22 novembro 2011

O gajame



São umas grandes senhoras. Ocupam lugares que não merecem, fizeram da lei uma anedota, cobriram as mais elementares virtudes de irrisão. De que vale trabalhar, cumprir e esgotar-se em canseiras se tudo está nas mãos "delas", se tudo depende do nihil obstat de gente que nunca teve um assomo de energia mental, que nunca se submeteu à lei, que viciou todas as regras, que escorraçou a concorrência e ainda exige que os dalit (intocáveis, sem casta) se lhes submetam naturalmente ?

O clube delas está cheio. Não entra ninguém. "Queres ser ministra ? Então, escolhe". "Queres ser diplomata ? Olha, abriu um concurso público e entras". "Queres ir para Bruxelas ? Criamos um lugar para ti". Há sempres criados ao dispor. Há sempre um moço de fretes para carregar a mala. Há sempre um mujique de faixa de couro à cintura para arrastar a barca. O gado humano - hominum pecudumque - que se arraste no seu pequeno mundo, se entretenha e viva na escala do micrómegas.

O gajame tem de tudo. Meninas parvas, com nomes de família: que importância se dá em Portugal a uma qualquer menina tonta se for uma Sousa e Melo, uma Godinho da Silveira, uma Pereira de Castro, mesmo que tudo isso não passe de nomes de mercearia ou de tratantes de escravos da costa de África. As meninas estão por todo o lado. Basta que saibam falar na criada, na República Dominicana ou nos negócios do cara-metade (o Diogo, o Martim, o Cristovão) para fazer carreira. Depois, há as Cátias, as Vanessas, as Sónias saídas da obscuridade. Querem fazer dinheiro, querem poder e subiram em anos aquilo que antes exigia umas quatro gerações.

Dizia-me uma amiga que já não tenta. Esgotou-se. Rendeu-se à evidência e submeteu-se à lei de bronze das meninas patetas pintadas de louro e das mulheres-homem de buço e saia-saco e saia-casaco que se entranharam nas instituições como piolhos num sobretudo.

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