20 outubro 2011

A liberdade com o dedo no gatilho

Dizia António José de Almeida que ao ouvir o grito viva a liberdade, corria à janela para ver quem estava a ser preso. Quem diz ser preso, pode dizer ser morto. Triunfou, finalmente, a lei da rua, para gáudio da estranha aliança entre as petroleiras e a Al Quaeda, o mais elementar da religião do dinheiro com o mais elementar da superstição selvagem regressiva. A democracia chegou à Libia, dizem os cândidos. Diria que democracias assim, armadas pelo estrangeiro, feitas de bombardeamentos sem interrupção sobre um país soberano - sem um queixume, sem uma objecção da comunidade internacional - adensa os mais negros vaticínios. Um dia destes, a Troika manda bombardear S. Bento e leva a Haia os nossos governantes por se recusarem a cumprir novas metas. Estou certo que as líbias devem andar excitadíssimas com a perspectiva das burkas e que os tribunais em breve substituirão os códigos pelos versículos. Progressos do mundo.
Perguntava-me há dias um amigo, muito afeitadinho "às boas formas" - aquelas que se repetem à exaustão, mas nunca mostram o conteúdo (por não o terem) por que razão estava tão pessimista a respeito das "novas democracias" no Norte de África. Para escândalo de tão bom crente nessa religião das democracias a todo o custo, disse-lhe que a diferença não é entre ditadores e não-ditadores, mas entre bons governantes e maus governantes e que até há bons ditadores e péssimos democratas. Acontece, doa a quem doer, é que o presidente líbio foi um bom governante e ofereceu ao seu povo os melhores índices de todo o continente: na educação, na saúde, na esperança de vida, na distribuição da riqueza.
Aconteceu agora ao ditador líbio o que fizeram a Mussolini. Diz-se com quase certeza que Mussolini foi abatido por ordem dos ingleses. Quem diz Mussolini, pode dizer Savimbi, o Presidente Diem e tantos outros que vão sendo trocados na andança dos grandes negócios do mundo. Estou certo que o mesmo poderemos dizer a respeito de Kadhafi. Hoje, Tony Blair, Sarkozy, Berlusconi e o Prémio Nobel Obama poderão dormir descansados. Calou-e a voz. Um salto em frente no progresso da humanidade. Como dizia uma dessas primatas telegénicas que a CNN exibe 24 sobre 24 horas no nunca-acaba de tagarelice jornaleira, "today, a terrific day".

2 comentários:

Isabel Metello disse...

Eu fiquei chocadíssima com a bestialidade cometida, fosse quem fosse o homem. O olhar dos assassinos é sempre o mesmo- engraçado porque há ali uma expressão esgazeada muito parecida com a de quem sujou as mãos...e os animais abatidos, outra barbárie! Isto é tudo um nojo! Ainda hoje uma parangona num jornal nacional: "Kadaffi morto como uma ratazana". Mas isto é civilidade???

Chardon Ardent disse...

Un article signé Jérémy Salt, professeur agrégé et spécialiste en histoire et politique du Moyen-Orient à l’Université Bilkent à Ankara… Un bel article en hommage à Mouammar Kadhafi : Kadhafi, héros de la résistance, Syrte dans la légende… sur le blog de Serge Adam

« Une légende est en train de naître qui va hanter les gens qui ont été propulsés au pouvoir à Tripoli. Dans Syrte, face à d’insurmontables défis, une poignée d’hommes a donné un exemple de bravoure qui finira par trouver sa place dans l’histoire arabe…. »