18 dezembro 2011

Goa, 1961: aqueles que souberam morrer e aqueles que não os seguiram


José Manuel Catalão Oliveira e Carmo, o último herói da Índia

Faz hoje 50 anos que a Índia, abjurando a sua propalada não-violência, invadiu o Estado Português da Índia. Um acto injustificável à luz do Direito Internacional, devidamente sancionado pelo Tribunal de Haia, lembrando aos ingénuos que o direito da força raramente se submete à força do Direito e que a moral que rege o comportamento dos Estados é coisa que a polemologia arruma no canto extremo e invisível da prateleira da vontade de poder.
A Índia Portuguesa era, desde o século XVI, a mais apurada expressão da presença de Portugal no mundo. Não era uma colónia, mas um Estado; os seus habitantes não eram nem colonos nem colonizados: eram cidadãos de pleno direito e os seus filhos, nos tempos de glória como nos do ocaso estiveram presentes em todos os actos marcantes da vida portuguesa: nas letras e nas artes, na ciência, no ensino, na administração, na missionação ou ao serviço de Marte.
Em Goa estava a sede do Padroado Português, como repousa ainda, no sarcófago de prata o Apóstolo das Índias. Os Vice-Reis e, depois, os Governadores-Gerais, confirmavam a investidura recebendo da imagem de S. Francisco Xavier o bastão de comando. A Índia Portuguesa era, contrariando a lenda negra e a novena de mantras da propaganda, um dos mais progressivos rincões do sub-continente indiano.
"De facto, quem percorre a Índia Britânica e, pondo de lado meia dúzia de cidades modernas, se interne nos centros nativos, nas populações rurais, chega necessariamente a esta conclusão: a Índia está hoje no mesmo estado de há mil anos! As aldeias, o povo, a mentalidade, os usos, os costumes continuam na mesma. Falta a higiene, a pior das misérias, atraso, ao passo que as nossas aldeias respiram certo bem-estar e o nosso povo vive uma vida incomparavelmente superior, sob todos os aspectos, à da população nativa da Índia inglesa"(1).
A actividade cultural que se desenvolvia em língua portuguesa na Índia britânica era motivo de grande orgulho e a animação tocava a investigação histórica, a crónica política e até produção literária e ensaística. O Investigador Portuguez em Bombaim, nos anos da década de 1830, O Echo de Bombaim, editado por uma Press Mercantil na década de 1860, deram corpo à necessidade de criar centros destinados a públicos mais exigentes e cultos. Assim nasceram o Instituto de Educação Portuguesa (1855) e em 1902, o Real Instituto Luso-Indiano. Os mais de vinte mil indo-portugueses recenseados em Bombaim em 1881 eram vinte cinco mil em 1915 e na véspera da Segunda Guerra abeirava-se a comunidade da meia centena de milhar. Em Bombaim, grande metrópole do Índico, na mudança do século XIX para o século XX havia 341 clubes goeses, com catorze mil associados, dos quais mil e quatrocentos eram homens ligados a actividades do mar. Para eles havia tipografias editando em português, escolas e igrejas. Um jornal em língua inglesa - Our Nation - gozava de grande autoridade e as paróquias editavam profusamente livros, folhetos, jornais e pagelas. A proeminência deste grupo não se prendia, apenas, com a inclinação para as humanidades e para as ciências jurídicas. Um dos mais afamados médicos-cirurgiões oftalmologistas no Império britânico era o Dr. Acácio da Gama (1845-1902). Nascido em Goa, formara-se no Medical College e na Universidade de Bombaim. A sua entrega aos mais pobres e o trabalho que desenvolveu nos bairros católicos valeram-lhe a outorga pelo Rei de Portugal do colar da Ordem de Cristo e eleição para a direcção da selectiva British Medical Association. Portugal na Índia era, indiscutivelmente, um caso de sucesso.
Depois, vieram os "ventos da história", crença que fez escola e não passa disso mesmo, de uma crença. Portugal tinha de sair, mesmo que saísse contra a vontade da população que era portuguesa e portuguesa queria permanecer. A prová-lo, o facto de após a invasão, abandonando as suas casas, haveres, laços, empregos e a terra onde haviam nascido os pais dos seus avós, trinta mil indo-portugueses se terem recusado ficar em terra onde ondulava outra bandeira que não a portuguesa. A saída dos indo-portugueses foi um referendo com os pés ao abuso e à arbitrariedade da invasão.
As ordens que vieram de Lisboa eram precisas. Sair, só empurrados. Os militares, mais que os paisanos, compreendem ou devem compreender o que significa o sacrifício derradeiro que lhes exige a carreira que voluntariamente abraçaram. Oliveira e Carmo compreendeu-o. Sacrificou-se pela honra e foi militar. Os outros, aqueles que pensaram quando não deviam pensar, que não cumpriram quando deviam cumprir, que partiram as espadas quando as deviam empunhar, que deitaram ao chão a bandeira quando a deviam levantar bem alto; esses, não foram militares. Há quem pense, erradamente, que os actos inúteis devem ser evitados. Errado, o acto inútil pode assumir transcendente significado. No caso de Goa, a Índia portou-se miseravelmente, Oliveira e Carmo cumpriu e não vacilou, como não vacilaram os goeses portugueses que deixaram tudo para serem dignos da sua condição de cidadãos - que reclamam direitos, mas têm deveres - e os outros, aqueles que se renderam à lógica, os pragmáticos que racionalizam, os homens dos afectos e da lágrima sentimentalóide, esses perderam. É tudo.

(1) Relatório do Patriarca de Goa, D. José da Costa Nunes, para o Governador-Geral da Índia Portuguesa, 1943, in Presença de Portugal mo mundo, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1982, p. 476.

7 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Compreendo muito bem a posição difícil em que o governo português se encontrava. Se não resistisse minimamente, isso seria uma contradição com a doutrina oficial. Se pelo contrário tivesse atafulhado a o Estado da Índia com meios militares capazes, das duas, uma: ou os indianos arriscavam-se a uma aventura que poderia durar muito mais tempo que o previsto - e estavam a ter sérios problemas com os chineses nos Himalaias e com o Paquistão a leste e a oeste -, ou então, continuariam no isolamento do Estado da Índia. Consta que Salazar e Mao tinham conversações para o estabelecimento de uma presença naval chinesa em Mormugão e que a dita invasão serviu para impedir aquilo que seria um facto consumado. A CIA sabia. A opção militar traria o bombardeamento indiscriminado dos localidades, o massacre da população, etc.
De facto, a opção do governo português deveria ter sido a de resistir e de pelo menos, ter fornecido alguns meios para tal: existiam metralhadoras modernas, bazookas e artilharia anti-carro e anti-aérea nos arsenais, existiam unidades navais infinitamente mais capazes que glorioso Afonso de Albuquerque. Estas defesas acompanhadas de um punhado de M-47, teriam feito toda a diferença, embora o espaço fosse exíguo (Diu e Damão) e densamente povoado (Goa). Mais ainda, tivemos tempo para preparar essa resistência e como se vivia em pleno período da guerra fria - os americanos estavam como sempre, ao lado dos nossos inimigos -, talvez não fosse muito difícil adquirir em segredo algum material capaz de surpreender os indianos. Pouco, mas eficiente.
Nada disso se fez e o resultado foi o que se viu. O governo esteve bem na opção política, mas extremamente mal na organização militar.

Pedro Marcos disse...

Seria bom conhecer os militares da altura responsáveis pelo equipamento militar que permitiu o sub-equipamento e a dotação com munições fora de prazo e de qualidade reconhecidamente defeituosa.
Nomes. Precisam-se nomes e saber que ligações teve esta gente ao regime abrileiro.
Parace-me que o Miguel está à altuar do desafio.

Pedro Marcos disse...

Seria bom conhecer os militares da altura responsáveis pelo equipamento militar que permitiu o sub-equipamento e a dotação com munições fora de prazo e de qualidade reconhecidamente defeituosa.
Nomes. Precisam-se nomes e saber que ligações teve esta gente ao regime abrileiro.
Parace-me que o Miguel está à altuar do desafio.

Pedro Marcos disse...

Seria bom conhecer os militares da altura responsáveis pelo equipamento militar que permitiu o sub-equipamento e a dotação com munições fora de prazo e de qualidade reconhecidamente defeituosa.
Nomes. Precisam-se nomes e saber que ligações teve esta gente ao regime abrileiro.
Parace-me que o Miguel está à altuar do desafio.

António Bettencourt disse...

"A história da viagem (de Vasco da Gama) é um horror; e a desforra do capitão uma prova dessa frieza sanguinária, impassível e cruel, que efectivamente existe no temperamento, quase africano, do português".

Oliveira Martins, História de Portugal

Nuno Castelo-Branco disse...

António Bettencourt, a quantidade de patetices "à portuguesa do Casino" que o Oliveira Martins escreveu e disse antes de experimentar o poder, são eloquentes. Para mais, tudo aquilo que Vasco da Gama poderá ter feito, não se compara minimamente àquilo que ingleses e franceses fariam na Índia. Em plena época de Oliveira Martins, os nossos aliados ingleses matavam à vontade na Zululândia, exterminavam boeres e atacavam a toda a brida no Sudão. Os franceses ufanavam-se das façanhas na Indochina e na sua conquista da África ocidental, com o cortejo de violências que se conhecem. Os nossos actuais donos alemães, partiam para a China com a instrução de ..."actuarem de forma a que a simples menção de alemão, faça para sempre tremer os chineses de terror". E o que fizeram os faróis da civilização no Palácio de Inverno e na Cidade Proibida? Mao Tsé e a sua cretina "revolução cultural", teve um belo exemplo dado pelos ocidentais. Pobre Vasco da Gama, a que escala ínfima esteve reduzida a sua rudeza pré-industrial...

António Bettencourt disse...

Sem dúvida, Nuno. Concordo com o que diz. A minha intenção era precisamente gerar polémica e discussão. Aliás, a História de Portugal do OM é uma verdadeira anedota. Acho-lhe piada precisamente por isso.

Contudo, apenas lhe faço o reparo de que não considero lícito justificar atrocidades com atrocidades ainda maiores. As nossas atrocidades foram à nossa escala. atrocidadezinhas. Ainda assim, atrocidades.

Mas enfim, a história foi o que foi e se há coisa com que discordo é com uma história apologética e feita de bons e maus, uma história ajuste de contas, como a de OM.

Até o Portugal Contemporâneo está construído da mesma maneira. Confesso que é um autor que me diverte nos seus exageros e visão distorcida das coisas.