04 outubro 2011

Paris de olhos em bico e sem péril jaune

Há treze anos residi em Paris. Ali estive o tempo suficiente para preparar a dissertação de mestrado sobre Homem Cristo Filho, que viria a defender em finais do século. Residia num bairro popular lá para os confins da linha da Porte des Lilas, povoada por uma babilónia de trabalhadores vindos de todas as partidas do mundo em busca de uma mirífica riqueza. Cambojanos, laocianos e vietnamitas pobres, magrebinos imobilizados nas suas épiceries de bairro, alguns espanhóis e portugueses, muita classe operária francesa. Os anos passaram, a minha vida seguiu outro rumo e à "cidade luz" - cada vez mais fraldiqueira, numa estafada decadência que já não esconde as vergonhas - voltei de quando em quando sem a paixão de outrora.
Desta vez tinha de lá regressar para ultimar a dissertação de doutoramento sobre as relações entre Portugal e o Sião, que prometi solenemente à família e ao meu orientador terminar antes das primeiras chuvas do Outono. Decidi-me ficar num apartamento noutro bairro exótico, a Cidade Chinesa, nas vizinhanças da Place d'Italie.

Ali moram trezentos mil asiáticos. Dir-se-ia uma cidade do Sudeste-Asiático. Eles, os asiáticos, fizeram progressos que não podem ocultar. De pobres lojistas, vendedores de rua e criados de restaurante saíram engenheiros, médicos, advogados e políticos. Os asiáticos investiram forte nos filhos. Os magrebinos, esses, ficaram onde estavam. Os asiáticos fizeram-se burgueses, os magrebinos transformaram-se em racaille. Escolhi a Place d'Italie porque é segura e porque ali posso tomar um pequeno almoço à cambojana, um almoço à tailandesa, jantar à vietnamita e levar para casa uma ceia cantonesa. Ali há restaurantes, supermercados, cinemas, livrarias e boutiques para asiáticos, com produtos asiáticos. A febre do jogo impera, como por toda a Ásia. Apostas nas corridas de cavalos e de cães, lotarias, jogo movimentam milhões. É a Ásia e a sua quase infantil maneira de fintar a sorte.

Uma sexta-feira em grande. O Louvre no seu esplendor, puxando os galões à fanada grandeza pretérita dos valois e capetos. Kangxi rivalizando com Luís XIV, Qianlong com Luís XV. A França que se enternece com o seu passado de glórias -a velha nostalgia das ex-grandes potências - e sonha alto com o tempo em que havia na Europa um Rei Sol que só encontrava rival no Filho do Céu que se sentava na Cidade Proibida de Pequim.

Tudo tresanda a despedida: a França que se apaga, a China que se expande sobre o planeta e sonha novamente com um mundo globalizado pelas maneiras asiáticas. Há anos, a China era um remoto buraco e o "orientalismo" vivia de clichés pouco menores que caricaturas. Hoje, os franceses, na sua república caduca, prestam-lhe tributo de admiração. Nas paredes da velha muralha do Louvre, uma expressiva transcrição dos escritos de Kangxi: "de música e comida tive bastante; de espírito tive algum".


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