28 dezembro 2011

Atracção irresistível pela fórmula monárquica ou porque as ditaduras macaqueiam a realeza



Estranho que os nossos caros confradres esquerdistas do Jugular e do 5 Dias não se tenham pronunciado ainda sobre o relevante lugar atribuído pelo regime norte-coreano aos falecidos Grande Líder e Querido Líder na história do movimento comunista mundial - considerados sobre-humanos e cujos recitativos biográficos se transformaram em hagiologias - como não façam qualquer exercício de reflexão em torno da elaborada cenografia que rodeia as exéquias, nem se dignem emitir opinião sobre uma teoria do poder cujo mecanismo de transmissão e legitimação se processa por herança familiar.

Para aqueles que sofrem de acessos de liberalismo infantil - doença que está para a direita como o esquerdismo para o comunismo - o poder deve repousar nas mãos de banqueiros. É só. É elemento de toda a evidência que o poder, para os adoradores do dinheiro e dos negócios, serve apenas para fazer "mercado"; logo, tratando-se de "negócio", a transitoriedade da liderança não deve instigar manifestações de afecto. O grave no superficialismo de alguns liberais é a manifesta incapacidade para sondarem o que de mais importante existe no jogo político e na posse do poder. Desconhecem, ou querem deixar de parte, o mistério da vontade de poder e a dimensão religiosa de qualquer concepção política. O comunismo, contraditoriamente, fê-lo e teve quase um século para montar o cenário psicológico que agora atingiu proporções finais na Coreia do Norte.

As cascatas de lágrimas de Pyongyang podem ser vistas como magnífica encenação e carpideirismo, mas são, sejamos mais sérios, documento único para os estudo e compreensão da dimensão sagrada existente em todas as formas de governo, mesmo aquelas que arrogantemente se dispuseram eliminar a religião, substituindo-a pela Utopia do paraíso para cá da morte. 
Triunfante fica, pois, a ideia monárquica segundo a qual o Rei não é dono nem Deus, mas também não é negociante, mas sim, natural e humildemente, o rosto humano da comunidade.

PS. Confesso que recebi com perplexidade exaltadas manifestações [epidérmicas] - algumas publicadas, outras cujo nível me obrigam a censurar - que evidenciam incapacidade de pensar os problemas de forma "académica", ou seja, despidos de qualquer "pistis". Este não é um blogue-seita, nem visa cruzadas; não é, decididamente, como os livrinhos da Anita.

11 comentários:

Lanterna disse...

Nao consegui perceber se 'e um post a favor ou contra on regime Norte Coreano, ou uma tentativa de comparar monarquias constitucionais com um regime totalitario.

Isabel Metello disse...

Miguel, não equivalha os dois tipos de regime que este do vídeo é do mal, daquele que só quem está dentro de 1984 de Orwell conheceria/conhece. Isto é tudo nefasto, até a própria histeria tenm algo das trevas, não é uma Dor é uma agonia em Vida, não lhe sei explicar que vi aqui um pouco do que pode ser considerado o Inferno. Mil vezes a mcdonaldização e eu sou bem crítica quanto à objectivação sociocultural e humana, mas do mal o menor.

Isabel Metello disse...

Desculpe voltar, mas parecem almas penadas a lamentar o seu próprio destino perante a agonia do mestre maléfico! Um cenário horripilante!!!
Garanto-lhe que se os nazis tivessem ganhado a guerra multidões tb teriam chorado a morte de Hitler; quando de Staline e de Mao Tse Tsung o mesmo sucedeu. E tratam-se a meu ver de monstros da mesma índole ainda que de quadrantes políticos diferentes!

Combustões disse...

Caros amigos
A provocação parece ter resultado, pois verifico que nos custa pensar sem o travesseiro das verdades estabelecidas. Cortéz pensou como nós ao chegar ao México. Diante das pirâmides sacrificiais eriçou-se-lhe o cabelo e para acabar com aquela monstruosidade, destruiu a cidade e todos os seus habitantes.
Há quem, tacitamente, aceite uma guerra atómica preventiva - contra a Coreia do Norte, contra o Irão ou o Paquistão - para salvar a humanidade.

António Bettencourt disse...

E o Miguel, claro, mais inteligente que os demais prescinde das verdades estabelecidas (porque será que foram estabelecidas?) e pode dar lições a todos.

É uma pena ver um blog inteligente cada vez mais transformado num dedinho em riste contra tudo e contra todos.

Estou com a Isabel, entre isto e a mercantilização do mundo, prefiro, sem sombra de dúvidas, a segunda hipótese mesmo com tudo o que tem de negativo.

Entre os especuladores de Wall Street e afins e um regime destes, venha a máquina do capitalismo que, pelo menos, ainda é garante de alguma vida.

O que aqui vejo é um retrato do mal absoluto só comparável a Auschwitz. É uma espécie de Auschwitz em que todos são obrigados a ficar vivos e a suportar aquele horror e desumanização.

Já agora, foi o comércio que abriu os espíritos e deu origem ao melhor que o mundo nos deu. Sem o comércio ou o impulso mercantilista não teria havido Descobrimentos (suponho que o Miguel já não acredita que foram feitos para espalhar a fé ou por puro espírito de descobrimento científico, como nos ensinavam na escolinha). Sem o comércio, a transacção de bens, consequente movimentação de pessoas, viagens e troca de saberes, a Europa nunca teria tido o brilho e esplendor cultural e científico que teve.

Mas claro que isto sou eu e a minha visão almofadada da realidade.

Já agora, o Miguel podia-nos esclarecer um pouco melhor o que é que têm de rosto humano as pessoas que governam estes paraísos? Acha que aquela gente está mesmo ali de vontade própria?

Vir falar de monarquia e apresentar este exemplo é o melhor serviço que presta aos anti-monárquicos.

Combustões disse...

António
Creio que não percebeu. Talvez o erro seja meu, mas escrevi o oposto do que diz.
O que disse foi: só há crueldade em regimes que de forma mais ou menos clara exploram a dimensão emotiva que era (e é) apanágio das monarquias. Mais, disse que o liberalismo, tal como o entendem alguns liberais primários, circunscreve-se à esfera das necessidades animais, não respondem a qualquer necessidade profunda do homem. A monarquia, essa é resposta à sede de sublime (sagrado) e o melhor antídoto contra a tentação totalitária. Acrescentei, por fim, em nota aqui deixada, que há um totalitarismo dito liberal que, embora benigno, é também uma forma de totalitarismo.
Não concordo com o seu entusiasmo pelo comércio. Nas sociedades mais civilizadas, os comerciantes foram sempre, até há dois séculos, os menos respeitados, os menos ouvidos e os menos inspirados construtores de cultura. E ainda são. Veja a Europa de hoje e diga-me se não foi a inversão da estética social que nos trouxe a este colapso !

Pedro Botelho disse...

«Dimensão sagrada» quer dizer proibição de afastar as cortinas, como no Kadosh Hakadashim, não é?

Nuno Castelo-Branco disse...

Há três dias, João Carlos I recebeu vivo mas de periclitante saúde, a mais espontânea, prolongada e estrondosa ovação jamais ouvida em plenas Cortes. Não da parte do "povo chão" que facilmente se emociona, mas precisamente daqueles que estão habituados à reserva mental e aos viciozinhos da política e olhares altaneiros de uma auto-atribuída superioridade sem nexo ou merecimento.
As cenas que vimos em Pyon-Yang, remetem-nos para outra dimensão, entre o carpideirismo de um funeral cigano, ou a coreografada grandeza do tempo dos faraós. Para nós, ocidentais bem acostumados ao encolher de ombros e logo seguirmos em frente após umas horas de recolhimento, a tradição oriental parece-nos tão distante quanto Orion. Mas é mesmo assim e nós, portugueses, tínhamos uma especial tendência para nos adaptarmos aos rituais de outrem. Foi precisamente isso, como o kaw-toei diante do imperador da China - por exemplo - que nos eximiu de bastantes contrariedades.
O regime norte-coreano é o que se sabe, mas consegue a proeza de atrair as atenções gerais para aquilo que de pior apresenta e também para a competência na manipulação das massas, coisa que na Europa já não se vê desde os anos 30.
De todo aquele berreiro, lágrimas secas e prostrações em neve quase solidificada, retenho dois aspectos curiosos: apesar de tudo, aquela gente está de cara redonda e sem aspecto de esqueleto de Auschwitz. E sobretudo, "de sobretudo", bem agasalhada. *

* Não, não simpatizo minimamente com o comunismo norte-coreano. Isso deixo para os nossos camaradas do PCP/BE.

Combustões disse...

Claro, mas após 20 anos submetidos a mentiras que abriram passo a "guerras justas" (Iraque, Afeganistão e Líbia) que terminaram na aliança original entre os EUA e os fundamentalistas, já não acredito nestas intoxicações primárias. Aliás, como sabes, a Coreia do Sul não é flor que se cheire, o país mais racista, xenófobo e BIMBO da Ásia amarela. A prová-lo, o facto de estar, por via da "abundância" tão alienado como a Coreia do Norte: metade da população afirmando-se "agnóstica" ou ateia e 20% adventista, o pior da contaminação americana. Espanta-me que se façam elogios a essa democracia onde vigora a censura prévia, onde é proibida a divulgação de qualquer obra de arte japonesa, onde o governo paga a delação, as minorias são banidas, o tráfico de carne branca bate recordes. É, de longe, o que de pior existe nessa Ásia que tanto me entusiasma.

António Bettencourt disse...

Caro Miguel,

de facto li mal o seu post e não o entendi tal como explica acima. Mas também quase que seriam precisos dotes de hermeneuta para retirar essa interpretação daquilo que ali está escrito. Seja como for, a verdade é que li mal e por isso lhe peço desculpa.

Quanto à questão do comércio, aí discordamos mesmo. Se é verdade que os comerciantes gozavam de algum desprezo como uma espécie de parvenues, a verdade é que foi também esta actividade que abriu as fronteiras do saber, pôs em comunicação povos e culturas, promoveu o conhecimento e investigação científica, construiu a riqueza dos povos. Mesmo a questão do desprezo, vamos com calma, isso talvez fosse verdade na Europa católica mas não na Europa do Norte, e temos o exemplo da Holanda e outros países protestantes. Francamente, Miguel, negar o papel do comércio no desenvolvimento cultural da Europa não lembra a ninguém. Você que é um orientalista acha que fomos para o Oriente fazer o quê? A riqueza de reis, duques e senhores provinha de quê? Se os Medici e outros puderam pagar o Renascimento em Itália, de onde lhes vinha o dinheiro? Quem comprou as obras de arte dos mestres holandeses? O que procurava D. Manuel?

Nuno, em Auschwitz, quando havia visitas da Cruz Vermelha, também todos eles estavam bem alimentados e agasalhados. Até tinham uma orquestra.

Pedro Botelho disse...

António Bettencourt tem razão: e não só orquestra, mas teatro, piscina, bordel, campo de jogos e câmaras de gás sanitárias, i.e. para liquidar piolhos e evitar epidemias de tifo. Parece-me óbvio que Nuno Castelo-Branco queria dizer Belsen. A não ser que a intenção fosse irónica, assim como quem diz que «a tradição oriental nos parece tão distante quanto Orion», distância essa que, como se sabe, nem sequer existe, uma vez que as constelações, como os mitos, se situam na esfera celeste virtual. Orion e Auschwitz: o mito e a mítica propaganda.