11 dezembro 2011

Náusea ou "livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido, absolutamente indisponível para entrar em camarilhas, carregar malas e fazer de mainato"


O país, ontem como hoje, aguardando a comoção profunda do imprevisível. Sente-se no ar que algo acabou, mas não se sabe ainda o que está para vir. Já ninguém dá a cara por algo que dentro em pouco poderá comprometer. Lisboa continua, tristonha mas orgulhosa, a mostrar a estrangeiros as grandezas de um passado morto. Ontem passeei pela baixa e de um estrangeiro, deslumbrado com a vista de Santa Justa, a certeira punhalada: "vocês já foram tão grandes. Como puderam descer tão baixo ?"

Apetecia-me ter-lhe respondido com um comboio de nomes: Vasco Gonçalves, Otelo, Rosa Coutinho, Cunhal, Manuel Alegre, Mário Soares, Freitas, Sá Carneiro, Pintassilgo, Cavaco, Guterres, Sampaio, Barroso, Sócrates, CGTP, UGT, SUV's, RGA's, PREC, bancos e seitas, camarilhas e lóbis. Ele não compreenderia. Calei-me e senti que se não se fizer agora, amanhã não teremos mais que passado. No fundo, sinto-me feliz por não dever favor algum, de me ter transformado num estrangeiro no meu próprio país, ter assistido a todos os ultrajes e me manter fora de capelinhas. Como disse há dias a algumas amigas minhas, "mon pays me fait mal", após pagar 2000 Euros do meu bolso para garantir o sucesso de uma actividade que o Estado não pode pagar - tão falido anda - e receber de um dirigente do Estado a seguinte cuspidela: "encheram isto e agora temos de deitar todo este lixo fora". O "lixo" era, tão só, comida !

Como 98% dos meus concidadãos, só peço uma coisa, tão pequena que se escreve com meia dúzia de letras: justiça. Faz falta uma revolução - de Maio, de Junho ou de Janeiro - que varra o pântano e premeie o trabalho, o sacrifício e o patriotismo. Tudo o mais são teorias, modelos, retóricas.


Lisboa; Domingos Marques, Revolução de Maio (1937)

3 comentários:

O sofrologista católico disse...

Existem duas formas de destruir a misericórdia: eliminando o pecado e eliminando o perdão. Estas são precisamente as duas atitudes mais comuns nos dias que correm. Numa enorme quantidade de situações não se vê nada de mal. Naquelas em que se vê, não há desculpa possível. As acções do próximo ou são indiferentes ou intoleráveis. O que nunca são é censuradas e perdoadas. O que nunca se faz é combinar o repúdio do pecado com a compaixão pelo pecador.

Bmonteiro disse...

E até há duas ou uma década, ainda seria possível inverter o rumo.
Agora é tarde.
Na minha tertúlia de bairro, recordávamos há dias:
Os portugueses de hoje, nós, são os descendentes daqueles que não partiram nos Descobrimentos.
A pedir uma revolução ou uma 4ª República,
não estivessem tantos a emigrar.

Combustões disse...

Pois é, caros Sofrologista e Bmonteiro, mas a paciência tem limites. Aqueles que ainda têm coração de escuteiros, sempre preteridos, sempre usados e transformados em bestas de carga. Portugal é, de facto, uma sociedade muito injusta. Em trinta anos de trabalho (comecei a trabalhar aos 15), só conheci duas ou três excepções.