Castelo-Branco: não me pronuncio sobre a conveniência comparada das diversas propostas, nem me move qualquer animosidade contra a China ou o Brasil. Apenas lamento a venda a retalho do país a quem quer que seja, bem como o racial-masoquismo da moda, politicamente correcto, anti-branco, anti-europeu e, é claro, com as quotas holocáusticas em dia (para isso não acaba, jamais acabará, o dinheiro disponível e indiscutível).

Nuno Castelo-Branco disse...

Caro Pedro Botelho, não me ouvirá pregar cruzadas contra os brancos, pois sou um português de Moçambique e senti bem o que esse tipo de cruzadas significou, a começar pelos próprios negros que estão entregues ao que se sabe.
Não me move qualquer animosidade contra a Alemanha, mas o nosso interesse nacional é incompatível.