31 outubro 2011

A morte do pequeno deus

No quadro complexo da crise generalizada que perpassa diante dos nossos olhos - crise que parece ser a do Ocidente, mas é de todo o mundo, entretanto ocidentalizado nas formas, nos modos e aspirações - o colapso da respeitabilidade dos governos ocupa lugar destacado. Dir-se-ia que os governos perderam, quase todos, a eficácia e controlo sobre o rumo dos acontecimentos e que o fenómeno toca por igual os governos de autoridade, os governos totalitários e os chamados governos representativos. Com que direito se organizam cerradas campanhas apelando à guerra mais ou menos descarada contra governos autoritários, com que direito se bombardeiam países, se matam populações, desorganizam as suas instituições e se matam chefes de Estado em nome de certos valores se no Ocidente se lançam cargas policiais, gás lacrimogénio e se prendem centenas de pessoas sem mandado invocando as mesmas razões de que se socorrem os governos autoritários assaltados do exterior ?


A crise que vivemos é a crise da ficção dos governos. Na presente crise, a excepção parece ser a dos países onde não há governo. Na Europa em pré-bancarrota, o único país que se tem saído bem é a Bélgica, que esteve sem governo durante ano e meio. Onde há políticos e gestores do imediato, há crise; onde não os há, a crise parece resolver-se de forma natural. No fundo, a crise dos governos é a crise de um modelo. No Antigo Regime, que tinha governos mínimos, quase sem funcionalismo, os governos serviam o Rei e não se envolviam em minudências. Os chamados corpos intermédios cuidavam do essencial, resolviam os problemas e encontravam soluções. Hoje, que os governos são complexos, pesados, estão em todo o lado, legislam sobre tudo, as crises tornam-se generalizadas, invadem todos os campos da vida colectiva e imobilizam as sociedades.


Aqui na Tailândia, a tragédia das cheias veio confirmar a inutilidade do governo. As Forças Armadas, a única instituição não maculada pela inábil mão dos políticos, tem sido o garante da ordem e a única a responder às necessidades das pessoas. Tão atacadas há dois anos, demonstraram na presente crise humanitária que, afinal, mais importante que a logorreia dos parlamentos, das suas caras e carantonhas, há outros “partidos” que servem o bem-comum e reunem o pleno do apoio comunitário. Não fossem os soldados e a Tailândia estaria hoje a braços com actos generalizados de vandalismo e luta pela sobrevivência de milhões de pessoas que confiaram num governo que mais não sabe fazer que emitir comunicados e promessas.


Os governos representativos são coisa bonita, mas não resistem à mínima contrariedade. Pergunto-me para que servem esses parlamentos amadores, com 200, 300 ou 400 deputados reunidos em permanência – com as suas comissões parlamentares, as suas auditorias, os discursos de facção, as oposições – se não conseguem responder a solicitações tão básicas como o fornecimento de água potável e um prato de arroz a milhões de pessoas afectadas por uma calamidade natural. Sim, como no Antigo Regime, deviamos ter uns Estados Gerais de dez em dez anos, um governo escolhido e devidamente vigiado por um funcionalismo público especializado e pouco mais.


Ausência de governo representativo ? Não, porque no Antigo regime havia as liberdades que obrigavam o Estado a não ultrapassar os seus limites, havia os parlamentos regionais, as comunas e os corpos sociais sempre atentos à mínima tentação controleira do governo central. As pessoas clamam por liberdade – o mais precioso dos bens – mas começam a desesperar da intolerável inépcia daqueles que, embora eleitos, já não conseguem esconder a escancarada mentira de uma inutilidade prejudicial.



1 comentário:

Paul disse...

Tout cela est bien vrai… La Belgique restera sans doute un modèle de gouvernement… sans gouvernement. On se garde bien de nous donner des chiffres, mais sans gouvernement la Belgique est certainement le pays d’Europe dont l’État est le moins endetté, naturellement ! Ce pays sans gouvernement a pu assurer sans gêne particulière la présidence de l’Europe…

Mais ce pays sans gouvernement a un Roi… Un Roi qui assume ses fonctions…

La Belgique nous a administré une formidable leçon : seule compte la permanence.

La gestion quotidienne ça peut être l’affaire de n’importe quelle poupée - autant qu’elle soit jolie - ou de n’importe quel pantin - autant qu’il soit drôle.